jornal Turma da Barra
Coluna do Cezar Braganº 340, segunda-feira, 30 de agosto de 2010
O Brasil é um só
jornal Turma da Barra
Estive em Goiânia, no começo do mês e na semana que passou.
A cidade está
mais cosmopolita que nos anos 90, quando trabalhei lá.
Por falar
nisto fiquei a pensar sobre como funciona a naturalidade dos brasileiros. Quem
nasce em um estado é natural dele, não importa de onde são seus pais, seus avôs,
e é justo, caso contrário seria impossível administrar um Estado, saber suas
necessidades, projetar seu desenvolvimento, embora pelo andar da carruagem,
poucos administradores públicos projetam ou planejam o desenvolvimento das
cidades que administram.
Mas, pondo a
política de lado, me veio à mente a idéia, iluminada e humorada, de um amigo
que se postou na porta do quarto do filho recém-nascido, e ficou a desenhar o
rebento de acordo com a opinião das pessoas que saíam da visita.
Eram tantos
“monstrinhos” que ninguém agüentava de tanto rir. Já pensaram no desenho
de uma criança que tinha como características a orelha do avô, a boca do pai,
os olhos da avó, a testa da mãe, o queixo da tia?
Já pensaram
de que tipo de comida deve gostar uma pessoa que nasceu em Goiás, o pai é
alagoano, a mãe baiana, os avôs maternos amazonenses e os paternos gaúchos?
Que tipo de música
está no sangue desta pessoa? O
sotaque, este não tem jeito, vai ser de goiano mesmo.
O Brasil tem
dimensões continentais, uma diversidade cultural enorme, em função da
colonização pelos portugueses, os índios que aqui já estavam, e depois os
imigrantes – italianos, japoneses, alemães, árabes - e os negros, escravos
que aportaram nos portos brasileiros na época da escravatura.
Pois é, o
leitor deve estar pensando, onde pretendo chegar?
Estou
querendo dizer que mesmo com este contagiante processo de globalização, com o
objetivo da mundialização do espaço geográfico e a criação de uma
sociedade homogênea, os aspectos locais se mantêm fortes e autênticos.
Brasil é um
só, e esta integração entre os aspectos regionais enriquece ainda mais nossa
cultura, nossa gastronomia e nossas tradições.
Lá em Goiânia,
no almoço, comi arroz com lingüiça de pequi, maminha na brasa, salada verde,
pamonha salgada assada, uma verdadeira salada de sabores de regiões diferentes.
A música
sertaneja, tradição mineira e goiana, ultrapassou fronteiras e, Goiás e Minas
Gerais adotaram outros ritmos, sem esquecer os seus.
Assim é o
Brasil, a culinária de uma região se estabelece em outra, sofre adaptações,
mas sobrevive e até melhora. O barrismo continua, mas isso também é legal.
Os baianos
ficam indignados quando alguém fala em “muqueca capixaba”, e dizem que
aquilo é só peixada. E a “muqueca capixaba”, nada mais é que a receita
baiana, com menor quantidade de condimentos.
O “baião
de dois” do Ceará, é uma delicia com carne seca. No Maranhão vira “arroz
misturado”, e não é menos gostoso com curimatá assada.
Este é o
nosso Brasil, cheio de tradições, de um folclore riquíssimo, de uma culinária
riquissima e uma variedade musical para todos os gostos.
Sou um
brasileiro que adora cozinhar, e acredito que os perfumes dos temperos, os
sabores dos ingredientes, essa química maravilhosa que transcende as regiões,
aproxima pessoas e apaixona, assim como a música, o folclore riquíssimo e
diversificado, transforma este gigante, dividido geograficamente em vários
estados, em um só Brasil.
Para
concluir, nada melhor do que uma receita maranhense, com um ingrediente típico
de Goiás - arroz de pequi:
Ingredientes:
Pequi a vontade, não economize;
Arroz que dê;
Cebola picada de acordo com o arroz;
Alho amassado;
Pimenta do reino moída;
Cheiro-verde com vontade;
Sal, o bastante para dar sabor, sem estragar o paladar;
Óleo de babaçu, que não tem colasterol e é sadio(não da sadia);
Modo de preparo;
Descasque ou mande descascar o pequi(com casca fica indigesto).
Abra uma garrafa de cachaça mineira(a minha preferida é uma feita da rapadura
e sendo presente do Heider, aí nem se fala), coloque uma dose generosa, em um
copinho de vidro, e deguste.
Boa, hem! Estamos prontos para começar o prato goiano-maranhense, pelas mãos
de um cearense, que ama Barra do Corda, bebendo uma cachacinha mineira.
Coloque em uma panela grande de alumínio batido grossa ou de ferro, o óleo, a
cebola, o alho e, é claro, os pequis. Leve ao fogo brando e refogue, mexendo
sempre até que a cebola e o alho fiquem dourados.
Tome outra dose da cachaça, que ninguém é de ferro.
Acrescente o arroz e frite um pouco. Junte a água, tempere com sal a gosto, e
cozinhe até o arroz ficar macio e a água secar. Acrescente pimenta a gosto e
misture delicadamente. Tire do fogo, polvilhe com cheiro verde e mais um pouco
de pimenta e leve à mesa.
Não se esqueça de, também, levar para a mesa a cachaça e a pimenta
malagueta.
Amasse
duas no prato, antes de colocar o arroz, tome outra cachaça e bom apetite.
*Cezar Braga é presidente da Arcádia Barra-Cordense (ABC)
jornal Turma da Barra
Coluna do Cezar Braganº 339, segunda-feira, 23 de agosto de 2010
A força dos livros e jornais impressos
jornal Turma da Barra
Será que a força dos livros e jornais impressos tende a desaparecer com
a comunicação eletrônica e em tempo real?
O José Sarney deu uma declaração de que livros e jornais jamais se
acabarão, fala sobre “a perpetuidade dos impressos em papel”
É bem verdade que os mais velhos, ou até seculares, como dizem que eu
sou os amigos Manoel e Urias, que os impressos começavam a nos perseguir desde
o nascimento, com o famoso “teste de pezinho”(onde se imprimia o pé da
criança em folha de papel), depois com a certidão de nascimento, que vai
garantir que existimos oficialmente para o censo, para o governo, porque para a
vida começamos a existir quando deixamos o conforto e a comodidade do ventre
materno.
Durante toda vida estamos sempre a depender de um impresso, certidões
(que embora possam ser conferidas, pesquisadas pela rede), é sempre necessário
apresentá-la na forma impressa.
E, na morte se não dispomos nossos bens em forma de testamento, impresso
e atestado por testemunhas, eles serão distribuídos como manda as leis e não
como desejaria o morto.
Com a chegada da Internet, muitos prognosticaram o fim da mídia
impressa. Em 1996, no Congresso da Associação Mundial de Jornais, em Paris, vários
palestrantes alertaram para a extinção do jornalismo impresso, a derrocada das
empresas tradicionais de mídia, atropeladas que seriam pela multiplicação da
internet. Parecia verdade, eram argumentos sólidos, baseados em números e
elaborados por alguns dos grandes pensadores da comunicação moderna. Muitos
jornalistas presentes comentaram que as perspectivas eram tão sombrias, que era
melhor ir pensando em nova profissão.
Mas, o que se viu a seguir foi um velho filme, onde prenúncios parecidos
não se confirmaram, como a televisão acabar com o rádio, o DVD sepultar o
cinema.
Hoje, as empresas de comunicação foram se reinventando, aprimorando
seus processos, capacitando seus profissionais. E venceram o desafio.
E venceram porque souberam se adaptar, se moldar às novas realidades,
sem perder suas características, mas mudando, aprimorando e, principalmente,
sabendo que a mudança maior, mais importante, não estava no lado de quem faz,
de como faz, mas no lado de quem recebe a notícia, como recebe.
Eu sou um consumidor voraz de notícias, de livros.
Não saio de casa sem ler, pelo menos um jornal, assisto aos primeiros
noticiários televisivos, não sem antes ouvir o noticiaria da Jovem Pan. No
carro continuo sintonizado no rádio, para mais notícias, que quando começam a
se tornar repetitivas, cedem lugar a uma boa música. No trabalho, a Internet me
deixa sempre atualizado.
Com o advento do e-books, estou adquirindo um ereader, com a Aurélio
integrado, mas nada disto me tira o prazer, a necessidade física de sentir o
papel nas mãos. Assino cinco revistas, e o dia da chegada de cada uma está na
agenda, é sempre uma espera ansiosa, para um encontro prazeroso.
Estou dirigindo menos, os meninos me levam, me buscam. O fato de ser
motorista secular, o caótico trânsito de São Luis, me “obrigaram” a um
novo hábito: Para não ficar nervoso, nem chamando a atenção dos “meus
motoristas” a todo instante, mantenho dois, três livros em cada carro e vou
lendo durante todo o trajeto.
Nunca andar no conturbado trânsito de São Luis foi tão bom, tão
prazeroso... Tão rápido.
*Cezar Braga é presidente da Arcádia Barra-Cordense (ABC)
jornal Turma da Barra
Coluna do Cezar Braga
nº 338, segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Silêncio e saudade
jornal Turma da Barra
Estava eu, no silêncio da noite, tentando planejar as etapas de um novo
projeto da UFMA. Tinha chegado de viagem no sábado, me reunido com o Reitor na
manhã deste domingo ensolarada, muitas
indagações se idéias, que precisam ser organizadas, compiladas antes de serem
aplicadas.
O silêncio é grande e este silêncio, de repente, se transforma em sinfonia.
São os sons das lembranças. O som da minha mãe cantarolando “A lua
é dos namorados”, enquanto arrumava os quartos. O som das gotas de chuva
molhando o telhado. O som da água da torneira defeituosa.
O som da esperança, do reencontro. O som do medo, do desencontro.
O som do amor, do desengano.
Sempre me vangloriei de não sentir saudades, ter lembranças. Dizia que
sentia saudades das pessoas quando estava perto, e não quando me encontrava
longe.
Nestes últimos dias umas lembranças me tem desnorteado, não são
lembranças de fatos ocorridos, são lembranças que me vem da alma.
Acredito que seja a tão decantada saudade. A saudade que pensei não
ter, a agonia de não ter perpetuado estes momentos, a alegria de tê-los vivido
intensamente.
As minhas lembranças surgem dos fatos, das conversas, vem da memória.
Estas lembranças que estão me assaltando hoje, nestes momentos de silêncio,
quando ouço os sons, vêm da alma.
As lembranças são de coisas reais, de um fato, de um lugar, de uma época,
de pessoas. Lembranças podem ser localizadas sem maiores esforços, podem ser
contadas, descritas. Lembranças não têm som, nem cheiro.
Estas lembranças que hoje me assolam, tem som, tem cheiro, são lembranças
que trazem a tristeza das coisas que perdemos, sem nunca ter tido, são lembranças
de pessoas que amamos, sem nunca ter conhecido.
Estas lembranças, que vêm da alma, são as saudades que os poetas
sentem e proclamam, que nos fazem ouvir sons, sons que nos remetem ao passado,
passado que não queremos esquecer...
Passado que nos traz a alegria de tê-lo vivido, a melancolia de não
poder mais vivê-lo e a certeza de que suas lembranças nos farão viver sempre
um pouco mais.
Nesta noite, neste silêncio mágico, ouvindo os sons da memória,
sentindo a alegria de ter vivido bons momentos, a dor de não ter vivido outros,
descubro o que é saudade, e me rendo aos poetas, trovadores e amantes.
*Cezar Braga é presidente da Arcádia Barra-Cordense (ABC)
jornal Turma da Barra
Coluna do Cezar Braganº 337, segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Não votemos em quem tiver ficha suja
jornal Turma da Barra
As eleições de 2010 prometem ser diferentes, pelo menos assim de inicio. Campanhas menos barulhentas, muita coisa pela rede, poucos comícios. O que não muda mesmo são as propagandas enganosas, os caras-de-pau e a incontrolável vontade de escrever sobre elas.
A novidade é o Projeto Ficha Limpa, que embora sendo novidade, seu escopo já era previsto na constituição de 1988, portanto nada de novo no reino do Lula.
O projeto é demagógico, sem nenhuma utilidade num país em que leis não são cumpridas.
Assim como a lei seca, se a constituição tivesse sido cumprida na forma original, muitas mortes teriam sido evitadas e muitos políticos já não fariam parte do cenário deprimente do Congresso Nacional.
Mas a verdadeira lei do ficha limpa, a única que pode ser implantada, na contra-mão dos governos, é aquela imposto pelo povo nas urnas.
NÃO VOTEMOS EM QUEM TIVER A FICHA SUJA!
Não sendo eleitos, não atrapalharão e servirão de exemplos para os novatos.
É bem verdade, que não limparemos de vez a sujeira que permeia a política brasileira, mas estaremos dando o primeiro passo promover a limpeza tão esperada.
Aliás, se analisarmos o momento atual da política brasileira e do comportamento espúrio de senadores e deputados federais, a eleição menos importante neste 2010 é a do Presidente de República, que em tese é o mais importante cargo da política brasileira.
É que nada adianta ser eleito alguém honesto, com boas intenções, se fica refém de uma corja de políticos eleitos pela vontade popular, que legislam em causa própria e visando interesses particulares. Políticos que promovem os mais espúrios acordos, lesando o erário público, enganando o povo e contribuindo decisivamente para a estagnação político-social do País.
Portanto, se não voaremos em quem tem ficha suja, em quem fica rico da noite para o dia a expensas do cargo para qual foi eleito pelo povo, estaremos contribuindo para o resgate da cidadania e da constituição.
Para mudar a vergonha que assola a política brasileira não precisamos de mais leis, não precisamos torcer para que as interpretações dos nossos magistrados sejam consoantes com nossos desejos e com o espírito com que as leis foram concebidas, não, não precisamos de nada, a não ser da conscientização dos nossos direitos, deveres e usarmos os nossos votos para limpar as baias do Congresso Nacional.
Para presidente eu sei em quem não voto. Não voto da Dilma, que não mostra sua identidade, usa a do seu criador e não tenho dúvidas que a história do criador ser engolido pela criação voltará a se repetir, é só tentar entender a confusa e nada salutar biografia da candidata. Resta-me o Serra ou a Marina.
Para senador, não sobra opção, se não vejamos: Temos o Lobão, que dispensa apresentação e o meu voto; O João Alberto, este nem dá para a saída, é 90% honesto, nas suas próprias palavras; Zé Reinaldo, processos e burrice não lhe credenciam; Roberto Rocha perdeu o andar da carruagem e a aura de capaz, quando negociou sua candidatura a governador; Edson Vidigal, nunca disse a que veio, melhor ter ficado curtindo sua aposentadoria como ex-Ministro do TSE, sendo assim só me resta votar no Charles eletricista.
Para deputado federal a coisa começa a engrossar, mas pretendo votar do Gastão Vieira, que pode ajudar na implantação da UFMA na Barra do Corda.
Para deputado estadual, vou de Darci Terceiro, não é hipócrita e não tem os viços dos outros candidatos.
Que comecemos a aprender a votar neste 2010, para não erramos novamente em 2012.
*Cezar Braga é presidente da Arcádia Barra-Cordense (ABC)
jornal Turma da Barra
Coluna do Cezar Braga
nº 317, segunda-feira, 15 de março de 2010
A
morte da mangueira
jornal Turma da Barra
A mangueira da Tresidela foi derrubada.
Foi a vitória do asfalto, do meio-fio, da arrogância, da intransigência
e da falta de consciência ambiental dos próceres da Prefeitura Municipal de
Barra do Corda.
Venceu o despotismo, tão comum nos governos autoritários, que só
existem por que contam com a benevolência e o apoio daqueles que, direta ou
indiretamente, de maneira pecuniária ou não, recebem algum tipo de benefício
deles.
A arrogância fica caracterizada quando se diz, ao ordenar e acompanhar a
derrubada, “aqui quem manda é o Prefeito Nenzim” e a falta de consciência
ambiental, coisa impossível de existir no que falou a arrogância, fica a cargo
do Secretário do Meio Ambiente, pois é, o Secretário que deveria incentivar o
plantio de árvores e não ajudar a derrubá-las, que se fez presente na
derrubada da mangueira centenária.
Nunca é pouco avisar aos déspotas, que eles só podem manifestar a sua
tirania para as pessoas que a aceitam e, só aceitam o domínio aqueles que têm
mais apego às coisas materiais, às benesses de um poder fugaz.
Estamos em um ano de eleição e candidatos à reeleição, que sempre
estiveram ao lado do Prefeito antiecológico, que andaram se autotitulando
defensores do meio ambiente, terão trabalho redobrado para explicar aos
eleitores a omissão patente neste triste episódio.
Pois é, soube da noticia por volta das 2 horas da madrugada deste
domingo, quando li a notícia do Heider, este jornalista sério que tem um amor
enorme pela Barra, uma dedicação maior ainda pela defesa dos interesses da
terrinha querida, e que deve estar arrasado com este desfecho, embora tenha
lutado, com as armas que dispõe, de maneira admirável e incansável na defesa
da mangueira histórica.
Por ironia do destino, neste sábado, 13 de março de 2010, fazem 109
anos de um acontecimento trágico, que ficou conhecido com a “Hecatombe do
Alto Alegre”.
Pois bem, 109 anos depois de alguns índios perpetuarem uma chacina em
Barra do Corda, o Prefeito e secretários, sem o protesto, defesa ou qualquer
outra ação dos deputados estaduais filhos da Barra, dos vereadores, do
vice-prefeito, perpetuou-se outra chacina, desta vez contra o meio-ambiente,
contra a vontade popular, contra o bom senso, contra a justiça.
Espera-se, já que nada fará a velha mangueira renascer, que o MP, que já
tinha se manifestado contra a atitude odienta da Prefeitura, mostre a sua cara,
diga aos barra-cordenses estarrecidos o porquê de sua existência em defesa da
lei e, puna com o rigor necessário os (ir)responsáveis por tal atitude.
De luto, em mais um 13 de março triste, a democracia, o meio ambiente, a
vontade popular de Barra de Corda.
De luto, também, a justiça de Barra do Corda, em todas suas instâncias,
pela imobilidade, inércia e ao eterno “amém” às normas, atitudes
estabelecidas e tomadas pela Prefeitura, ao arrepio das leis.
Em Barra do Corda, mata-se na calada da noite, árvores, esperanças...
E, fica por isso mesmo.
*Cezar Braga é presidente da Arcádia Barra-Cordense (ABC)
jornal Turma da Barra
Coluna do Cezar Braganº 316, segunda-feira, 12 de março de 2010
A
árvore condenada
jornal Turma da Barra
Que mal terá feita aquela mangueira frondosa, imponente, que apazigua,
ameniza a paisagem árida da Tresidela.
Será que seu erro fatal foi ter ousado brotar e crescer frondosa, sempre
viçosa e longe das casas dos poderosos?
Quem sabe, ela não acreditou na tal de conscientização ecológica que
vem sendo apregoada diariamente por políticos ligados ao alcaide, sempre
chamando a atenção para a preservação do meio-ambiente e principalmente da
necessidade das árvores para a sobrevivência da vida no planeta.
Ela imaginou que seria bem tratada por estes defensores da natureza. Ou
serão apenas defensores dos seus mandatos?
Lembrei-me de uma crônica, a de nº97, que escrevi em 12 de dezembro de
2005, onde abordei o caso da figueira do Sr. Ardelião Pires, ali no cruzamento
das ruas Isaac Martins e Tiradentes, abatida para dar continuidade à Rua
Tiradentes.
Nesta crônica lembrei o grande folclorista nordestino, senão o maior,
Luis da Câmara Cascudo, em crônica publicada no jornal Diário de Natal em
1947, disse a respeito das árvores e do Governador do Brasil Holandês, o Príncipe
Mauricio de Nassau.
Naquela crônica ao dizer que Teixeira Santos, na época 1º Secretario
da Embaixada do Brasil no Uruguai, era um dos ensaístas brasileiro mais ágil,
lembra que ele disse – “Em Montevidéu, certa ruas faziam curvas para
respeitar uma velha árvore.” E que admirava este carinho platino pelas árvores.
Lembra, ainda, que na calle Dieghiero havia um “...grande plátano no meio da
rua, cercado apenas por um leve gradil e não era uma árvore histórica, era
apenas uma árvore que merecia viver a despeito do trânsito, automóveis,
circulação e outros problemas que vieram a nascer quando ela já está
velha.”
Vamos pensar e agir como eles, mudem os projetos e as casas, mas
preservem a árvore, os seres vivos.
Que a Promotoria do Meio Ambiente ouça o clamor da população, daqueles
que já se beneficiaram de sua sombra, para que não fiquem sem casa os pardais,
os pombinhos, os bem-te-vis e outros pássaros e insetos que por ali fazem seus
ninhos ou suas paradas.
Para que não fique um triste vazio naquele espaço, fato que
evidentemente, acarretará uma desarmonização que irá se refletir
inicialmente naqueles que estão mais próximos e depois se irradiará por todo
o bairro.
Tais atitudes, ainda que isoladas, já estão acarretando respostas terríveis
da natureza e tendem a se agravar. Os seres (des)humanos ainda pagarão um preço
muito mais alto por tudo o que estão fazendo com os outros seres vivos caso não
aprendam rápido a conviver em harmonia com eles.
*Cezar Braga é presidente da Arcádia Barra-Cordense (ABC)
jornal Turma da Barra
Coluna do Cezar Braga
nº 299, segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Barra do Corda:
Cidade sem memória
Parafraseando o mestre Ruy Barbosa: “Um país sem memória não é apenas um país sem passado. É um país sem futuro”.
Assim é minha cidade. Barra do Corda tem uma sociedade desmemoriada.
E isso é muito ruim, pois o passado de uma cidade é sempre construído no presente, uma cidade vive na memória de seus habitantes e visitantes, quando ela provoca lembranças. Uma cidade quando desfaz de seu passado, é uma cidade perdida no tempo, sem memória, sem vida, sem referência, e o que é pior, acaba comprometendo seu futuro.
Murilo Mendes, disse que: "A memória é a construção do futuro, mas que do presente".
Recentemente, mas precisamente em 20 de outubro, o grande poeta barra-cordense Olímpio Cruz, se vivo fosse, estaria completando 100 anos de nascimento.
A Academia Barra-Cordense de Letras fez uma singela, mas sincera homenagem a um dos seus mais ilustres filhos, autor da Canção
Cordina, que é a mais completa declaração de amor a uma cidade.
Sem aquela homenagem da
ABL, a lembrança do insigne literato teria passado despercebida dos cordinos.
Será que seria demais pedir para que haja mais respeito pelo acervo da nossa memória cultural? Cadê o povo de Barra do Corda sem memória? Cadê as lideranças políticas de Barra do Corda? Sei não.
A falta de memória é um dos fatores de atraso da nossa sociedade. Sem a memória da cidade, não poderemos jamais criar a nossa identidade.
Reclamos sempre que nosso povo não sabe votar e sabem por que não sabemos escolher nossos dirigentes? Pela falta de memória.
A corrupção que grassa no serviço público, as drogas que acabam nossa juventude, a fome, a violência, dentre outras mazelas sociais que poderiam ser evitadas se olhássemos para trás, estudando nosso país, nossa cidade e sua história.
Barra do Corda se ressente de memória, esquece muito rapidamente seus filhos ilustres, suas raízes, seu acervo arquitetônico, que a Prefeitura e seus mandatários em vez de incentivar sua manutenção, ajuda a destruir, enfim esquece sua história.
Nunca foi outorgado um Título de Cidadão de Barra do Corda a Idaspe Perdigão, homem público, polêmico e que participou ativamente da vida cultural, política e econômica de nossa cidade, em compensação se outorgam títulos de cidadania da cidade a ilustres desconhecidos, que nada fizeram pelo bem, pela história da Princesa do Sertão.
Onde estão as homenagens, que deveriam ser perpétuas a Galeno Brandes, político e antes de tudo, o maior educador de Barra do Corda, que em vida ensinou não só as letras, a matemática, mas principalmente ensinou a toda uma geração como conviver em paz, com civilidade e altivez, com parceiros e antagonistas, que procurou, como historiador, a manter viva a memória da cidade. Seu livro, antológico, deveria ser lido nas salas de aula, como forma de se ensinar a história da cidade.
Quem, a não ser a família, rende homenagens a homens como Leandro Cláudio Silva, ao Professor Raimundo José, ao, também professor João Pedro, Sidney
Milhomem, e tantos outros que ajudaram a construir a história da cidade.
A memória nos remete ao passado. A memória é algo bem diferente do, mas ajuda a compô-lo.
A memória é o único caminho para se conhecer o passado, porque toda nossa consciência do passado está fundada na memória.
Através das lembranças recuperamos acontecimentos anteriores, distinguimos o ontem do hoje. Ao saber fazer essa distinção o homem terá o seu sentido de identidade conferido. Ao conhecer o passado nos ligamos aos homens que viveram antes de nós, construindo uma noção de continuidade cultural.
O trabalho do Álvaro Braga é de uma importância enorme e precisa de apoio incondicional. Não se realiza um trabalho da dimensão do trabalho do Álvaro só com boa vontade e tapinhas na costas.
A minha, a nossa indignação pela insensibilidade dos políticos, que lembram dos fatos, quando lembram, da tribuna da Assembléia, longe dos seus e para aparecer na mídia, de nada adianta se ficar, apenas, registrada em crônicas, em manifestos, em apartes. Nossa indignação nada vale, sem a ação.
Vamos apoiar o IHGBC (Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda), para podermos resgatar a memória de Barra do Corda, vamos deixar de lado o diletantismo e partir para a ação.
Podemos, a princípio, nos engajarmos para dar sustentabilidade ao trabalho do Álvaro, promovermos palestras nos colégios, para as crianças do ensino fundamental, narrando a história de Barra do Corda, fazendo-as conhecer as figuras ilustres, na literatura, na economia, nas artes, de maneira a despertar nelas o amor e a admiração pelos nossos antepassados.
Contem comigo. Irei à cata de financiamentos, pois não se mete numa empreitada desta só com lenço e documento e as mãos no bolso.
Façamos a programação junto a professores, diretores de escola, não é necessário depender dos órgãos públicos, temos professores abnegados, dispostos a encampar esta luta.
Podem contar comigo, também como palestrante, desde que haja na programação palestras nos fins de semana.
Vamos à luta pelo resgate da nossa memória, cidadania e dignidade.
*Cezar Braga é presidente da Arcádia Barra-Cordense (ABC)