Poema
Cismas de uma dona de casa em Barra do Corda
jornal Turma da Barra

 

O poeta Carlos Loria é baiano, amigo da poetisa Luciana Martins,
que o apresenta aos leitores do TB

 

*Carlos Loria

Amanhã começo a destelhar a cozinha.
E digo logo que a casa de horrores
assusta nem um pouco essa mulher aqui:
teias de aranha, lagartixas de parede,
casas de cupim, caliça, poeira, fuligem
e tudo o mais que está limpo e em ordem
até o dia de deixar de estar.

Trata-se do telhado, a desenterrar.
Alto como esteja.
Telhas de barro, de cerâmica, de vidro.
Não deixa de ser uma exumação.
Os mortos estão mais aqui que no cemitério.
Depois que li Bachelard nunca mais fui a mesma.
Os cantos são frios; as curvas, quentes.
As pessoas cavam seu caminho pela casa.
Caminho de rato, de formigas cortadeiras.
Sim, as casas estão cheias de quinas
que é para serem desbastadas.

Casa de cupim. Como não lembrar de Augusto dos Anjos:

“O cupim negro broca o âmago fino
Do tecto. E traça trombas de elefantes
Com as circunvoluções extravagantes
Do seu complicadíssimo intestino.”

De que maneira Gullar trataria o assunto?
“Haverá luz sempre”, diria.

Eu aqui pensando em poetas,
e uma cozinha a destelhar.
E não sou eu quem vai fazê-lo.
Vou ter de tratar com gente, gente sem metafísica.

“Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...”

*Carlos Loria é baiano

(TB25julho2010)