Coluna do Urias
nº 122, sexta-feira, 19 de março de 2010
Entre pés, mãos e mangas
jornal Turma da Barra
*Urias Matos
Vendo ontem um comercial de tv descobri a verdadeira inspiração para o "todo poderoso". Está lá, uma jovem descobre que um pé de manga numa praça será cortado e resolve conclamar todos os amigos a evitar a derrubada. Diferentemente de nossa crua realidade, no comercial a mobilização tem sucesso e a pobre árvore é poupada.
Noutras paragens, mobilização popular significa luta, democracia, livre expressão. Em Barra do Corda, nos tempos atuais, significa afronta, rebeldia, desafio e assim como nos governos ditatoriais a voz do povo deve ser suprimida, senão pela força bruta como em várias situações anteriores, pela força implacável do poder, a velha máxima de que manda quem pode, obedece quem tem juízo.
O emblemático caso da mangueira é na verdade uma transfiguração da forma de governo de Barra do Corda. Por essas bandas os princípios democráticos e legais são solenemente ignorados. Tudo é possível, desde a "simples" apropriação de propriedades publicas por membros da família dos donos do poder - como se vivêssemos na Itália de Mussolini ou na Alemanha de Hitler - a outras cositas más, por exemplo: nepotismo, saúde doente, educação analfabeta, concentração de poder, enriquecimento ilícito e etc, etc. etc...
A afronta do Prefeito e sua trupe ao Promotor do Meio Ambiente configuram uma conduta que apenas reflete o que acontece em nossas pairagens. O íntimo relacionamento de determinados membros do poder judiciário local com o alto escalão do poder (vide "as duas casas") abriu um perigoso precedente, as benesses, a morosidade no julgamento de ações eleitores, postergadas sem plausível explicação, reforçam essa tese que corre a boca pequena por toda cidade. Impossível não perguntar usando um adágio popular: Como o responsável por cuidar do galinheiro é amigo, compadre e padrinho das raposas?
Voltando ao tronco morto da velha árvore, as explicações surgidas depois dela tornar-se um belo cardápio para cupins -como se Inês morta pudesse ressuscitar - é que no local será construída uma praça, e, ironia das ironias, que serão plantadas árvores frutíferas e ornamentais. Ora, ora, ora. o que impediria então dessa pobre mangueira ser uma dessas espécies? Bastava um canteiro ao seu redor, uma reles modificação de projeto, na verdade, uma adequação.
Mas ela, coitada, afrontou, não se sabe de que forma os donos do poder, que decidiram, à revelia de tudo e de todos derrubá-la, destruí-la e torná-la um símbolo de seu desenfreado e cada vez mais avassalador poder. A mangueira seria um recado: Fazemos o que queremos e da forma que entendemos, o resto é o resto. São esses os sinais claramente manifestados.
Derrubar a mangueira mesmo sob o clamor de toda opinião pública teve um papel pretensamente moralizador, abalizador da força esmagadora desse poder, e a frase: "Derrubem, quem manda aqui é o prefeito Nenzin" ecoou pelo mundo com a força da internet e amplificado pelo clamor da revolta. Os sinais foram de fato ouvidos, porém, a compreensão talvez seja diferente daquela que os tiranos do poder ousaram planejar, o poder cega e por vezes um pequeno espinho pode derrubar um elefante.
*Urias Matos, poeta, atualmente trabalha em Chapadinha (MA)
Coluna do Urias
nº 121, sexta-feira, 5 de março de 2010
E enquanto a morte não vem
jornal Turma da Barra
*Urias Matos
Esta semana comecei a escrever um poema sobre morte - não sei se ao final do texto o publicarei - mas fala sobre a chegada da morte, como a esperamos ou não a esperamos.
A minha viria num cavalo branco, alado, pairando por sobre o rio Corda numa manhã de julho quando as águas parecem dissolver-se. Ela seria morena, cabelos longos e pretos...
É quase estranho, sempre que se aproxima o dia do meu aniversário [5 de março] penso nela, não num agouro, mas pelo simples fato de que a cada ano estamos mais próximos da mulher da foice; isso, claro, pela ordem natural da coisas.
E pensando nisso é que chego a rir de meu amigo-irmão Cezar, pois, pela contabilidade normal, ele está mais perto dela que eu, mais velho uns 50 anos e exatos 3 dias (perdi o amigo).
Claro que é uma brincadeira um tanto lúgubre, mas uma brincadeira. No entanto, aqui fica a pergunta: por que temos tanto medo da morte se nossa religião ocidental é tácita ao dizer que dela herdaremos o paraíso? Isso ao menos para os não pecadores, e aí fica uma outra pergunta: qual de nós não o seremos?
Os últimos fatos, terremotos, ano mais quente do século, chuvas em excesso, seca em excesso, levam os crentes (isso no sentido literal da palavra) a acreditar que estamos próximos do fim dos tempos.
Eu não duvido; nosso planeta não terá mais mil anos pelo ritmo atual. Ou talvez sim, mas a concepção de vida mudará radicalmente e a escassez e os excessos darão um novo rumo ao "modus vivendi" do homem por cá; então, de que forma o homem do futuro enfrentará a morte?
No passado, quando as doenças e as guerras faziam a expectativa de vida girar em parcos 40 anos, a morte era encarada com mais naturalidade. Chegar aos 70 para um homem era algo raro; nos novos tempos, contudo, cada vez vive-se mais e, o melhor, com qualidade de vida.
Os homens aos 70 estão viris e as mulheres cada vez mais atraentes, seja em que idade for. O império da beleza é traduzido em milhões gastos com cirurgias plásticas, cremes de beleza, academias de ginástica e por aí vai, cada vez mais somos reféns do corpo e cada vez mais nossa mente é invadida pelo lixo cultural que nos transforma; é o BBB generalizado do non sense e do analfabetismo cultural. Da música, da tv ao cinema, somos e vivemos um BBB ao inverso, manipulados e estereotipados por uma linha de conduta ditada e maldita. O fato é que vive-se mais e melhor, mas a grande questão é: será que aproveitamos bem o que a longevidade nos proporciona?
A lembrança da morte, que jogamos debaixo do tapete, sempre é nossa companheira, invisível, à espreita. O passar dos anos nos transforma, nos melhora e nos aproxima e o temor dela é um mero lampejo que por vezes nos acomete, e é esse o correto: Viver, viver, e viver.
É isso, o viver nos consome; aliás, o consumo nos consome e, macaqueados, imitamos Paris, Londres, "Globo" e Lady Gagas como mambembes num circo.
Mas a vida segue e ano que vem por sorte estaremos eu, Cézar e outros milhões comemorando um novo aniversário, sem receio da morte...Eis o poema:
A morte
Minha morte virá num cavalo alado
Não trará em suas mãos seu instrumento de dor
Trará consigo um riso dissimulado
Eu a verei chegando por sobre as águas do Corda
A contemplarei planando por sobre as águas de julhoNa manhã fria que a verei
Contemplarei sua morenice linda
A beleza pura de seus pretos cabelos
Seu nome será Suzana, Maria, Joana...
Não sei ao certo
Ela virá sem pressa, espero!
Deixar-me-á acomodar meus netos em meus ombros
Dar-me-á a chance de morar numa casinha simples
Donde verei o calvário e o sol nascente
Por certo ela me deixará beijar Louise
Nas suas vindas e idas desse mundo vasto
E de Júnior receberei calorosos abraços
E seus sonhos de futuro
Quem sabe Lu estará comigo
E aguardará ao meu lado a chegada da moça
Chego a vislumbrar-lhe o último ciúme de seus olhos
E o olhar de adeus ao ver minh´alma em despedida
E assim irei...
Voando como pássaro livre
E vagarei pelo Corda eternamente
Feliz plainando nos rebojos
E acordando com os pássaros que anunciam
Meu novo e eterno dia
*Urias Matos, poeta, atualmente trabalha em Chapadinha (MA)
Coluna do Urias
nº 120, terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Feliz ano novo?
jornal Turma da Barra
*Urias Matos
Já escrevi por algumas vezes aqui nas páginas do TB sobre minha pouca afeição às festas de fim de ano. Muito já se discutiu, muito já se escreveu, mas como a arte do cronismo incide basicamente em impressões pessoais, a minha é essa.
Nós, seres humanos comuns, ditos normais e fundamentalmente ocidentais creditamos divindades às festas de fim de ano. O natal teve origem remota, e como referência o solstício de inverno que começa a partir de 21 de dezembro, mas...
A religião o transformou na data comemorativa do nascimento de cristo e o comércio, sabidamente (esse num sentido duplo), o transformou na meca das vendas. Então, quando vejo alguém desejando “feliz natal atrasado” no dia 26, por exemplo, ou então às 18 horas do dia 25 me irrito e a explicação é simples: Passamos dezembro inteiro desejando que um dia, o tal 25, morno, chato e geralmente chuvoso e ressaqueado, seja feliz. Na maioria das vezes a felicidade vem com um “delicioso” chá de boldo.
Já no ano novo é diferente, desejá-lo é conveniente, pois achamos que a mudança do calendário de um número para outro posterior mudará nossas vidas. Será?
No ano novo ficaremos ricos.
No ano novo faremos o tão esperado regime.
Seremos promovidos.
No ano novo, tudo será melhor, os políticos serão éticos, os homens bondosos, a justiça será justiça e ninguém se venderá nem por milhões ou mesmo por migalhas como casas e “mensalinhos” como a gente vê por ai.
Mera demagogia. O humano ser apenas credita no amanhã suas aspirações. 1º de janeiro, seja de que ano for, sempre será o primeiro dia de um mês seguinte. Uma mera questão de ajuste aritmético; pois já imaginaram o trabalho que teríamos para contar os dias desde o dia primeiro do século primeiro sem os meses e anos? Hoje seria o dia... ah, não sou matemático tampouco astrônomo...
O fato é que as datas comemorativas são pretextos para exercermos nossa hipocrisia. Têm seu lado otimista e intimista que é nossa aproximação da família e dos amigos mas, porque não o fazemos ao longo do ano quando podemos?
Sei que não mudarei o mundo. Sei que muitos me execrarão, me chamarão de hipócrita, ateu, mas talvez o mundo fosse melhor se ao invés de celebrar determinadas datas, celebrássemos os dias, o nascer do sol e seu crepúsculo. Se ao invés de desejarmos feliz ano novo, velho, aniversário, casamento (vixe), contribuíssemos para que a vida de quem nos cerca seja melhor.
Talvez seja complexo, e mesmo inimaginável um mundo onde o bom dia seja regra, que as conversas com vizinhos e beijos e abraços descompromissados e gratuitos sejam norma implícita. Talvez impossível. Nesse mundo onde a aparência, o dissimulismo e o oferteio falso maquiam o sentido de se viver em sociedade precisemos sim de datas festivas. Lamentável. Sem elas e com nossos corações abertos ao abraço fortuito e gratuito teríamos um mundo bem melhor e talvez o desejo de natais, novos anos e aniversários felizes estivesse dissimulado em cada sorriso que esboçássemos mundo afora. Dias felizes a todos.
*Urias Matos é vice-presidente da Arcádia e do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda. Também poeta e escritor, mora em Barra do Corda
Coluna do Urias
nº 119, domingo, 22 de novembro de 2009
Sob o sol a pino do meio-dia
jornal Turma da Barra
*Urias Matos
Sob o sol a pino do meio-dia, na calçada de uma rua dum bairro elegante da capital São Luís, um homem saboreia seu almoço.
Calmamente, por sob a sombra de uma palmeira, se esgueirando na busca por um pouco mais de proteção, ele sorve prazerosamente sua marmita. A mulher, ao lado, lhe oferece farinha e um copo de água. A farda: calça avermelhada e a camisa caqui indicam que não é um miserável que mendiga um prato de comida de porta em porta. É um trabalhador, um guarda diurno defendendo o pão de cada dia.
A seu lado, a orgulhosa esposa não se importa com o tráfego de carros ao redor, na verdade, não se importam os dois com nada, enquanto o marido saboreia a comida, a esposa, orgulhosa pelo prazer do marido deve contar-lhe como foi o preparo, quem sabe deixou as crianças na escola ou na certa a filha mais velha prepara os menores para a ida.
Ele ri, ela também, decerto algum fato acontecido na noite anterior, ou alguma peraltice dos meninos. E assim seguem curtindo o momento, ele precisa mudar a posição da velha cadeira giratória que um dia foi de um escritório no centro da cidade ou até de uma daquelas belas casas, por certo alguém com piedade de vê-lo descansar pelas calçadas doou-a.
Se falasse, a cadeira com certeza reclamaria, girando pelas calçadas, sob o sol inclemente da capital, ela perdeu o charme, a graça e a beleza, como um idoso, perdeu a inutilidade, e assim como eles, serve apenas de guarita a um pobre diabo.
As mansões, muradas, protegidas por cercas elétricas e cães bravios não permitem entrada ao jovem guarda, seu contato com seus “patrões” resume-se a entrega de correspondências quando um desavisado carteiro não encontra o endereço correto, restando a ele o fazê-lo, nem sempre é bem recebido, as empregadas, no escala da vida em tese superiores a ele por vezes sequer abrem os portões, imagine os patrões.
E ele segue degustando seu almoço, carne, arroz, feijão, pimenta e farinha. Ao vê-lo comer tudo um riso de felicidade invade a esposa. Acordou cedo para ir a feira, enfrentou dois ônibus, mas a recompensa é a felicidade estampada na face avermelhada do marido. Não se importa com a indiferença dos outros. Seu mundo resume-se a ele e aos filhos. Agradece aos céus pelo emprego, pela saúde dos filhos e por ela também estar saudável.
Lembra-se da dura vida no interior do estado, da fome e do sacrifício de depender do coco babaçu para alimentar a família. Quase chora ao lembrar-se da mãe e do pai doentes. Prefere esquecer. Aqueles tempos tristes se foram, apesar da morte dos pais sente-se feliz, tem sua casinha na periferia, o marido trabalha e os filhos logo se formarão com certeza, daí tudo mudará, a vida com certeza será melhor para ela, para os filhos e para o marido.
Ela recolhe as vasilhas de plástico, dá o último gole de água ao marido e se despede, não há beijos nem abraços, nenhum romantismo, a sombra da folha de palmeira se foi e agora um sol cada vez mais impiedoso os força a procurar abrigo, ela irá à parada de ônibus, de lá para casa onde preparará o jantar, ele acende um cigarro e procurará outra sombra, caso não a encontre, fará outra ronda, afinal, seu trabalho é evitar que malfeitores entrem nas casas onde ele também não pode entrar.
*Urias Matos é*Urias Matos é vice-presidente da Arcádia e do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda. Também poeta e escritor, mora em Barra do Corda
Coluna do Urias
nº 117, quinta, 22 de outubro de 2009
Olimpio Cruz foi fundamentalmente poeta
jornal Turma da Barra
AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
Apenas os poetas conseguem ousar definir o indefinível. Tão somente eles, esses seres pequenos, atachados e miúdos como suas narinas rentes ao chão tem a chave do inusitado e de transformá-lo no palpável e delineável compreender humano.
Ser poeta é ter na flor da pele as dores humanas, é ter na entrada do canal lacrimal a flor da dor que rola ao primeiro lamento, mais que isso, ser poeta é ser diferente, num mundo onde impera, ao menos em tese, o normal, o ponderável, o tácito, o lúcido, ser poeta é estar exatamente no caminho oposto, num mundo em que apenas as palavras tem a força destruidora de milhões de átomos em expansão descontrolada.Gilberto Gil em sua canção "Metáfora" escreve: Uma lata existe para conter algo/Mas quando o poeta diz: "Lata"/Pode estar querendo dizer o incontível. Porém, para os poetas a ausência, essa mesma definida metafóricamente por Drummond é alimento, inspiração, tema...
Olímpio Cruz foi poeta, indigenista, contista, cronista, escritor, mas fundamentalmente foi poeta. Poeta digno, emocionante, talentoso, alguém que mesmo fiando-se às métricas soube se livre, soube arrancar da prisão emoldurada do soneto a incontida emoção que apenas a poesia é capaz de trazer.
O incontível esteve presente na obra do poeta que quando indigenista foi poeta ao retratar em verso os costumes e ritos de nossos ancestrais, e sendo poeta, soube como poucos captar-lhes a dor da opressão, da imposição cultural e econômica, graças a ele podemos ter um olhar impecável, doloroso e real da revolta do Alegre, graças a ele sentimos as dores de Perpetinha, a Infeliz que perdeu-se pelas matas escrevinhando nas árvores companheiras de sua viagem sem rumo sua passagem, graças a esse poeta que transpôs a poesia para nos dar hinos e canções Barra do Corda atravessou a módulo, por assim dizer que nos atava a Maranhão Sobrinho, que divide com Olímpio Cruz o posto de nossos maiores expoentes culturais e isso não é pouco.
Da ausência que nos fala Drummond podemos nos remeter à nossa história recente, porém bisecular. Como seria a Canção Cordina sem os versos do poeta? Como seria entoado o hino de Barra do Corda sem a métrica, precisa e talentosa poesia de Olímpio? Ou então, como encararíamos a massacre de Alto Alegre no século 21 sem a clareza explicativa e o rigor narrativo de Caiuré Imana, o Cacique Rebelde?
Essa é a ausência que nos afeta, aquela que Drummond, em seu poema diz ser branca, aconchegada nos braços, a nossa é carregada eternamente nos corações e mentes, como o filho que reclama ao pai o presente de natal no épico poema “Papai Noel”, reclamamos a ausência do poeta que faria agora cem anos.
Um homem à frente de seu tempo e que foi um homem-poeta e poeta-homem, baixinho, atavacado, voz calma, passiva e compassiva, que ouvia muito mais que falava sentado em sua cadeira de balanço a escutar o mundo a sua volta, numa aldeia gigante, repleta de prédios, asfalto, buzinas, muito diferente da calmaria da pequena aldeia, seu torrão natal ou ainda da primitiva oca dos sertões cordinos que o transformaram de homem a poeta, embora a verdade é que não seja possível dissociar o poeta do homem, mesmo que a rudeza da vida teime em tentar fazê-lo diariamente.
*Urias Matos é vice-presidente da Arcádia e do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda. Também poeta e escritor, mora em Barra do Corda
Coluna do Urias
nº 115, terça, 21 de julho de 2009
Homenagem aos 20 anos do TB
jornal Turma da Barra
*Urias Matos
As definições de tempo ajustam-se a cada circunstância. A passagem dele ou nossa passagem por ele, traduzida em dias, horas, minutos e segundos são a marca de nossa história, do que somos e do que representamos, o tempo, essa alegoria cruel, que como uma ampulheta consome nossa existência, também é a mesma que nos enche de esperanças quando um novo dia nasce.
E desse nascer crescente, dessa condição de sonhar com novos tempos, que nosso TB chega ao seu vigésimo ano. Antes de cultuar seu fundador e mantenedor, como fizemos em anos anteriores, impossível também não citar o fato de que o Turma da Barra, o nosso “TB”, criou alma e identidade própria. Ou seria melhor dizer que criou corpo?
Um corpo, é verdade, que no caso da net ainda guarda os traços anacrônicos, mas não menos charmosos das primeiras páginas em ‘html’, mas por seu conteúdo, por sua força e sua verdade, o TB jamais precisou de um rosto bonito, ao contrário, a simplicidade de suas páginas contrastaram sempre com a verdade jornalística, com o respeito aos leitores e ainda pela descoberta de novos talentos e da difusão da vida cotidiana e dos problemas de Barra do Corda.
Hoje o Turma da Barra, antes cara e corpo de seu fundador e uma das figuras mais importantes do jornalismo barra-cordense de todos os tempos, Heider Moraes, tornou-se uma confraria, dele surgiu a Arcádia Barra-Cordense, entidade literária com fins meramente literários e culturais, e ainda, recentemente, o Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda.
Mais que isso, em torno da aura do TB, essa entidade com aura flamejada de bons fluídos, vários e vários amigos se cruzaram, conheceram-se e tornaram-se camaradas do peito, são vários os exemplos, hoje, e com honra relato tal fato, somos uma maravilhosa congregação chamada família Turma da Barra, que como todas as outras tem seus sonhos, decepções, discussões, mas que confraterniza-se sempre e sonha um dia comemorar dias melhores para a Barra que deu luz ao Turma. Parabéns!
*Urias Matos é vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda
Coluna do Urias
nº 109, domingo, 11 janeiro de 2009
O Medo
Você já parou algumas vezes na intenção de definir seus medos, ou, num exercício metonímico especificá-los, ajustá-los a cada situação especifica? Talvez sim, talvez não, temos a mania tipicamente “new generation” de assumirmos nossa condição de fragilidade, ora é o “new machismo”, agora afeito a cuidar dos filhos, abraçá-los, beijá-los, ora o “new feminismo”, pouco difundido até por uma questão de honra mas que existe sim, as “new mulheres” voltam à cozinha e por ai se segue.
Na verdade, outras definições mais célebres dizem que o medo nos faz ter coragem, pois ao aceitá-lo agimos impulsivamente na direção oposta, nos tornamos corajosos, um conceito interessante que nos projeta a outro, pois, se há medo, há coragem, então a ausência do medo não poderia também significar a ausência da coragem, o que sobraria então?
Minha primeira noção de medo se deu na tenra infância quando passava minhas férias longe de casa, da mãe, e criava um mundo particular onde nele minha família era encolhida por uma espécie de máquina, e então, cada pedra, cada galho, cada coisa poderia conter a minha família encolhida distante exatos 24 quilômetros, mas meu cérebro infantil concebia tal medo em tamanha proporção que me afugentava das brincadeiras pelos terrenos baldios, preferia a companhia dos parcos livros do primário, a irmã era professora, até hoje ainda não sei explicar como suportava tais férias cheias de receios, medos bobos, mas lembro-me dessa primeira concepção de medo.
Na adolescência o medo continua, mas abri espaço para a insegurança, para as dúvidas, para a incredulidade. A metamorfose a que corpo e mente são submetidos nos fazem mergulhar num mundo onde nada é palpável, até que naturalmente as coisas se rearranjam e passamos à condição de adultos, embora jamais o sejamos completamente, pois mesmo assim agiremos infantilmente ou adolescentemente quando nos apaixonamos e esquecemos os limites e o bom senso, ou até quando realizamos um sonho como o primeiro carro ou um carro novo, nessas condições, retornamos ao estágio infantil de orgulho, posse e prazer, nada mais normal, talvez nada infantil pois apesar de rejeitamos o rótulo, nosso lado criança, aquele que nos permite rir de coisas tolas, de situações ainda mais tolas ainda permanece escondido, embora para alguns seja mais difícil aceita-lo ou vivenciá-lo, o que torna a vida mais chata.
Já nosso lado adolescente geralmente aparece na paixão, ela nos arrebata, nos cerca e nos transforma, acredito que a sensação de juventude para qual a paixão nos conduz se dá exatamente em função de estarmos nessa condição, de adolescentes encantados, hormônios a mil e a busca do encantando, o amor, a paixão.
Quando adultos somos muito mais medrosos, por mais corajosos que possamos deixar transparecer, e nosso maior medo é de viver plenamente. Nos guiamos por convenções sócio-religiosas, criadas exatamente para tolher do ser humano sua naturalidade, pois se somos felizes com o que dispomos, para que buscar a felicidade num deus desconhecido? Para que sonhar com um paraíso distante a alcançável apenas com sacrifício e privações (isso para os fiéis, já para os líderes...)?
Aprendemos que só estaremos felizes de fato se nosso carro for zero quilômetro, se nossa casa ostentar móveis da moda, eletrodomésticos de última geração e se nossas roupas se ajustarem aos últimos lançamentos da semana de moda de Milão (agora não é mais Paris), mesmo ela sendo ridícula, mas na maioria das vezes não alcançamos esses objetivos ou padrões sociais, então, vem à frustração. O medo de encarar a vida de frente, como ela é, com suas dores, mas com suas cotidianas alegrias nos aprisiona. Para ser feliz ao lado da família precisamos de férias. Para rir ao lado dos amigos precisamos do domingo. Para presentear os colegas de trabalho precisamos do amigo oculto do natal. Até inventamos o dia das mães, dos pais, das crianças, do amigo e por aí vai para celebrarmos o que deveríamos fazer diariamente, naturalmente, sem medos ou receios.
Nossa vida em sociedade, nossa evolução social e tecnológica nos afasta do que temos de melhor, a capacidade de amar, de sorrir desavisadamente, de apreciar o belo sem modismos ou padrões sociais, robotizamos nossa vida ao ponto de programarmos nosso cotidiano, nosso dia, nossa semana, ano, como se vivêssemos num ‘script’ pré-estabelecido, quando a realidade mostra que a graça da vida está exatamente em viver, ajustando os medos, por necessidade, mas aceitando a vida, seus problemas e entraves, mas principalmente descobrindo que para ser feliz basta apenas dar o primeiro passo... Que pode até ser no intervalo da novela.
*Urias Matos é poeta e escritor, mora em Barra do Corda
Coluna do Urias
nº 108, quarta, 29 dezembro de 2008
Caráter
Devido a alguns acontecimentos dos últimos dias que não convém aqui mencionar, resolvi pesquisar a definição exata da palavra caráter.
Não a encontrei com exatidão. O mais próximo que achei (ou na verdade a definição mais próxima do que eu desejaria) foi a de que caráter resume-se em índole ou firmeza de vontade.
Bem, índole por definição é o conjunto de traços e qualidades inerentes ao indivíduo desde o seu nascimento; inclinação, temperamento. Assim, retorno ao ponto inicial.
Evidentemente que à luz da etimologia ou das mais diversas interpretações dos dicionários não se pode compreender a abrangência da palavra caráter.
No senso comum, na aplicação prática da palavra, dizemos por exemplo que um sujeito firme de propósitos, de boas intenções é alguém de caráter, um bom caráter. O contrário é um mau caráter.
Então, surge uma outra questão: Qual seria o correto, um sujeito de má índole, de qualidades morais duvidosas, com inclinações para o mal e de comportamento torpe seria um mau-caráter ou um sujeito desprovido de caráter? Por favor Luciana Martins nos tire a dúvida.
Alguns leitores devem estar se perguntando por que tantas indagações sobre essa coisa, mas o fato é que por vezes em nosso cotidiano temos de lidar com situações em que para não perdermos a calma nem a postura, é preferível enveredar pelo campo da teorização.
Todos nós, seja em nossas relações pessoais ou profissionais, lidamos com um mau-caráter, o sem caráter, daqueles que agem sorrateiramente e que tem apenas um único objetivo: fazer o mal, denegrir, distorcer, difamar, tripudiar, em resumo: um f.d.p.
Sempre que os encontro, e isso aprendi com a vida, dou de lado, arrodeio, como se diz aqui por nossas bandas.
É jargão dizer que o mal por si se destrói. Sinceramente tenho cá minhas dúvidas, mas o fato é que fazer o bem é muito mais interessante, recolher-se ao travesseiro e dele ser parceiro duma bela noite de sono, sem ressalvas, sem remorsos não tem preço, como diz um famoso comercial.
Nesta época do ano, os “maus-caracteres”, ou os que sofrem da ausência dele estão mais dóceis, ao menos aparentemente. O espírito (comercial) do natal aproxima as pessoas (presentes, almoços, jantares, ceias...), mas depois, como após o carnaval, a vida volta a seguir seu rumo e com ela a rotina e eles, como aves de rapina, estarão por cá e por lá, na espreita, à espera de mostrar as asas, os bicos e com seu vôo torto azucrinar e perturbar. Oh raça!
Eu ainda não descobri o antídoto.
Talvez irei pedir aos meus filhos um escudo tal qual o de Luciana Martins, tomar umas pingas moderadamente como Cezar Braga, rogar aos céus como Renilton Barros, tentar processá-los como talvez faria Yuri Heider ou cortar-lhes o gás como talvez o Kardec faria e porventura e bondade degustar um bom vinho sossegado como o mestre Nonato Silva...
Mas decidi convidar Heider Moraes, Alex Macedo, Allander Passinho, Angélica Alencar, Humberto Madeira, Mandi Brasil, Mauro Miranda, Pablo Oliveira, Raphael Castro, Eduardo Galvão, Márcio Martins, Fagner Barbosa, Janderson Araújo, Guilherme Martins, Júlio Sá, Natanael Maninho, Robert Menezes e o restante da Turma da Barra para uma cervejada aqui em casa para sorrirmos dos sem caráter em geral.
Afinal, rir para espantar os males é o melhor remédio. Mas ainda quero perguntar para Lu Martins: - Esse povo é sem caráter ou mau-caráter?
*Urias Matos é poeta e escritor, mora em Barra do Corda