Coluna da Luciana Martins
nº 117, domingo, 25 de julho de 2010Nostalgia e memória
Parte I
jornal Turma da BarraPara Rafisa, prima-neta recém-nascida
Não consigo entender por que existe este fascínio tão grande pelo que passou, pelas coisas que aconteceram ou aconteciam “antigamente”.
Só sei que a nostalgia que a gente tem do passado me parece faculdade intrínseca do ser humano.
Tenho pra mim que é porque a memória é primordialmente feita de passado. Rememorar é ato de se trazer pra frente o que ficou pra trás, de se recuperar o que deixou de existir, mesmo que há poucos centésimos de segundo. Sem contar o fato de que a memória ainda é responsável por tornar presente, na consciência, aquilo que o inconsciente nos fez vivenciar. (Não ouso entrar na questão de se há ou não uma memória do futuro, porque minha filosofia é parca para tanto.)
De toda maneira, tanto pensadores estudam o tema como igualmente poetas tratam desse vínculo indissolúvel da memória com o passado.
“Mnemosine” é a deusa-mãe das nove musas gregas dos processos criativos — fonte de inspiração e de engenho. Foi amante de Zeus, de quem engravidou das nove meninas. A deusa é uma das seis filhas de Urano (o Céu) e de Gaia (a Terra). Por ser herdeira da relação amorosa que engendrou o mundo, essa moça é nada insignificante.
Não é à toa que a memória perpassa a atividade artística e a cotidiana da humanidade desde que homens e mulheres começaram a descobrir sua capacidade de pensar, de cogitar, de raciocinar, de elucubrar, de intuir, de devanear.
É uma contradição das brabas, um oxímoro quase trágico — isto de o passado ter sido horrível para tanta gente e, assim mesmo, possuir esse encanto contagiante.
Um exemplo cinematográfico de critérios racionais sobre a constatação de que o passado era feio e triste — se não igual, pior do que os dias de hoje — está no filme “As invasões bárbaras” (2003), continuação do famoso “O declínio do império americano” (1986), do canadense Denys Arcand.
O personagem em torno de quem gira toda a trama é Rémy (Rémy Girard), intelectual e professor que se encontra à beira da morte, no estágio terminal de um câncer que invadiu todo seu corpo.
Em determinado momento, no hospital onde se interna inicialmente, Rémy discute com uma freira sobre o passado histórico da humanidade. Ela afirma, se bem me lembro, que o mundo estava doente e que o apocalipse tinha chegado.
Rémy contra-argumenta, dizendo que antes o mundo era tão ruim quanto agora, e cita as invasões romanas, as invasões bárbaras, as cruzadas e tantas outras guerras ocorridas no passado. Enfático, ele conclui que a única diferença entre as “barbaridades” antigas e as atuais reside nas armas utilizadas então: pau, pedra, machado, faca, punhal, adaga, clava, espada — em função do que o caráter sanguinolento dos combates ficava mais explícito. De resto, conclui, estaremos sempre no mesmo barco — antes, agora e no futuro.
Rémy está mais do que certo. Mas, venhamos e convenhamos, o passado tem realmente seu charme. Basta olharmos, por exemplo, as pinturas antigas e os retratos de família.
Quanto ao passado mais recente, nada como a magia dos retratos de gente desconhecida flanando pelas ruas de qualquer cidade do mundo desde o início dos tempos da invenção da fotografia — invenção esta de que até o genial poeta Charles Baudelaire se ressentiu, no século XIX, considerando que “aquilo” jamais poderia vir a ser arte.
Entretanto, fotografia e cinematógrafo vieram para deixar definitivamente a marca do passado cravada na memória das gentes. E, para completar, a recente tecnologia digital apareceu não apenas para tornar o presente, no futuro, um passado repleto de registros, como também para resgatar o que a fotografia e o cinema tradicionais não estavam dando conta de deixar eterno.
Trazendo essa reflexão para o campo pessoal, quinta-feira passada, por exemplo — três dias depois de ter chegado “na terrinha” — fui conhecer o que se tornou o antigo aeroporto da Barra do Corda com meus amigos do TB (Álvaro, Pablo e Renilton).
Fica bem aqui no final da Rua Isaac Martins, no início da Altamira, perto do INSS. Penso que não dista sequer mais de um quilômetro do centro da cidade. Ali, na década de cinquenta do século recém terminado, era só barro e mato, ao contrário de hoje, quando a Isaac Martins tem casa de ponta a ponta, e a Altamira se tornou um bairro três vezes maior do que o centro da Barra.
Mal acreditei quando me levaram por dentro do quintal de uma residência e me vi diante do que foi o primeiro aeroporto da Princesa do Sertão, com sua casinha linda de madeira, que hoje não passa de uma despensa de coisa velha.
Olhei os arredores cercados de construção por todos os lados. A dona do terreno, uma senhora falante e simpática, dizia-nos que ali é para ser construída uma casa para sua filha e seu genro, mas que não descarta a possibilidade de vender o pedaço histórico.
Álvaro, como todos sabem, é o jovem historiador de nossa cidade. (Foi preciso vir morar aqui esse cearense para contar a história da Barra do Corda com todos os pingos nos is.) Cumpre ressaltar, todavia, que é inegável a preciosidade do livro de Galeno Brandes, “Barra do Corda na História do Maranhão”.
Acontece que Álvaro quer ir mais longe (e a idade de quarenta e poucos anos juntamente com a saúde lhe permite): está recolhendo a história de nossa comarca por meio das fotografias de coleções privadas de cada família e também por narrativas ouvidas em toda esquina de qualquer cidadão com paciência que quiser falar do passado cordino.
Ele não é bobo e sabe que a história de um povo se faz não unicamente com heróis (no sentido usual), mas com gente comum, que tece a tradição dia a dia.
Fiquei bestificada quando Álvaro abriu o envelope que carregava e de lá tirou inúmeras fotografias daquele aeroporto quando de fato funcionava nos anos cinquenta. Além do mais, ele sabia o nome (e os ascendentes e descendentes) de cada um que aparecesse nas fotos, sendo que até pessoas de minha família encontrei. Ele também trazia algumas fotos do “novo” aeroporto, o segundo, inaugurado em 1958. Os aviões eram gigantes, do tamanho dos atuais, pois por aqui aterrissavam os DC3 da Varig, que por anos teve a Barra do Corda em sua rota, e aviões militares da FAB.
Impressionou-me, acima de tudo, a representação da moda dos anos cinquenta, uma das mais elegantes de toda a História, a meu ver. Homens altivos, bem-vestidos. Algumas mulheres, ainda por cima, pareciam ter saído de um filme de Federico Fellini direto para os aeroportos da Barra.
Reconto esse passeio para dizer como acho interessante o uso da memória do passado para estreitar laços afetivos. Ninguém se lembra sozinho de tudo o que viu e viveu. É sempre necessário recorrer à memória do outro, aos dados que estão em suas gavetas — nos guarda-roupas dos quartos e nos armários mentais.
Ind’agora, ao me dar as informações sobre suas lembranças do aeroporto da Rua Isaac Martins, minha tia Laura acrescentou nunca ter se esquecido de um dado curioso: o aeroporto era considerado um ponto turístico, e, toda vez que o povo lá ia passear, ao chegar, batia nas portas das poucas casas que havia na Altamira pedindo água para lavar os pés, sujos de barro.
No início, os moradores acediam, gentis. Aos poucos foram percebendo que seria impossível continuar lavando pés de tanta gente, visto que a água não era encanada e era trazida em baldes da beira do rio ladeira acima.
Vejam que, no meio de todo aquele glamour a que me referi, a vida cotidiana era dificultosa e cheia de obstáculos — para os mais pobres principalmente.
Celso Borges, amigo meu, em seu mais recente livro (“Belle Époque”), fez um poema muito engraçado sobre isso. Numa mordaz enumeração sobre os males (considerados benefícios por muitos) da vida contemporânea, destila que “antigamente era antigamente/ era antigamente era muito pior” (citando de memória, a composição dos versos pode vir aqui com algum errinho).
Concordo: antigamente era pior. Mas o pior já passou. Ainda que volte amanhã bem cedo.
*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
lucianamar@terra.com.br
Coluna da Luciana Martins
nº 116, domingo, 4 de julho de 2010“Tudo pode dar certo”
jornal Turma da Barra
Era uma vez uma mulher que tinha ficado casada por cerca de treze anos e depois se separado. Afirmava não suportar a idéia de viver sozinha na velhice. “Sem homem, sem marido, nem pensar” – dizia. E olhem que ela possuía três filhos...
Entre os trinta e os cinquenta anos de idade (aproximadamente), ela empreendeu a busca incansável daquele que seria seu parceiro na velhice futura.
Em cada lugar que ia, era um tal de trocar olhares nervosos, apressados com os homens ao redor.
Era uma mulher muito sedutora e inteligente. Conhecia tudo de teoria e crítica das artes plásticas, assunto de que dava aulas numa universidade renomada.
Os homens acometiam aos borbotões em sua mesa quando frequentava cafés ou bares acompanhada de outras amigas. Desses passeios ela sempre saía com uma “promessa de felicidade”, tendo alguém anotado seu número de telefone com o maior entusiasmo do mundo.
Isso quando não acontecia de ela ir direto para a cama com o indivíduo encontrado.
Tudo nessa mulher me era antipático: sua forma de “dar o bote”, sua voz modificada diante da presença masculina, seus artifícios de sedução, sua maneira de vestir...
Ela me parecia primitiva (da época das cavernas); suas atitudes me davam vergonha do gênero feminino.
Até que um dia eu comecei também a observar os homens que dela se aproximavam. E tive a confirmação do que já intuía.
Eles correspondiam a uma versão masculina daquela mulher. Modos, gestos, falas, diálogos....idênticos. Eram iguaizinhos, homens e mulher.
[Por que logo essas criaturas aparecem em minha cabeça para que eu narre fragmentos de suas histórias medíocres?]
“Acabei de chegar da minha casa de praia.” – dizia um dos paqueras noturnos de minha personagem feminil.
E ela pensava: “Que bom: esse tem casa própria e ainda possui outra além! Isso quer dizer que vale a pena investir numa relação. Ao menos não haverá problemas econômicos.”
“Eu sou o escritor Fulano de Tal. Você nunca leu nada meu? Apareci duas vezes no programa do Jô Soares.” – dizia outro.
Então ela escolhia um e por este era escolhida, de modo que começavam a entabular um “relacionamento”.
Ele pensava: “Boa mulher com quem manter uma estabilidade emocional na velhice, com as puladas de cerca básicas.”
Ela pensava: “Excelente homem para não me deixar sozinha na velhice; assim poderei morrer em paz.”
Foram dezessete relacionamentos até encontrar o par ideal. O último foi o com quem de fato ela “deu certo”, porque pôde comprar uma sepultura para ambos no cemitério da cidade.
*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
lucianamar@terra.com.br
Coluna da Luciana Martins
nº 115, domingo, 6 de junho de 2010“não durou mais que uma tarde/ a trama da eternidade”
jornal Turma da BarraPara meu amigos, Eleoterio Burrego e Marcelo Sandmann.
Os gritos de Seu Arnaldo, neste fim de semana, ficaram insuportáveis para mim. Parece que nunca vai acabar, nunca vai parar seu bordão, este seu mesquinho ramerrão. Até porque ninguém vai socorrer mesmo esse homem mais morto do que vivo — entretanto com a voz ainda forte, os braços também; braços que insistentemente batem na janela tentando quebrar o vidro para, quem sabe, fazer o resto do corpo se lançar para baixo.
Tenho para mim que ele só não se atira pelo fato de morar no primeiro andar, e de a queda ser curta, podendo apenas aleijar, não matar. Não seria nada cinematográfico.
Existem dois Arnaldos: um quer morrer outro quer viver. Hoje estou sem compaixão por ambos.
Quando vim morar no Monte Alegre, eu enxergava todo dia, embaixo do bloco, um homem sempre com a mesma roupa, andando muito devagar, indo e vindo em direção à comercial da quadra de cima — onde há restaurantes, mercados, confeitaria, butiques, padaria, salões de beleza, banco, livraria.
Com o tempo fui descobrindo quem ele era e o que fazia pracolá. Cheguei exatamente na época em que ele andava portando uma faca, diz que para se defender de uns homens que queriam matá-lo.
Colhi mais informações com Seu Paulo, o porteiro, e sua esposa, Ironeide. São os dois únicos que têm coragem de peitar esse homem e de entrar em sua casa. Paulo ajuda-o a pagar as contas; Ironeide, a não deixar (debalde) o lixo acumular.
Soube que ele vai na comercial todo dia para almoçar e, algumas vezes, para conferir seu dinheiro no banco. Soube da crosta de sujeira de cerca de cinco centímetros que costuma cobrir o chão do apartamento. Soube que não se casou nem teve filhos. Soube de seu medo constante de ser assaltado e morto.
Nas reuniões de condomínio, fala-se das dificuldades de se achar uma solução para a vida de Seu Arnaldo. Dizem que o irmão e a irmã que ele possui e que moram em Goiânia foram avisados reiteradamente de que o homem “não anda batendo muito bem da bola”, mas não tomam as devidas providências.
De todo modo, vieram aí há uns quinze dias, a irmã com suas filhas. Ficaram apenas de dez às cinco, tempo suficiente para ser concluída a faxina que contrataram.
Seu Paulo acha que não o querem levar e ficam inventando desculpa. Ironeide é mais otimista e diz que ele não vai porque argumenta que só irá se vender o apartamento, coisa que o juiz não permite dada sua condição mental. Por outro lado, também não lhe interditaram ainda, transferindo para os irmãos a capacidade de dispor de seus bens e dinheiro — condição que esses, por sua vez, estabelecem para levá-lo.
Nos últimos quatro anos venho convivendo com esse Dom Quixote sem charme, temido por todas as crianças do prédio e também por vários adultos.
Isso me faz recordar o momento em que Dom Casmurro (Bento Santiago) nos narra sua situação de velhice e conclui: “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.” (Dom Casmurro, Cap. II, Machado de Assis)
Sempre fiz questão de cumprimentá-lo com naturalidade, coisa que aliás ele mesmo estranha.
“Bom dia, Seu Arnaldo”, disse-lhe eu, ano passado no Banco do Brasil. Ele me olhou sem me enxergar e proferiu: “Arnaldo Beltrano de Tal, nascido em tanto de tanto de mil novecentos e vinte e sete.”
Em resposta a mais um bom-dia meu, noutra ocasião, encheu-me as mãos de balas e bombons dizendo apenas: “Para as crianças”. Comoveu-me sua ternura, no entanto logo me esqueci dele, como sempre acontece.
Mas não contei ainda o principal, o mais curioso, no fim das contas: é que, mal entra a noite, o homem perde o pouco do prumo que o sustentou durante o dia. E principia a sua cotidiana ladainha:
“Arnaldo! Arnaldo! Arnaldo!”
“Arnaldo, Arnaldo, Arnaldo!!!!!” — dispara ele, como uma metralhadora giratória, a chamar, a clamar por si próprio. “Socorro! Socorro! Socorro, Arnaldo!”
O prédio todo vai dormir com essa cantiga de ninar delirante. Os que moram mais perto, como eu, conseguem ouvir nitidamente os parcos diálogos que Seu Arnaldo trava consigo mesmo e com seu outro eu, quando este lhe atende aos chamados.
Em Brasília, alguns prédios têm como característica mais vistosa a elegância de seus jardins. O Monte Alegre — além do pequeno bosque que lhe acompanha (o qual já citei nesta coluna) — tem o Seu Arnaldo, perdido de si. Este já faz parte da paisagem com que nos acostumamos.
Para terminar o assunto, gostaria de relatar mais dois episódios envolvendo Seu Arnaldo.
Desde criança sou sonâmbula, e, agora, com a chegada ora apressada ora vagarosa dos janeiros, nos fins de semana virei noctívaga, deambulando entre meu quarto e o escritório, de madrugada, a garatujar versos algumas vezes até para mim incompreensíveis.
Numa dessas noites, sentei-me na cama e ouvi aproximadamente cinco minutos do monólogo nítido e bastante agitado de meu vizinho. Pensei em pegar o caderno para anotar, no entanto constatei assustada que iria escrever apenas um nome, o nome completo da criatura.
Recordei-me imediatamente da cena em que Shelley Duvall, que faz a mulher do personagem Jack Torrance (Jack Nicholson) , em “O iluminado”, vai ler o suposto livro que o marido passa horas escrevendo, e descobre que ele só repete infinitas vezes a frase “Muito trabalho e pouca diversão fazem de Jack um bobão.”
Amedrontada, sentindo-me dentro do filme de Kubrick, achei melhor voltar a dormir, não sem antes constatar ser aquela a segunda vez que o vizinho repetia nitidamente para mim o seu nome por inteiro. Pois, de resto, o que ele faz, noite após noite, é chamar por “Arnaldo, Arnaldo, Arnaldo” — de início sussurrando e por fim gritando.
E agora, por último, veio o dia 28 de maio de 2010. Sexta-feira retrasada. Anotei no meu diário o seguinte diálogo — que vazava para a rua por entre os combogós de sua cozinha — de Arnaldo com Arnaldo:
“Arnaldo!”
“Que foi, rapaz?“
“Quer morrer?”
“Não quero morrer, não. Você quer, moça?” — dirigindo-se a uma passante.
“Eu vou te matar, cara!”
“Você não vai conseguir!”
Dali a pouco, Arnaldo começou a gritar por socorro. “Socorro, Arnaldo! Socorro, Arnaldo”. Nesse instante, eu estava diligentemente posicionada no canto de minha área de serviço, a olhar com os olhos e os ouvidos pela janelinha, querendo ver até onde o velho ia chegar daquela vez.
Um morador do bloco da frente, que tinha acabado de estacionar seu carro, olhou para o apartamento de Arnaldo e falou:
“Pára com isso!”
“O quê?” — perguntou meu vizinho.
“Vai dormir!” — completou o outro, virando as costas e entrando na portaria, sem paciência.
“Como posso dormir, se não tem ninguém para me acordar?”
Meio minuto depois:
“Roubaram tudo o que eu tinha.”
Pois vejam só.
Dois dias depois, na madrugada de domingo para segunda-feira (31) do mesmo fim de semana, foi assassinado, em Curitiba, com uma punhalada na nuca, o escritor Wilson Bueno.
Esse cara foi meu amigo durante os anos de 85, 86 e 87... Da primeira vez que morei em Curitiba.Fomos companheiros inseparáveis na noite curitibana, exatamente quando eu não tinha ninguém para conversar sobre literatura, a não ser ele e mais um ou dois colegas do extinto “Correio de Notícias”.
Eu estava morando numa cidade belíssima, mas, na época, hermeticamente fechada para nordestinos escancarados como eu.
Aprendi muito com o impetuoso Wilson. Foi com ele e por ele que tive coragem de dizer, pela primeira vez na vida, ainda que bem baixinho, para poucos ouvirem:
“Eu escrevo poesia. Eu SOU escritora.”
Quando voltei a morar em Curitiba, em 1995, Wilson então já era um escritor renomado e sério (no melhor sentido, pois tinha largado a bebida que tanto lhe fazia mal).
Durante os dez anos que lá fiquei, vimo-nos poucas vezes, mas sempre nos olhávamos com carinho. Creio que só não voltamos a ser amigos como antes por minha causa, quem sabe por culpa de minha timidez diante de sua grandeza.
Wilson Bueno agora está morto.
E como diz Marcelo Sandmann,”alguém que tinha os bens básicos de qualquer um, sem qualquer ostentação. E a quem não posso imaginar que alguém, calculadamente, pudesse querer fazer algum mal. Fica aqui o registro deste sentimento de mal-estar e indignação. Para além da perda do escritor, que esse, sobreviverá a tudo isso.”
Marcelo, assim que ouviu pela TV, fez questão de me escrever para contar a notícia trágica.
Desde o começo tive a impressão de que não se tratava de um latrocínio ou coisa parecida, como a polícia insistia em anunciar, e como Marcelo inicialmente chegou a acreditar.
Parece que, depois das primeiras suposições, a hipótese de ter sido um crime passional está sendo considerada de fato.
Wilson estava em seu tugúrio — era assim que ele costumava chamar o lugar que habitava. Foi encontrado caído diante da escrivaninha. Assassinaram-no enquanto ele fazia o que mais sabia fazer.
Sair de si, entrar no outro, no seu eu-profundo.
Escrever.
*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
lucianamar@terra.com.brColuna da Luciana Martins
nº 114, domingo, 9 de maio de 2010Jogo do contente da Pollyana
jornal Turma da Barra
ou
depoimento de vida real no final da novela de Manoel Carlos
eu perdi minha perna mas tá tudo bem nunca mais andei mas tá tudo bem eu perdi meu pai mas tá tudo bem perdi minha mãe mas tá tudo bem a auto-estima tudo bem tudo bem bem bem cortei a cara tudo bem me fodi no mundo tudo bem num poço sem fundo bem também numa armadilha tudo bem fiquei tetraplégica tudo bem tou com aids tudo bem fui traída tudo bem tudo bem tudo bem me endividei tudo bem não vi saída tudo bem fui abandonada tudo bem mas tudo bem mesmo atirei a esmo tudo bem não acertei tudo bem naquela empreitada me lasquei tuuuuuudo bem fui trancafiada ainda menor numa cela com quarenta homens tudo bem estuprada tudo bem me viciei na droga tudo bem por ônibus atropelada bem também engordei trinta quilos tudo BEM o marido me trocou por duas de vinte tudo bem o botafogo perdeu tudo bem a chuva alagou nossa casa tudo bem o rio está poluído tudo bem moro no morro do bumba tudo bem em cima de um lixão tudo bem lá vem o morro tudo bem gritei socorro tudo bem e ninguém ouviu tudo bem estou sufocada tudo bem é muita areia tudo bem fiquei sob o barranco tudo bem o ar acabou TUDO BEM eu vou pro inferno tudo bem melhor que a papuda tudo bem.
*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
lucianamar@terra.com.brColuna da Luciana Martins
nº 113, domingo, 18 de abril de 2010Ética na propaganda
jornal Turma da Barra*Luciana Martins
Faltam menos de 60 dias para a Copa do Mundo de 2010 na África do sul. Não se fala de outra coisa nos programas de esporte. Discute-se sobre quem deve ser candidato a participar do time de Dunga, mas que ainda não foi convidado por este; sobre quem não está jogando bem na seleção já formada e que deveria sair etc.
A curiosidade é tanta que até documentários sobre o país que vai sediar o campeonato — país que poucos conhecem e que tem muita história para contar —, estão sendo transmitidos num canal da TV paga.
Nas férias de janeiro, quando passei por São Luís na volta, fiquei impressionada com Pedro, o filho de um casal de amigos meus, que agora está com sete anos e que é louco por futebol como o pai.
Conheço-o desde que nasceu, em São Paulo, e sempre soube de sua paixão por esse esporte tão a cara de nosso país, mas confesso que, desta vez, Pedrinho se superou. Na noite em que passei com a família, o menino andava pra lá e pra cá com o globo terrestre que ganhara de presente da mãe, a nos fazer perguntas sobre qual o nome da capital de dezenas de países que ele mesmo citava a esmo, primeiramente sem olhar no mapa.
Pedro Oliveira Borges não somente dava o nome exato da capital como sabia a resposta de qualquer pergunta que porventura fizéssemos sobre a história do futebol do país em questão.
Fiquei pensando nas aulas de Geografia e História em escolas de praticamente todo o terceiro mundo (aliás, andam dizendo por aí que o Brasil pulou para o primeiro mundo, mas eu só vou acreditar quando pararem de medir o desenvolvimento apenas por índices econômicos, sem se computarem os educacionais). Como ganharia a educação se fosse utilizando este método caseiro de Pedrinho — cuja mãe, Andréa, não é burra nem nada!
Pois não é que agora Pedro concorre a uma viagem de ida e volta, com acompanhante, para assistir à Copa in loco, pela rede McDonald’s? Ele se inscreveu com uma bela narrativa sobre sua primeira experiência dentro de um campo de futebol na Vila Belmiro, estádio de seu time escolhido. Não é improvável que ganhe, mas depende de votos pela internet, que a família e os amigos têm se empenhado em dar.
Todo esse arrodeio é para dizer que estou um pouco preocupada com o que Pedrinho vai pensar das propagandas que passam na TV relativas à competição vindoura. O que vi nesta semana me deixou deveras inquieta.
Considero este um assunto TABU, mas de extrema importância (coloco a palavra “tabu” em caixa alta porque sei que vou mexer numa caixa de maribondo).
A primeira propaganda a que assisti mostra todos os jogadores da atual seleção de Dunga ouvindo atentamente “o professor” exortá-los para a luta, deles exigindo garra, força e determinação.
A música escolhida faz recordar filmes de heróis, de guerreiros, em direção à conquista da terra. Meu “instinto de nacionalidade” — para usar uma expressão machadiana — quase me fez levantar da poltrona e colocar a mão no peito, do lado esquerdo, bem na altura do coração. Afinal, eu também sou muito amante a futebol.
Imaginei que aquela seria uma primeira chamada para a Copa, visando anunciar aos telespectadores que está por vir o maior campeonato de futebol mundial. Qual nada! Não passava de uma publicidade da “número um”, a cerveja Brahma.
Fiquei perplexa. O que tem a ver a bebida alcoólica com o jogo de futebol? Essa propaganda traz em si uma contradição terrível, um paradoxo de intrincadas conseqüências e implicações.
A indústria de cervejas é muito poderosa no país. A de cigarro foi vencida, a duras penas, sendo que até nas carteiras de cigarro aparecem, além de uma tarja preta, fotos de pessoas doentes por causa do fumo; e propaganda não pode mais passar.
Não sei como é por aí afora, mas, aqui dentro, beber cerveja está associado a conquistas de mulheres bonitas e à alegria. Agora, para completar, a bebida vem associada ao esporte.
No entanto, ao contrário do que se costuma pensar, o alcoolismo é uma doença grave que deve ser combatida duramente pela saúde pública, mobilizadas, para tanto, todas as redes sociais.
As advertências no final de cada propaganda (“Beba com moderação”, “Se beber, não dirija”) de nada adiantam, basta se verem as estatísticas de brigas e de crimes em bares e em família, ou as de acidentes de trânsito envolvendo pessoas alcoolizadas.
A bebida não é considerada uma droga pela maior parte da sociedade. O jogador Adriano, do Flamengo — o “Imperador” —, anda tendo diversos problemas com o álcool, faltando constantemente aos treinos do time, mas já ouvi gente dizendo que: “o problema de Adriano não é com drogas, é só com a bebida.”
Qual é o limite entre “beber socialmente” e se tornar um viciado? Penso que a sociedade deve discutir isso o quanto antes, doa a quem doer.
Pedro não corre o risco de querer beber para ficar parecido com seus ídolos, porque possui pais presentes, amorosos, dispostos a lhe ensinar a discernir o certo do errado. Mas o que vai acontecer com aquelas crianças e adolescentes que não têm uma situação familiar estável e que também idolatram jogadores de futebol?
*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
lucianamar@terra.com.brColuna da Luciana Martins
nº 112, sábado, 20 de março de 2010Ganhando o dia
jornal Turma da BarraDaí então quem sabe alguém chegasse
*Luciana Martins
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria....
Johnny Alf (maio1929 – março 2010)E vinha eu vindo atravessando o vestíbulo do prédio naquele meu estado de contemplação característico — na opinião de algumas pessoas, o de uma doidivanas —, mas fui freada pela necessidade de esperar o elevador. Tão logo se abriu a porta, lancei-me para dentro de supetão, sem observar que a máquina ia descer, e não imediatamente subir como eu gostaria. Vá lá, desço e depois subo, dá tempo. Fui.
Depois que entrei, vi-me diante da única alternativa que havia naquele momento, que era a de parar e respirar fundo, dando uma olhadinha básica pro espelho. Só então observei quem estava me acompanhando: o elevador levava para a garagem um homem de meia-idade, que me olhou sorridente. Abri-lhe um sorriso também.
Chegando ao destino final, o homem simpático me perguntou para que andar eu ia, na intenção de apertar o botão pra mim. “Décimo”, respondi. “Allways on top”, concluiu ele em voz forte e alta, oportunamente reproduzindo e citando o que estava escrito em minha camiseta azul-marinho que tanto amo (expressão que, traduzida, vem a ser algo como: “Sempre no topo”, “sempre nas alturas”, ”sempre lá em cima”). É que décimo era o último andar servido por aquele lado de elevadores do espigão onde fica meu fisioterapeuta.
Entre desconcertada e aturdida com a rapacidade de raciocínio do homem-rapaz, respondi assim: “É o que as palavras dizem!”
E novamente ele me surpreendeu pela firmeza: “Dizem a verdade; dá para ver pelo semblante.”
Uau!!!! Olhei-o agradecida, embevecida. Esse cara não faz idéia do quê falou, e a quem falou. Logo à mulher mais melindrosa da face da terra, logo à que possui o maior complexo de inferioridade do Brasil e do mundo.
Vendo-me sozinha, e subindo, subindo, subindo... resolvi confirmar se de fato meu semblante era revelador, assim com tamanha obviedade, de uma existência vitoriosa conforme a opinião do gentil-homem.
Ri pro espelho.
No dia em questão, eu estava de cara lavada, sem lápis de olho nem batom (a maquiagem predileta). “Just the way I am”, exatamente do jeito que sou — lembrando Bridget Jones. (Entretanto não devo ser hipócrita aqui, porque é sabido de todos do TB que, para consertar a mordida e buscar melhorar a dor nas costas, fiz uma cirurgia no maxilar ano passado que também modificou para melhor a minha face, dando uma ajudinha preciosa à natureza).
Por que o que é bom dura pouco? Sei que nunca mais nos veremos, oh homem generoso, garboso. E tu nem sabes o bem que me fizeste. Tiraste-me a pecha de excessivamente sorumbática, macambúzia e meditabunda que muitas vezes carreguei e de que na atualidade procuro me libertar...
Com uma dessas de vez em quando não seria impossível ficar feliz. Bastaria encontrar todo mês por acaso um desconhecido bem-educado e cheio de complacência pelo sexo feminino. Pronto.
*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
lucianamar@terra.com.brColuna da Luciana Martins
nº 111, domingo, 7 de março de 2010
A rainha do pedaço
jornal Turma da Barra
*Luciana Martins
Tenho que dar o braço a torcer.Hillary Clinton, a Secretária de Estado da presidência dos Estados Unidos, é muito interessante.A substituta da pálida Condoleeza Rice sabe mais da condição dos negros no mundo do que esta última, que, mesmo negra, parecia uma patriota ariana quando trabalhava ao lado do reacionário e criminoso George W. Bush.
Foi preciso Hillary vir aqui no Brasil e mostrar sua brilhante inteligência para convencer-me (e acho que também a muita gente) de que vale mais do que mostrou quando foi primeira-dama, tanto do estado do Arkansas (duas vezes), quando do próprio país (duas vezes também, entre 1992 e 2001).
É que no meio de Hillary Clinton está seu marido, Bill Clinton. Não fosse este, Hillary teria brilhado muito mais como profissional e como política (elegeu-se duas vezes senadora por Nova York, e foi candidata ao cargo de presidente dos EUA pelo partido Democrata, tendo perdido a vaga para Barack Obama).
Todos têm sua cruz, todos têm suas franquezas. As fraquezas e a cruz de Hillary são o seu amor infinito pelo Bill. Na opinião de meu amigo Carlos Loria, na verdade Hillary achou mais fácil manter o casamento e transformar Bill num “boneco inflável”. Não deixa de ser uma visão curiosa. Mas eu inda continuo achando que foi pura fraqueza de amor. O tempo dirá.
De todo modo, a mim me causa péssima impressão o fato de uma mulher supostamente livre, em função dos avanços conquistados pelo movimento de emancipação feminina do século XX, continuar a viver com o marido depois de presepadas sexuais tão ridículas.
Tomemos o exemplo recente, no Brasil, da esposa do ex-presidente FHC, a Ruth Cardoso, falecida ano retrasado. Foi outra que se calou ao fato de o marido ter tido um filho do relacionamento com a jornalista Miriam Dutra em plena campanha presidencial.
É claro que o escândalo com Bill Clinton é vencedor, já que a oportunista Monica Lewinsky.fez questão até de publicar a história toda em livro.
Mas deixemos isso pra lá, afinal, vim aqui para dizer exatamente que descobri que Hillary Clinton, apesar do marido, PENSA...
Assisti a sua entrevista coletiva dada a jornalistas e a estudantes da Faculdade Zumbi dos Palmares de São Paulo. Durante mais de uma hora, Hillary respondeu às mais diversas perguntas de maneira tranquila e bastante percuciente.
Gostei demais de ouvi-la falar contra a “lei da mordaça” que impede a discussão sobre o aborto em tantos lugares do mundo, incluindo o Brasil. Sem deixar de assinalar que é necessário se investir pesado em políticas públicas de planejamento familiar, Hillary lembrou que, em todo lugar onde não há descriminalização do aborto, “as mulheres ricas têm direito a fazê-lo, enquanto as pobres, não”, sendo que, para ela, este é um “direito feminino tão fundamental”.
Outro assunto questionado foi sobre as políticas de cotas para negros em universidades. Hillary respondeu com uma máxima bem bacana; “O talento é universal; mas a oportunidade, não.”
Destacou — no sentido de combater aos que pregam contra as cotas porque essas colocariam gente incompetente no mercado — que a política de cotas serve apenas para o ingresso na universidade, mas não garante o diploma.
Contou que, durante muito tempo, deu aulas para pessoas que entraram na universidade por meio dessa política; e que, realmente, eram estudantes demasiado fracos em relação aos que tiveram base escolar sólida. Disse que foi preciso criar um programa de auxílio, dentro da universidade, pra esses alunos, que demandavam todo um esforço concentrado de professores e monitores para levá-los a conseguir dar seguimento ao curso superior, e concluiu que valeu a pena, porque os resultados foram surpreendentes ainda que vários deles não tenham logrado concluir a faculdade.
Por fim, afirmou que Obama e ela têm confiança no Brasil, que, na sua opinião, vive uma “democracia vital” e tem uma imprensa livre, ao contrário de outras nações, que “possuem uma agenda diferente” da deles.
Gostei. Que nasçam outras Hillaries! Agora sem Billies, por favor!
*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
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