Coluna da Luciana Martins

nº 111, domingo, 7 de março de 2010


A rainha do pedaço
jornal Turma da Barra


*Luciana Martins


            Tenho que dar o braço a torcer.Hillary Clinton, a Secretária de Estado da presidência dos Estados Unidos, é muito interessante.A substituta da pálida Condoleeza Rice sabe mais da condição dos negros no mundo do que esta última, que, mesmo negra, parecia uma patriota ariana quando trabalhava ao lado do reacionário e criminoso George W. Bush.
            Foi preciso Hillary vir aqui no Brasil e mostrar sua brilhante inteligência para convencer-me (e acho que também a muita gente) de que vale mais do que mostrou quando foi primeira-dama, tanto do estado do Arkansas (duas vezes), quando do próprio país (duas vezes também, entre 1992 e 2001).
            É que no meio de Hillary Clinton está seu marido, Bill Clinton. Não fosse este, Hillary teria brilhado muito mais como profissional e como política (elegeu-se duas vezes senadora por Nova York, e foi candidata ao cargo de presidente dos EUA pelo partido Democrata, tendo perdido a vaga para Barack Obama).
            Todos têm sua cruz, todos têm suas franquezas. As fraquezas e a cruz de Hillary são o seu amor infinito pelo Bill. Na opinião de meu amigo Carlos Loria, na verdade Hillary achou mais fácil manter o casamento e transformar Bill num “boneco inflável”. Não deixa de ser uma visão curiosa. Mas eu inda continuo achando que foi pura fraqueza de amor. O tempo dirá.
            De todo modo, a mim me causa péssima impressão o fato de uma mulher supostamente livre, em função dos avanços conquistados pelo movimento de emancipação feminina do século XX, continuar a viver com o marido depois de presepadas sexuais tão ridículas.
            Tomemos o exemplo recente, no Brasil, da esposa do ex-presidente FHC, a Ruth Cardoso, falecida ano retrasado. Foi outra que se calou ao fato de o marido ter tido um filho do relacionamento com a jornalista Miriam Dutra em plena campanha presidencial.
            É claro que o escândalo com Bill Clinton é vencedor, já que a oportunista Monica Lewinsky.fez questão até de publicar a história toda em livro.
            Mas deixemos isso pra lá, afinal, vim aqui para dizer exatamente que descobri que Hillary Clinton, apesar do marido, PENSA...
            Assisti a sua entrevista coletiva dada a jornalistas e a estudantes da Faculdade Zumbi dos Palmares de São Paulo. Durante mais de uma hora, Hillary respondeu às mais diversas perguntas de maneira tranquila e bastante percuciente.
            Gostei demais de ouvi-la falar contra a “lei da mordaça” que impede a discussão sobre o aborto em tantos lugares do mundo, incluindo o Brasil. Sem deixar de assinalar que é necessário se investir pesado em políticas públicas de planejamento familiar, Hillary lembrou que, em todo lugar onde não há descriminalização do aborto, “as mulheres ricas têm direito a fazê-lo, enquanto as pobres, não”, sendo que, para ela, este é um “direito feminino tão fundamental”.
            Outro assunto questionado foi sobre as políticas de cotas para negros em universidades. Hillary respondeu com uma máxima bem bacana; “O talento é universal; mas a oportunidade, não.”
            Destacou — no sentido de combater aos que pregam contra as cotas porque essas colocariam gente incompetente no mercado — que a política de cotas serve apenas para o ingresso na universidade, mas não garante o diploma.
            Contou que, durante muito tempo, deu aulas para pessoas que entraram na universidade por meio dessa política; e que, realmente, eram estudantes demasiado fracos em relação aos que tiveram base escolar sólida. Disse que foi preciso criar um programa de auxílio, dentro da universidade, pra esses alunos, que demandavam todo um esforço concentrado de professores e monitores para levá-los a conseguir dar seguimento ao curso superior, e concluiu que valeu a pena, porque os resultados foram surpreendentes ainda que vários deles não tenham logrado concluir a faculdade.
            Por fim, afirmou que Obama e ela têm confiança no Brasil, que, na sua opinião, vive uma “democracia vital” e tem uma imprensa livre, ao contrário de outras nações, que “possuem uma agenda diferente” da deles.
            Gostei. Que nasçam outras Hillaries! Agora sem Billies, por favor!

*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
lucianamar@terra.com.br

 

 

Coluna da Luciana Martins

nº 110, domingo, 31 de janeiro de 2010


De tudo um pouco (2)
jornal Turma da Barra


            “E afinal esses rios servem pra quê? Dão emprego para quem?”
            Com a pergunta acima vamos tentar continuar a crônica anterior trazendo mais alguns dados a mais sobre o suposto desenvolvimento da Barra do Corda.
            Isso aí foi dito por um dos chefes da enorme empresa de carvoaria que veio se abancar na nossa cidade e em outras regiões do Maranhão, em resposta à colocação que assim lhe fizeram:
            “Puxa, vocês vieram para cá para destruir nossos rios com tanto desmatamento”.
            Creio que o que ele contra-argumentou revela muito claramente que visão possuem os que estão no comando de toda a destruição das matas ciliares de rios e brejos e das florestas do município.
            Que tal?
            Ouso dizer que esse senhor está deveras enganado sobre a importância dos rios para a cidade.
            E me pergunto se é de companhia de gente como essa que estamos precisando para o “desenvolvimento” da Barra... Seria interessante se pesquisar mais profundamente como são tratados os empregados dessa empresa de carvão, que ficam dias e dias exilados de sua família para ganhar uma merreca.Se isso for geração de emprego, me poupem!. A largada já foi dada por Raphael Castro, no trabalho escrito de sociologia que citei duas crônicas atrás.
            imaginaram a Barra do Corda sem os rios? Eles imaginam, e não ligam, não se importam nem um pouco com a preservação dessa riqueza local. Gente assim se importa apenas com LUCRO, com DINHEIRO... É imediatista, não pensa nem no futuro dos netos, quiçá no futuro de uma cidade, ou no do planeta como um todo.
            Imediatismo gera desastre. Andei lendo que não é diferente a situação de nosso vizinho Piauí. Juntemos tudo com as informações que já possuímos sobre a região amazônica e pronto.... ”Adeus, tia Chica”.
            Só nos restarão as fotografias do passado de ouro.
            Parafraseando Dalton Trevisan, escritor que adoro, e que fala muito de Curitiba (Paraná) onde morei muitos anos, comparando a cidade atual com a antiga, eu diria: “Barra do Corda FOI, não é mais.”
            Perdoem-me o pessimismo. Vão dizer novamente que o que digo espanta turista. Agora me digam uma coisa: e lá existe política para turismo em Barra do Corda?
            Visitei dois pontos turísticos da cidade e fiquei chocada. Os dois estão jogados às traças. Se bem que creio que traças, no momento, estão tendo muito mais consciência ecológica do que seres humanos.
            Quem acha que colocar uma placa aqui outra ali na beira do rio escrito: “Só jogue no rio o que o peixe come”, quem acha que somente isso é política para turismo ecológico está muito enganado.
            E contratar UM, apenas UM funcionário para andar de barco recolhendo o lixo que polui o rio também é pouquíssimo. Reconheço o esforço hercúleo e heróico de Raffael Pacheco que, além de catar a sujeira alheia, tenta conscientizar uma por uma das lavadeiras a não jogarem caixa de sabão em pó ou garrafa de água sanitária para descer o rio.
            Mas isso é nada, infelizmente, perto das centenas de serras-elétricas.
            Comecemos com a Boa Vista. Subi de barco até lá duas vezes e fiquei a pensar: se se deixar assim, sem nada nem ninguém para cuidar talvez seja melhor do que isso daqui ocupado por gente interessada em depredar. Se aqui virasse um “point”, não sei nem mesmo se valeria a pena.
            Por outro lado, ao menos um guardinha, uma família morando numa casa dentro de terreno tão precioso, com a incumbência de espantar os meliantes, os “entes poluentes” não seria má idéia.
            Depois fui ao Calvário, a Igreja da Altamira de onde se pode ver toda a cidade. Tudo deteriorado, estiolado.
            A igreja precisando de pintura, as calçadas e os parapeitos também. Ah, mais uma coisa: você se debruça para admirar a paisagem e sobe do mato um cheiro estonteante de FEZES  - humanas, claro.
            Esses são meus dois exemplos de hoje. Sem contar outras observações que fiz, tanto passeando de barco quanto a pé. Há quem pense que preservar é cortar tudo deixando apenas – quando muito - meio ou um metro de vegetação na beira dos rios. Vi diversos sítios e chácaras nessa situação.
            Uma tal de Chácara Reiz, onde se “evoca Jesus”, teve o muro construído diretamente nos limites da água com a terra. Tudo foi desmatado.
            Até  um shopping-center na beira do Corda intentam construir!!! O terreno é aquele que foi de Seu José Pinheiro e Dona Maria Cruz Pinheiro, durante o século vinte inteiro um enorme quintal preservado, com suas frondosas mangueiras, goaibeiras, seus cajueiros, seus bananais... Hoje resta apenas uma mangueira na beira do rio, assustadoramente solitária, à frente de imenso vazio repleto de homens trabalhando para a obra vindoura.
            Por isso insisto: nosso desenvolvimento tem que vir acompanhado de sustentabilidade, de educação e de conscientização ecológica. Senão não terá sentido e casos como os acima relatados se multiplicarão.
            Contrariando ao que o cara da carvoaria disse, no dia em que se acabarem os rios da Barra, ela não vai valer mais um tostão furado.
            A cidade sem o rio é como um homem ou uma mulher sem moral.

*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
lucianamar@terra.com.br

 

Coluna da Luciana Martins

nº 109, domingo, 10 de janeiro de 2010


De tudo um pouco
jornal Turma da Barra


As pessoas da cidade

falam em reformas, temem morcegos,

matam-se, reconciliam-se depois,

e tudo é sabido.

Enquanto isso, o rio Corda,

indiferente e monocórdio,

impercebido, a sangue frio

se deixa afagar, flutuar, invadir,

sujar

Carlos Loria


           
Para início de conversa, queria esclarecer aos leitores e às leitoras que, sem dúvida, sou saudosista e nostálgica do passado “de ouro” da cidade de Barra do Corda.
            Todavia, reconheço que o crescimento é inevitável; faz parte do destino das cidades desde o advento da Burguesia (no Ocidente e, a sua maneira, no Oriente também).  Chamam a isso de “desenvolvimento”. Pois vejamos as conseqüências do que acontece com este.
            Estou há dezoito dias em férias na Barra (ficarei 25), até ontem acompanhada de minha filha. Caminho entre as ruas do centro; passeio de vespa, de carro ou de barco com meu amigo Raphael Castro pela Altamira, Tresidela e pelas bordas da cidade, fazendo de conta que sou “moradora contumaz” (é permitido, cabe no contexto dizer essa espécie de pleonasmo).
            De início, quando anunciei que vinha pra cá passar quase um mês, ouvi comentários tais como: “Logo em época de chuva! O potó vai te mijar! (Explicação para forasteiros e estrangeiros: potó é um “inseto coleóptero de secreção cáustica e vesicante”, dicionário Aurélio). “Olha a dengue!Eu peguei dengue na Barra!” “Na Barra só dá pra ficar uma semana no máximo; depois não tem nada pra fazer.”
            Potó não chega perto de mim, me respeita. Dengue anda controlada por aqui. E há muito o que fazer na cidade. Observar é a mais importante das atividades.
            O desenvolvimento trouxe melhoras para a Barra: mais médicos, por exemplo. Mais escolas (ao menos em quantidade). A cidade cresceu muitíssimo, já não cabe mais esperar o silêncio de outrora. O céu noturno de outrora, em que estrelas brilhavam mais que lâmpadas.
            Além dos povoados existentes, muitos outros apareceram, assim como bairros na periferia. Sim, agora a Barra tem periferia – essa é uma das conseqüências do crescimento.
            Como diz meu primo Ornilo Filho e seus amigos: “A Barra do Corda é um mini-Rio de Janeiro.” Se assim é, casa beleza e vida social resplandecente com pobreza e criminalidade.
            Pode-se dizer que agora esta é uma cidade de porte médio; não mais de interior. Interior é o Centro do Roque ou o Naru, que também já se desenvolveram – povoados estes que já possuem seus sub-povoados e assim sucessivamente.
            Isso tudo é bom ou ruim? O tempo vai dizer.
            Mas me deixem vir com meu bombardeio: a moda agora na cidade é o BARULHO. E, citando Shakespeare: “Muito barulho por nada”.
            Senão, vejamos:
            1) Motocicletas incontáveis, incomensuráveis: para quem vive no Centro da cidade, é chocante; a cada vinte metros há um ponto de moto-táxi. Há mais moto-taxistas do que clientes. Vejo rapazes que mal saíram dos cueiros já trabalhando com moto. E a sua formação como motoristas, como é que se dá?
            São tantos que se assemelham a vendedores em época de baixa de consumo – em março, abril, quando o consumidor não tem mais dinheiro e paga as contas do final do ano. “Senhora, quer moto-táxi?”, “Senhora, quer ir de moto?”, “Senhora, vamos de moto!”
            Em moto-contínuo.
            O que impressiona é que poucos respeitam efetivamente os sinais (um ponto positivo é o fato de haver bastantes sinais, mas já  teve gente dizendo que até isso virou uma “indústria” – naquele sentido). Passam descaradamente com o pedestre  atravessando. Fôra eu descuidada, teria ido conhecer a “geologia dos campos santos” em três ocasiões desde que aqui cheguei.  Uma delas, à noite, depois das dez, o sinal verde para o pedestre, veio um carro (não são só motociclistas, fique registrado) e se adiantou a mim, estando eu no meio da rua já. Abri os braços e, irônica, saudei o carro, deixando-o passar – como faz o mestre-sala à porta-bandeira na frente da escola de samba.
            Tenho pra mim que a quantidade de motocicletas, proporcionalmente, ultrapassa o número das de São Paulo, capital. E o pior não disse: o moto-boy vai de capacete, o cliente vai na garupa sem (e muita vez com criança de colo). Ouvi dizer que, nos acidentes, quem morre sempre é o cliente desprotegido (não que o motorista devesse morrer, é claro!).
            Ir para a guerra do Afeganistão seria mais seguro, sem exagero.
            Os antigos como eu se lembram da época em que tínhamos dois indicadores da vida noturna. Entre seis e seis e meia da tarde, havia “a hora do Angelus “, ritual em torno da anunciação do nascimento de Jesus Cristo, no alto-falante da Igreja Matriz, entoado pelo padre.
            Logo depois, vinha, do alto-falante do Cine Canecão, o “Django”, música-tema do filme italiano de mesmo nome, dirigido por Sergio Corbucci, em 1966, e estrelado por Franco Nero, José Bódalo e Loredana Nusciate. Depois da “abertura”, o filme do dia era anunciado, e mais música era tocada até o horário do início a película, às oito da noite, que vinha precedido pelo “Django” novamente (canção de Luiz Enríquez Bacalov) – após o quê reinava o silêncio, porque quem não estava no cinema estava na porta de casa, sentado nas cadeiras de macarrão, vendo as estrelas brilharem e jogando conversa fora.
            Havemos de lembrar que na programação musical do Canecão ouvia-se Ennio Morriconi, na trilha sonora da trilogia de Sergio Leone inciada pelo filme “Por um punhado de dólares”. Ouvia-se o talentosíssimo e precocemente falecido Sérgio Sampaio, com seu “Eu quero é botar meu bloco na rua”, dentre outras canções de qualidade.
            Havia os carros de propaganda, afinal não possuíamos rádio alguma além da do Mandu, nem televisão. Mas seu barulho ainda era discreto, não atrapalhava a paz cordina. O comércio não era intenso como hoje, mas suficiente para o consumo local. O Mandu anunciava os produtos da Casa Vanguarda (de Laura e Raimundin Pacheco), das Lojas Pernambucanas, dentre outras.
            E Barra do Corda ainda era uma cidade de interior.”Atrasada”, como diziam.
            Agora?
            PANDEMÔNIO é o teu nome, cidade do Sertão centro-sul do Maranhão!
            Não bastassem os carros-propaganda que ininterruptamente passam, desde o amanhecer, tão numerosos como as casas que anunciam (o comércio é visivelmente a maior fonte de renda local), virou moda os carros particulares passarem a todo o vapor entoando, em centenas de decibéis, cantos de louvor ao traseiro feminil: “chacoalha a tua bundinha, cachorra!” – ou coisa que o valha. Achincalha, Achincalha, Achincalha!
            Nesses automóveis, a quantidade de caixas de som é medida de status e auto-exibicionismo.
            Para lá da publicidade de “móveis e eletros (sic)” semanais (dentre a de outros produtos), há o anúncio cedo da manhã de domingo das promoções de segunda-feira. (Diga-se de passagem que os carros de som de hoje em dia mais parecem trios elétricos do carnaval da Bahia). Isso porque não comentei dos avisos da prefeitura, cujo carro é potente como os a que acabei de me referir.
            Nas noites de quinta, sexta e sábado, temos o som das boates, que se propaga como o do trovão depois do raio. Dormimos com esse acalanto.
            Nas tardes de domingo, ao som do balneário Lito-Rio, no fim da Arão Brito, transversal da Isaac Martins, em cuja esquina moro, adormeço na sesta ao som de “Vamos embora, pro bar: beber, cair, levantar.” Bis e bis e bis.
            Atualmente, havemos de reconhecer – todas as famílias tradicionais cordinas - que o lugar mais silencioso e discreto daqui é o Buraco-quente, o Buru (conhecido pelos forasteiros como zona de baixo-meretrício).

*Luciana Martins é professora e poetisa, mora em Brasília
lucianamar@terra.com.br

 

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