Artigo
Um olhar particular e axiológico sobre a mulher

jornal Turma da Barra

Para Natividade, Adriana e Stéfanni

*Luiz Carlos


            Margaret Mead (1901-1978), que foi uma antropóloga cultural norte-americana, fez a interessante pergunta: “Que significa ser homem? Que significa ser mulher?” Nos seus estudos mostrou que o perfil de ser homem e mulher é advém predominantemente dos padrões culturais. Portanto, a figura feminina varia de acordo com as diversas culturas. A citada antropóloga lembrava também que, nas sociedades, há “um processo pelo qual se aprende a ser homem ou a ser mulher”.
            Não é suficiente analisar a mulher do ponto psicológico e sociológico. É imprescindível buscar a densidade ontológica que define a mulher. Também não se pode deduzir a mulher a partir do olhar meramente masculino. Há mentalidade que vê, no homem, a matriz da mulher. Nesse sentido, o homem seria o protótipo, e a mulher seria simplesmente sua reprodução, uma espécie de cópia masculina descaracterizada. Mas a mulher é, em sua imanência, ser humano tão original quanto o homem.
            Ainda é comum a defesa da concepção de que o homem é “racional” e a mulher é “sentimental”. A mulher não seria racional? O homem não teria sentimentos? Ora, o homem não é apenas “logos”, e a mulher não é apenas “Eros”. Mulher e homem, concomitantemente, são Logos e Eros.
            É amplamente difundida a tendência de relacionar homem e mulher somente por meio da sexualidade. O critério de identificação do homem e da mulher seria o sexo. É uma visão incompleta. Não se pode definir o homem e a mulher somente pela sexualidade. Isso é reducionismo que atrofia a personalidade humana.
            A mulher deve ser compreendida em sua condensação ontológica. Ela é essencialmente ser humano. É salto existencial. É linguagem tecida de perguntas e respostas. É reciprocidade dialogal. É subjetividade ardente. Não é objeto que se usa, não é utilidade doméstica nem ornamento. Mulher é núcleo antropológico de consciência e liberdade.
            Como todo ser humano, a mulher é vulnerável. Pode falhar. A mulher ensina a aliar a firmeza à ternura, a misturar reflexão e trabalho, a temperar solidariedade com senso crítico, a discordar de abusos e injustiças sem deixar de amar.
            As mulheres são potencial humano e criador. A sociedade deve garantir-lhes os direitos humanos fundamentais. A mulher, face de Deus, prevalecerá.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB31ago2010)

 

 

Artigo
O “essencial” da existência

jornal Turma da Barra

Na vida, há coisas que não podemos ver porque, o essencial é invisível para os olhos. 
(O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry)

*Luiz Carlos


            É difícil duvidar de que essas palavras de um simples pastor e de um principezinho consigam expressar uma verdade com a qual nos deparamos cotidianamente.
            É impossível encontrar quem não viveu e vive acontecimentos que não consegue compreender, contextos existenciais complexos, diante das quais estacou a metade do caminho, sem poder chegar a uma explicação convincente.
            A quem não é difícil entender, no outro, o que há além de um olhar esquivo, de uma palavra que não esperávamos, de uma atitude inesperada, de um ato jamais pensado, de uma lágrima furtiva ou de uma insólita pergunta sua que nos arrebata e dilacera os mais recônditos comportamentos...
            Quem pode afirmar categoricamente que conhece os seres humanos que o rodeiam que convivem com ele e que, talvez, dividem o mesmo teto...
            Quem, diante de uma experiência dolorosa, pode ver com clareza o que há além dessa invisibilidade que nos impede compreender seu sentido e sua razão de ser...
            Vivemos rodeados de mistérios que não podemos revelar, de faltas de clareza que não podemos iluminar, de véus que não podemos tirar e de profundidades às quais não podemos chegar. E esses mistérios ocultam coisas importantes, vitais, que não se compram nem se vendem coisas pelas quais vale a pena viver, sofrer, trabalhar, esperar; coisas que são tesouros escondidos, como uma “semente que dorme no segredo da terra” ou como um “poço no meio do deserto”, como afirmou o Pequeno Príncipe.
            O essencial sempre está mais além do que simplesmente se vê.
            Veem-se rostos, gestos, ações, condutas; não se vê a emoção que gerou esse gesto nem o processo interior que conduziu a essa ação, nem muito menos a intenção que deu origem a essa conduta.
            Vê-se a notícia sensacionalista, não os seres humanos existentes por trás dela.
            Veem-se fatos, não a transcendência pessoal nem social que toleram.
            Vê-se a violência, não a falta de educação no amor que a inspira.
            Veem-se os papéis, não os seres humanos que os exercem.
            Vê-se o rosto das aparências, não a alma da realidade.
            No nosso cotidiano, vê-se a avidez pelo consumo e pela posse, contudo não se vê que, mais importante do que ter e consumir, é viver satisfeito pelo que se é pelo que se tem e pelo que se faz.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB24ago2010)

 

 

Artigo
Alteridade: uma reflexão
sobre o “outro”

jornal Turma da Barra

*Luiz Carlos


            Cotidianamente estamos em contato com o “outro”. E o outro é uma pessoa real, de carne e osso. O outro também, paradoxalmente, é abstrato. Possui certa dimensão de magia, de sedução e enigma. O outro é múltiplo e multifacetado. Tem o poder de encantar e de desencantar. Refletir sobre o outro é uma aventura apaixonante e inconclusa. Porém, o perigo consiste em reduzir o outro a um termo genérico e essencialmente neutro.
            O “outro” ofuscado é indecifrável. Não se manifesta. Esconde-se. É irreconhecível e distante. Participa de um mundo cultural insólito. O “outro” ameaçado dissemina medo e se torna um risco em potencial. O “outro” arrogante e prepotente humilha os mais fracos e espolia a dignidade dos que estão no seu entorno. O “outro” ferido na sua auto-estima é agressivo, destruidor e sempre hostil. É hedônico em eliminar os seus desafetos.
            O “outro” egoísta não enxerga o sofrimento injusto dos que padecem necessidades. O filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) analisa o olhar do outro que inibe decisões e tranca pessoas na incomunicabilidade. O “outro” que não se enquadra em determinados parâmetros é rejeitado, fica à margem da cultura, da saúde, do trabalho e da cidadania. É o outro reduzido a nada. O “outro” sem sensibilidade não se abala com a onda de assassinados, prostituição, fome, pobreza, drogas, desemprego. O “outro” dotado de cinismo engana a sociedade e se faz passar por um benfeitor do povo.
            O “outro” que dignifica a humanidade é inédito e valoriza a comunidade com valores axiológicos consistentes e com propostas viáveis. O “outro” ético se faz companheiro da humanidade ferida e necessitada de um novo horizonte. O “outro” companheiro assume as causas legítimas daqueles que lutam por justiça e uma sociedade mais equânime.  O “outro” portador de audácia suscita coragem e limpa o devir embaçado por medos.
            O “outro”, principalmente neste tempo de campanhas políticas, não se vende a barganhistas nem se deixa enlamear por tramas corruptas. O “outro” autêntico é um humanista e compromete-se com a humanidade. O “outro” dialogal fundamenta a intersubjetividade mediante a “ação comunicacional”, analisada pelo filósofo alemão Jürgen Habermas. O “outro” instigador provoca consciências anestesiadas para que possam assumir as rédeas do seu próprio futuro.
            Agora é imprescindível não esquecer que também cada de nós  é um “outro” para os outros. E naturalmente poderíamos perguntar-nos que espécie de “outro” temos sido para os demais outros. Ser “outro” é compromisso, é serviço, é responsabilidade.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB10ago2010)

 

 

Artigo
Desvencilhar-se
jornal Turma da Barra

*Luiz Carlos


            Sabemos que a humanidade possui potenciais inesgotáveis. O complexo universo humano é pleno de efervescência criadora e inovadora. O ser humano é imprevisível, inesperado, repentista. É marcado pelos contrastes. Desmonta previsões. Projeta-se em inúmeras direções. Os passos são desconcertantes. Enquanto o pé se arrasta pelo chão sujo, o pensamento navega, nem sempre tranqüilo, pela difícil e sofisticada noosfera. Todo ser humano, do ponto de vista imanente, contém caos e energias convulsionadas. Em cada existência livre habita o enigma. Para compreender o ser humano, exige-se um requinte de inteligência e prudência. Fenômeno essencialmente humano é desvencilhar-se.
           
“Desvencilhar” é soltar o que está amarrado. Há o desvencilhar transitivo que “des-vencilha” nós instrumentais que estão fora da pessoa. Assim, o ser humano desvencilha problemas sociais, desafios ambientais, enigmas do universo. Desvencilha tecnicamente energias cósmicas adormecidas, a fertilidade do solo, a produção de utilidades.
            Mas há também o desvencilhar intrapessoal. É o desvencilhar antropopsíquico que desenrola a fantástica subjetividade humana. O ser humano desvencilha-se no olhar, no sorriso, no semblante acolhedor, no aceno fraterno, na solidariedade, nas ideias, nas emoções, no amor, na alegria, na expansividade, na cólera, no verbo ontológico, na semiologia psicológica, na linguagem social.
            O ser humano desvencilha-se nos procedimentos, nos modos de ser, nos novos paradigmas, no modo de viver, nas manifestações de consciência, da liberdade e da insurreição. Desvencilha-se na estética, na ética, na política, na utopia, na ousadia, nas buscas, nos erros, nas decepções. Quando também destrava condicionamentos obsoletos e anacrônicos, quando escancara os portões do hermetismo, quando se desdobra por dentro, quando corajosamente se expõe e se arrisca.
            Mas há também seres humanos que não se desvencilham, porque se policiam, encolhem-se e refugiam-se no intimismo e no isolamento. Não se desvencilham porque se inibem e se fecham. Eles internam-se na solidão para proteger a tênue opacidade existencial. Quem não se desvencilha cria perigosos presídios psicológicos, confina-se no egocentrismo e condena-se a ser monólogo. Torna-se estranho a si mesmo, machuca-se na interioridade do existir. Existência que não se desvencilha é existência asfixiada por falta de oxigenação solidária.
            Desvencilhar-se é respirar novos ares, é romper cercos, é liberar a voz embargada, é emancipar a consciência cativa. É desmanchar os nós da vida. É ser diferente. É trilhar os passos dos que buscam novos caminhos.
            Eis o desafio: DESVENCILHAR-SE!

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB3ago2010)

 

 

Artigo
A (im)possibilidade da relação
entre poesia e filosofia
jornal Turma da Barra

"A filosofia é a busca da sabedoria, a poesia é a sabedoria em busca dos homens."
Olavo de Carvalho 

*Professor Luiz Carlos


            Inúmeras vezes e em momentos inusitados ou pensados, ao se falar em Filosofia, a assertiva é instantânea: trata-se de uma investigação implacável da verdade; de uma busca sistemática do fundamento da realidade plausível de demonstração. Obviamente, a assertiva não está incorreta. Desde a sua origem na Grécia Antiga, com os chamados físicos jônicos, a Filosofia se aglutinou em torno desse seu ideal. Mas, por ter nascido da Mitologia Grega, essa sua relação com o verdadeiro é em verdade apenas parcial.
            A Mitologia grega era aquilo que, antes da Filosofia, pretendia explicar a origem de todas as coisas, do homem e do mundo. São conhecidos nessa tradição os poemas de Homero (séc. VII a.C.), a “Ilíada” e a “Odisséia”, bem como os de Hesíodo (séc. VII a.C.), a “Teogonia” e “Os trabalhos e os dias”. Profundamente ligados a essa cultura mitológica, esses poemas expressavam como o homem grego se compreendia no mundo e como ele compreendia a origem desse mesmo mundo. De acordo com a “Teogonia”, antes de todas as coisas, teve origem o Caos, o deus da sombra, a partir do qual nasceram, de um lado, Érebo e a Noite e, de outro, o Éter e a Luz. Depois, nasceu a Terra (Gea), a partir da qual nasceram o céu, as montanhas e o mar. E, finalmente, após isso tudo, teve lugar o amor (Eros), a partir do qual todas as formas de vida puderam surgir. Ao final desse grande poema, denominado também Cosmogonia, Hesíodo apresenta a fantástica história de Prometeu e de Pandora para designar, em meio a esse mundo nascido dos deuses, a própria condição humana.
            Prometeu é um titã, filho dos deuses Jápeto e Ásia, que rouba o fogo divino e entrega ao homem. Este, o mais elevado dos seres criados, recebe assim ainda um sopro de divindade, pelo qual Prometeu teve de pagar tendo seu fígado eternamente bicado por um abutre no Cáucaso.
            Hodiernamente, evidentemente ninguém concordaria se alguém dissesse que o mundo e o homem foram criados dessa forma tal como o descrevia Hesíodo. A par dos mais recentes descobrimentos científicos, esse alguém se oporia de imediato, dizendo que o universo surgiu do chamado Big-Bang, a explosão inicial de onde surgiram os planetas, as estrelas e a própria Terra. Porém, uma coisa é de se creditar a Hesíodo, bem como ao próprio Homero: a forma pela qual tudo isso pretendeu descrever a origem do universo é uma das coisas mais belas que o homem já criou. Não ao acaso, as obras de Hesíodo e Homero são chamadas de epopéias, pois, antes de pretender à verdade, isto é, antes de pretender que as coisas tivessem, de fato, acontecido daquele jeito, eles primaram pela beleza de uma descrição inspirada.
            O mesmo, assim, pode ser dito da própria Filosofia. Esse pensamento, de que os sistemas de Filosofia são em verdade grandes e longos poemas, pois, em certa medida, eles possuem ainda hoje uma estreita ligação com o divino e o Belo, foi sugerido por um filósofo e poeta alemão chamado Friedrich Holderlin (1770-1843). Cansado que estava do “frio deserto da especulação” a que tinha se tornado a Filosofia em sua época, devido a uma incessante e obstinada procura pela verdade, principalmente com Kant (1724-1804) e Fichte (1762-1814), a obra filosófica desse poeta consistiu em evidenciar justamente esses laços que a Filosofia mantinha e deveria manter com a Mitologia e a própria poesia. Assim como um poema que, sem visar à verdade, chega, por outro lado, a outra verdade: á verdade do que pretende ser apenas Belo.

            O TEMPO E O ESPAÇO

            Quem sou.
            Imerso nos acontecimentos.
            Fragmento de tempos incertos,
            Dispersos num labirinto espacial,
            Onde a opacidade impera
            E os presentes
            Se emaranham
            Nos passados remotos.

            O mesmo se revela
            Na existência
            E
            No não-existir.
            Busco a luz
            Como desejo a vida
            Na imensidão das dúvidas.
            Finalmente,
            Desejo descobrir
            Quem sou.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB27jul2010)

 

 

Artigo
Adão e Eva
jornal Turma da Barra

*Professor Luiz Carlos

“As explicações históricas assumem a forma de uma narrativa. 
E o fenômeno a ser explicado manifestou-se porque D ocorreu depois, precedido por C, B e A. 
Se qualquer dessas etapas iniciais não houvesse acontecido, ou tivesse decorrido de uma outra maneira, então E não teria existido(ou teria se apresentado de uma forma substancialmente modificada E’, exigindo uma explicação diferente). 
Assim, E faz sentido e pode ser explicado rigorosamente como resultado da sucessão que vai de A a D. 
Entretanto, nenhuma lei da natureza determinou a ocorrência de E; qualquer variante E’ surgida a partir de um conjunto modificado de antecedentes seria igualmente explicável, ainda que muito diferente na forma e no efeito.
Não estou falando de acaso (pois E tinha de ocorrer, como conseqüência de A a D),
mas do princípio central de toda a História – a contingência. 
A explicação histórica não se baseia em deduções diretas das leis da natureza, mas numa seqüência imprevisível de estados antecedentes onde qualquer alteração em qualquer etapa da seqüência teria modificado o resultado final. 
Este resultado final, portanto, depende ou está na contingência de tudo o que aconteceu antes – a indelével e determinante assinatura da História”.
(Stephen Jay Gould – Vida Maravilhosa).

            Em tempo remoto, oriundo da evolução dos milênios e do mistério, a surpreendente imagem e semelhança humanas, surgiu a humanidade. Era simplesmente humano. Assim afirmava o gênero e a espécie.
            Era o começo do tempo. Havia luz, trevas, terra, sol, lua estrelas, animais e humanos. Só não havia palavras. Todo o significado era silêncio. Porém, a vida estrugia sobre a terra. A vida não sabia que existia. As coisas existiam e ninguém sabia.
            A noite chegou e escureceu tudo. A lua apagou-se. A água começou a cair torrencialmente. O clarão do céu ia embora, depois voltava. E o animal urrava estremecendo tudo.
            A vida ficou profundamente amedrontada: urrou, correu, escondeu-se. Dessa forma permaneceria toda a noite.
            O medo assinalou a face do macho, sentou-se ao lado da fêmea. E na noite aterradora ele amparou-a e amparou-se. A caverna acolheu a ambos. Então, uniram-se um só corpo.
            O sol iluminou as coisas. Dissipou a noite e trouxe à tona as necessidades do dia.
            Eles despertaram do sonho para a realidade. O ato de sonhar criava imagens aterrorizantes.
            Na manhã límpida, escutavam os belos ruídos da alvorada: a vida festejava a vida.
            Saíram andando verticalmente, sujos, os cabelos desgrenhados, nus, falando gestos e grunhidos. O instinto movia-os na busca do alimento. Cheiravam os odores provenientes da terra molhada. Tateavam e pegavam plantas e espinhos. Sorviam néctar e mordiam e mastigavam. Ouviam. Não pensavam. Sentiam somente.
            Se o macho fugia, a fêmea o seguia; o medo os levava.
            A árvore refugiou-os.
            A árvore abrigou-os, protegeu-os, descansou-os, acalmou-os. Possuía atributos de árvore: tronco, raízes, folhas e frutos. Comeram. Saciaram-se. Adormeceram tranquilamente.
            O sol maravilhosamente atingiu o zênite e começou a declinar do outro lado.
            Na árvore, restou um único fruto saboroso: pendurado de forma perigosa. Quem sabe, um fruto proibido!
            Quando ela despertou, procurou-o ao seu lado. Não o encontrou. Emitiu sons desesperados. De repente, avistou-o: estirado, embaixo da árvore. Apressadamente, desceu ao seu encontro. Apalpou-o. Chamou-o. Percebeu o desastre. Imóvel, ele suplicava vida. Ao tentar alcançar o fruto que restara, o galho cedeu. A cabeça suportou o impacto. A vida esvaiu-se imediatamente. Ao seu lado, o fruto descansava serenamente.
            Ela ergueu-se, com um olhar investigativo. Observou triste e melancolicamente aquele corpo sem vida. Veio a implacável solidão. Atenta, perscrutava os arredores. Sentiu algo diferente como descobrir o primeiro segredo. Alguma coisa inusitada acontecia. Amadurecia com a dor, que invadia o seu corpo. Algo introspectivo e singular. Era o despertar do segredo de si mesma. Ela ensaiou um leve e suave sorriso.
            Então, imitando o caráter humano que possuía, fez ecoar no mundo esse ruído desconhecido: “N...ã...ã...ã...ã....ã...o...o    N...ã...ã......ã....o.....o!” Isto de forma bastante furiosa.
            Naturalmente, a floresta espantou-se.
            E, num ato sutil, agarrou o fruto proibido e correu desesperadamente.
            Os dias passaram-se, passaram-se os meses; ela começava a dominar a arte do pensar. Deparava-se criando palavras: “Sou Eva”. Admirava as coisas. Apesar da sua fragilidade, essas descobertas davam-lhe sabedoria e segurança. A palavra representava refúgio e proteção.
            Improvisamente, sentiu saudade. A memória trouxe tormentos com lembranças de acontecimentos passados.A necessidade aumentou. Fê-la sair, correr, criar novos caminhos. Procurou e procurou. Nada encontrou que a fizesse contente. Cansou. Desistiu. Resignou: esperaria enquanto faltasse.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB13jul2010)

 

 

Artigo
Originalidade: uma reflexão em tempos de adesismo
jornal Turma da Barra

*Professor Luiz Carlos


            Em tempos de reflexão, diante de uma profunda e irreversível crise da pós-modernidade e da tacocracia que nos envolve, o homem pós-contemporâneo é levado a repensar a si mesmo em face de seu passado, a repensar-se como causa e finalidade de suas ações, de seu pensamento, de seu discurso. Essa reflexão consiste certamente em uma busca pela re-descoberta do ser humano como alguém capaz, que deve se responsabilizar por suas próprias ações: responsável por aquilo que faz, pensa e acerca do qual fala. Por essência, o ser humano possui potencial crítico, capacidade para avaliar e liberdade para conduzir-se.
            Numa análise histórica e filosófica mais atenta, é possível perceber que nem sempre é esta a situação vivida pela humanidade e, como escrevi no meu artigo anterior “A complexa e tênue relação entre o adesismo e a opção consciente”, o ser humano está sujeito a inúmeras deformações. Cotidianamente e sutilmente, é transformado em adesivo social. É conduzido a imitar os outros, a agir como os outros agem.
            Neste contexto, proponho uma reflexão sobre a hodierna e pertinente peça intitulada O rinoceronte do genial, fantástico dramaturgo e intérprete do mal-estar, das dúvidas e do desespero humano contemporâneo: Eugène Ionesco (1909-1994). Na década de 1960, Ionesco relata como surgiu O rinoceronte. O escritor Denis de Rougement encontrava-se na Alemanha e testemunhou o fenomenal delírio histérico com que a multidão recepcionava e aclamava o Fhurer Adolf Hitler na cidade de Nuremberg. De repente, Rougement sentiu-se também contagiado pelo espetáculo de extrema passionalidade. Mas, com certo esforço, consegui afastar-se daquele delírio coletivo.
            O rinoceronte estigmatiza os totalitarismos, particularmente o hediondo nazismo. Quando os  alemães invadiram a França, na Segunda Guerra Mundial, Ionesco ficou estarrecido ao ver que setores franceses aderiam à ocupação alemã. Tentavam justificar-se: “Eles não atacam, não nos incomodam”. Foi esse contexto de subserviência que motivou Ionesco a escrever O rinoceronte.
            Esta belíssima obra denuncia o fenômeno do adesismo contagiante. As pessoas abrem mão do senso crítico e da autonomia, e vão aderindo a sistemas totalitários, a culturas que massificam, às ideologias que escravizam, ao poder que comete atrocidades, ao grupo hegemônico. È o ápice da padronização social, sob forma irracional. Cada qual quer ser igual aos outros e tem ojeriza de ser diferente.
            Subitamente, nas ruas da cidade aparece um rinoceronte. Perplexos e assustados, os moradores tecem seus comentários sobre o estranho fato. Dúvidas e opiniões dúbias prevalecem. Era um ser humano transmudado em “rinoceronte”, um quadrúpede pesado e branco, que esmagava gatos com a pata e derrubava paredes com o focinho cornudo. O símbolo da “Besta”. “E vão aparecendo outros” rinocerontes”. Patrões, funcionários, o professor, o intelectual, a madame, o cardeal, as autoridades aderem ao rinocerontismo. “Um mar de rinocerontes”. Já são a maioria e detêm o poder. Todos querem tornar-se rinocerontes, porque temem ficar sozinhos.
            Dudard  justifica a mudança para rinoceronte:”Não se deve levar muito a sério os originais. A média é que conta”. Enquanto Bérenger ataca o rinocerontismo, Dudard defende-o: “O que há de mais natural que um rinoceronte”, diz ele.
            Quase todo mundo virou rinoceronte. Sobraram Bérenger e sua amada Daisy. Mais Daisy começa a ceder: ”Talvez os anormais sejamos nós”. Bérenger ainda resiste: “Não os seguirei”. Contudo, a pressão adesionista abala Bérenger:”Ficamos sozinhos”. E depois que Daisy o abandona para aderir aos rinocerontes, Bérenger arrepende-se de não haver feito o mesmo;”Como me arrependo...eu sou um monstro, tenho vergonha”. Nada mais trágico do que abdicar da personalidade para aderir. Para adotar a atitude dos outros.Mas, repentinamente, Bérenger recupera-se e grita:”Eu me defenderei contra o mundo. Sou o último homem. Não me rendo”.
            Em época de tanto adesismo e de tanta sedução, resistir é questão de dignidade e de sabor ético. Que tenhamos a coragem de sustentar a decisão de Ionesco:” Não me rendo”.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB6jul2010)

 

 

Artigo
A complexa e tênue relação entre adesismo e opção consciente
jornal Turma da Barra

*Professor Luiz Carlos


     Hodiernamente, prolifera a onda adesista. As pessoas aderem com extrema superficialidade e apressadamente a idéias, a sistemas políticos, a expressões culturais, a credos religiosos, a campanhas ufanistas, a slogans como, em tempo de copa do mundo, rumo ao hexa. São ingenuamente mimetistas. Absorvem os modelos ambientais, adaptam-se de forma alienada a padrões sociais. O adesismo leva as pessoas a ser o que os outros são a fazer como os outros fazem. O adesista volta-se para interesses rasteiros. Exercita o movimento de translação antropológico em torno de vantagens. Amanhece nas filas intermináveis que hipotecam apoio aos insaciáveis mercadores pós-modernos. O adesismo condiciona e tange a multidão como ovelhas ao matadouro.
     A onda adesista é fomentada pela publicidade inteligente e radicalmente sedutora, patrocinada pelos que detêm o poder e a riqueza. Parâmetros e interesses dos setores dominantes são inoculados no inconsciente popular. E as pessoas incorporam e assumem comportamentos atitudinais como se fossem diákrisis de sua própria vontade. Observem o espírito ufanista presente na mídia, nas bandeiras, nas escolas e tantos outros serviços à população fechados por causa da copa do mundo. Na campanha pelo movimento em prol do Projeto Ficha Limpa não vimos tal ufanismo. O adesismo subordina o ser humano a interesses que lhe são estranhos. Aliena pessoas e dissemina sutilmente o espírito servilista. E, por incrível que pareça, vítimas instrumentalizadas chegam a agradecer a seus alienadores. E faz-se “voluntariamente” servo. É a “servidão voluntária” de que fala o livro de La Boétie Discurso da Servidão Voluntária.
        Mas, se o adesismo desfigura o ser humano, a opção consciente confere-lhe dignidade e consistência. Provoca um surto antropogenético. Quem decide por alguém ou por alguma coisa move-se por razões fundamentadas. Optar é exercer a liberdade. Quem opta escolhe metas. Ao optar, o ser humano assume a sua condição de ser humano. Opção, então, é ação eminentemente responsável. Optar é o agir típico da personalidade autônoma. Quem opta tem a capacidade de concordar e discordar. Ao optar, o ser humano define-se e revela a grandiosidade da sua identidade. A opção emancipa o ser humano. Na opção, o ser humano determina-se a si mesmo, e por si mesmo. Na opção, o ser humano é pólo. A opção personaliza.
    O adesismo é uma eficiente metodologia pós-moderna empregada para dominar pacificamente a sociedade. Sistemas políticos e econômicos, movimentos sociais e místicos utilizam meias-verdades e versões distorcidas para capturar pessoas e obter adesão complacente da população. Existe, sem dúvida, adesão consciente legítima. Assim, aderir à construção de uma sociedade justa e fraterna é salutar. Todavia, o adesismo acrítico ou vantagista pode provocar procedimentos nocivos à sociedade. Aderir a sociedades injustas é cumplicidade.
      O ser humano faz-se e refaz-se por meio de opções refletidas e desfaz-se mediante adesões maciças. A opção cria ruptura benéfica no adesismo alienante. E, com isso, as vítimas aliciadas pelo sistema dominante rebelam-se e descativam-se. O futuro de uma nova humanidade não reside no adesismo repetitivo, mas na força da opção criadora e transformadora. O adesismo consolida e perpetua o mundo injusto que aí está. A opção audaciosa e inovadora poderá germinar outro mundo. Mundo onde a originalidade de cada ser humano seja respeitada, e não estereotipada.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB29jun2010)

 

 

Artigo
Transcendência dialética
jornal Turma da Barra

*Professor Luiz Carlos


            Podemos afirmar que a Filosofia é uma busca incansável da hermenêutica do significado. Observa a realidade para compreender-lhe o sentido. Segundo o filósofo Michel Foucault (1926-1984), a filosofia busca o significado “arqueológico” do ser humano. Em muitos contextos e situações, o ser humano é usado e não compreendido.
            Para compreender o ser humano é imprescindível analisá-lo como processo, como devir, como um complexo fenômeno em movimento. A anacrônica visão determinista estratifica o ser humano e engessa-lhe o verdadeiro significado. O ser humano está em mutação. É um oceano de decisões. Jamais concluído. Possui potencial capaz de germinar novo mundo. Articula pensamento crítico com práxis. O ser humano fascina. O ser humano é águia altiva que contempla horizontes vastos. Todorov, no seu livro Le Jardin Imparfait (1998, p. 293), diz enfaticamente: “O ser humano é ser incompletamente determinado, potencialmente bom e potencialmente mau. Tudo é possível. Nada é certo.” O ser humano pode posicionar-se na vanguarda ou na retaguarda. Edifica ou pulveriza. É seqüência de contrates. Não se define por um conceito matemático, preciso, objetivo. O ser humano é um incrível paradoxo antropológico.
            O ser humano é uma mescla de bem e de mal, de “trigo” e de “joio”. É concomitantemente Eros e Tânatos. Ama com volúpia e odeia de forma implacável. É diáfano e indevassável, acessível e inabordável. Diálogo fecundo e monólogo estéril. O ser humano abriga potencial para constantemente re-fazer-se. Não é estereotipado. É uma belíssima e sensível dança entre a sua realidade ontológica e não-ontológica.
            É necessário manter a perspectiva da mistura, e não da visão dicotômica, dualista. Não podemos separar a humanidade entre ilibados e condenados. É a pseudo dicotomia dos famosos e conhecidos “dois lados”. Do lado de cá, estão os imaculados. Do lado de lá, estão os maculados. Percebe-se que esse dualismo é extremamente discriminatório e reduz o ser humano à sua condição de estar no mundo sem a Diákrisis, isto é, ação de decidir. Definitivamente, não há hordas de puros e hordas de impuros. Cada ser humano é uma mistagogia, que varia de pessoa para pessoa.  É aqui que pulsa a transcendência dialética, e não a visão fixista, dualista ou dicotômica a respeito do ser humano.
            O ser humano, na sua essência, é protótipo de dialética. Vive intensamente a contradição no âmago de sua existência. O confronto dialético não é opcional. É inerente ao seu existir. Há lutas entre grupos e sistemas, mas aqui salientamos o conflito dilacerante na medula do existir pessoal. Neste inexplicável ser humano há um faraônico poder ontogenético que é capaz o ser, e há potencial niiligenético que é capaz de gerar o nada. É a batalha hercúlea entre ser e não-ser.
            O ser humano é Metá-noia, palavra de origem grega que significa “mudança” na forma de pensar, de sentir, de agir e de conviver. Esta palavra tem profundo sentido teológico, filosófico, ético e psicológico. É uma expressão que conclama o ser humano a transformar a degeneração em regeneração.
            O ser humano desafia a si mesmo. Tem potencial para superar o trágico. É dialética antropológica pulsante. O ser humano está condenado a superar-se. Jubilar-se na emancipação de sua dependência. Extrair audácia na sua timidez. Transformar clamor de seu silêncio. Descobrir criatividade de sua inércia. Fazer de seu nada um ser e extrair vida de sua agonia. O ser humano encara e responde aos desafios impostos pela sua condição de ser humano com a transcendência dialética.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB22jun2010)

 

 

Artigo
Morte e identidade humana: consciência de finitude
jornal Turma da Barra

*Professor Luiz Carlos


            O ser humano é o animal que pensa sua própria morte. Todo animal sofre, todo animal morre e está comprovado que muitos temem, antecipam, fogem á própria morte, no contexto de suas capacidades cognitivas e culturais. Recuando às origens de nossa espécie, sabemos que a ciência não está capacitada para datar exatamente os primórdios do Homo sapiens. Sabemos, entretanto, que ele apareceu há cerca de 40.000(ou 50.000) anos, precedido pelos milhões de anos do processo de “hominização”. Durante este processo e antes dele houve o aparecimento de vários tipos de antropóides, que desapareceram em seguida, deixando apenas o ramo que deu o Homo sapiens atualmente vivo, nós.
            Diversas inovações marcaram a emergência de nossa espécie, dentre as quais os paleontólogos salientam o estágio vertical que permite organizar o espaço, estruturá-lo em seis direções principais em volta de um eixo cortando um plano, o crescimento de volume e complexificação neuronal do cérebro, o uso da mão na qual o polegar opõe-se aos outros dedos, facilitando a confecção e o uso de ferramentas e utensílios, e certa atitude em relação aos mortos da raça.
            Importa aqui não simplificar, uma vez que os progressos da paleontologia nos proporcionam meios de marcar etapas. Alguns animais reúnem os restos de seus congêneres em determinados lugares ou vão, como os elefantes, morrer em determinado e discreto lugar ad hoc. O enterro dos mortos não é próprio de nossa espécie, é anterior ao Homo sapiens: o Homem de Neandertal (500.000-35.000 anos aproximadamente) já enterrava seus mortos. A pesquisadora Leroi-Gourhan descobriu em sepulturas neandertalenses do Iraque que um morto foi enterrado sobre um leito de flores ( a partir do pólen, ela determinou várias espécies de flores e a estação do enterro). O homem que sepulta mortos ainda não é fatalmente o homo religiosus, mas se aproxima dele. Arte, magia e religião aparecem com provável quase simultaneidade, junto com um poder simbólico( portanto abstrativo) que permita a linguagem articulada, a projeção de forças naturais em divindades, a interpretação da morte, afinal, a capacidade de articular mitos e ritos. Os mais antigos túmulos conhecidos são neandertalenses e não foram feitos apenas como proteção higiênica dos vivos, como provam a posição fetal do cadáver, os ossos pintados de ocre, as pedras protetoras.
            O surgimento da religião, seguramente misturada de magia, é, portanto, praticamente indissociável não apenas da projeção de forças naturais em personificações mitológicas, do animismo, mas também do cuidado (ou culto) pelos mortos, da antecipação da própria morte que faz chegar à visão de globalidade de uma vida, elo para a elaboração dos valores da cultura, em particular da ética social que norteia o comportamento da tribo.
            O ser humano é também o animal que fala. A linguagem, que hoje polariza todas as ciências humanas, apareceu no contexto de outras ferramentas, paralelamente ao adestramento do comportamento manual, evoluindo da linguagem retrospectivo-concreta (homo de Neandertal) para a linguagem simbólica (Homo sapiens) cujas mais antigas expressões comprovadas são constituídas inclusive de enfeites, representações picturais, aplicação de “ cores. Da paleontologia passemos ao campo da psicanálise para observar: “Falar é negar a morte, tentando fazer emergir a vida no lugar onde a morte se manifesta, no corpo”. Quem abraça a morte está engolido por ela e não volta: quem fala é quem ficou aquém. Falar é, portanto, uma maneira de afastar a morte e o medo da morte, de negá-la, mesmo quando a fala a celebra. A linguagem é vida, ela deserta o corpo concomitantemente com a vida, ou pouco antes. A fala é também expressão de nossa transcendência sobre as forças da natureza, podendo exprimir a vida e a morte, a alegria e a dor, cantar o sofrimento e a esperança; é a expressão do recuo que temos sobre nossa vivência para observá-la, analisá-la, criticá-la, orientá-la. Atinge o não-presente, é promessa e lembrança; traduz a realidade e evade-se na imaginação utópica.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva, filósofo e historiador, membro da Arcádia Barra-cordense.

(TB15jun2010)

 

 

Artigo
A política e a sociedade
jornal Turma da Barra

*Professor Luiz Carlos


            Uma breve abordagem acerca da Política. Em consonância com BOBBIO apud MARTEUCCI e PASQUINO (1997: p.954), Política é um termo “derivado do adjetivo originado de polis (politikós), que significa tudo o  se refere à cidade e, conseqüentemente, o que é urbano, civil, público, e até mesmo sociável.
            O autor em questão (1997: p.54) também ensina que o conceito de Política, aqui entendida como forma ou modalidade de atividade ou de práxis humana, vincula-se estreitamente à noção de poder. Este, por sua vez, aparece em definições tradicionais sendo visto como a adequação para se obter qualquer tipo de vantagem ou, até mesmo, no conjunto de meios que possibilitam o alcance dos efeitos que se procuram obter.
            “Outra noção de Política a entende como:” sistema de regras respeitantes à direção dos negócios públicos”, “arte de bem governar os povos”, “atividade exercida na disputa dos cargos de governo ou no proselitismo partidário”, “princípio doutrinário que caracteriza a estrutura constitucional do Estado”,  “posição ideológica a respeito dos fins do Estado” ou, ainda, o “conjunto de objetivos que dão forma a determinado programa de ação e condicionam a sua execução”, para além de “habilidade no trato das relações humanas, com vista à obtenção dos resultados desejados”.
            A Enciclopédia Britannica, em seu volume 11, apresenta o seguinte conceito para Política:“Ramo das Ciências Sociais que estuda as diversas formas de organização do poder político, bem como sua dinâmica, suas instituições e seus objetivos”.
            Por sua vez, o Dicionário de Filosofia de Abbagnano (2003: p.773) mostra as seguintes acepções:(...) 1ª: a doutrina do direito e da moral;2ª:a teoria do Estado; 3ª: a arte ou a ciência do governo; o estudo dos comportamentos intersubjetivos.
            A Política representa uma forma de conduta humana: trata-se de uma atividade que se exterioriza através de relações de poder, que envolvem o mando e a subordinação. Também consiste na ação de governar, com o objetivo primordial de alcançar a organização e a direção da comunidade em que é aplicada. A atividade política, assim, vincula-se de forma intensa com o poder, o qual se converte em um meio para a consecução da prática de cunho político.
            Outra visão de Política informa que ela consiste no produto de uma atividade vinculada à organização e distribuição de competências do Estado. Outro significado é resultante de uma visão da Política como atividade que tem surgido nos órgãos, na organização e na distribuição das competências. Tratam-se de atividades incrustadas no Estado moderno, ensejando a conformação de uma Política de caráter estático.
            Sob um ponto de vista que se caracteriza pela amplitude e pelo caráter genérico, os termos Política e Político se aplicam a uma classe de poder organizado, originada em qualquer formação social em que se estabeleçam vínculos de subordinação e de obediência entre aqueles que exercem o mando e os que devem obediência aos primeiros. Em nível mais específico, o poder político se trata do tipo de poder cuja imposição ocorre de forma a ensejar a coação, obrigando os membros da comunidade a acatar determinadas decisões – consiste, assim, na atividade que o homem executa com o objetivo de influenciar o processo de organização da vida estatal por meio do exercício do poder.
            Numa acepção vulgar, a qual se caracteriza pelo acentuado caráter pejorativo, a Política é entendida como uma atividade que o indivíduo executa com vistas a conquistar o poder, ainda que para isso esteja lançando mão de métodos moralmente repugnantes. Esta visão é a mais difundida na sociedade e contribui para a permanência de uma estrutura assinalada pela vigência de uma Política descomprometida com as questões de caráter público e social.
            Sob uma visão científica, a Política consiste no conjunto de conhecimentos sistematizados concernentes à forma de organização e de governo das comunidades humanas, seja de períodos passados, seja no contexto atual, assim como se refere às suas instituições e às inúmeras doutrinas políticas que se encontram nas diversas estruturas sociais.
            Ainda conforme Abbagnano (p.774), os fenômenos políticos, tanto em coexistência quanto em sucessão, estão sujeitos a leis que se mostram invariáveis, cujo uso pode permitir a ocorrência de influências sobre estes mesmos fenômenos.
            Deve-se ressaltar o papel da Política na articulação dos interesses humanos com as estruturas que fazem parte da organização social, delimitando as ações que devem ter os atores no quadro dos eventos sociais. É pela Política que se organizam os interesses predominantes na sociedade, mas também é através de seus quadros que uma ordem contrária à vigente pode ser instalada ou, na maioria das vezes, cogitada, visto a permanência de uma sociedade ainda dominada pelo patriarcalismo e pelo amor à tradição. Um eficaz conhecimento acerca da Política consistiria num instrumento muito adequado para se cogitar a possibilidade de superar as injustiças predominantes na sociedade, uma vez que permitiria possíveis articulações a fim de permitir a mudança que se faz necessária para alterar o contexto injusto que ainda prepondera na atualidade.
            A Política tem sido um instrumento cujo poderio se fez muito evidente em prol do interesse de classes sociais favorecidas economicamente. Com isso, ela tende a atender aos interesses desses setores mais abastados na sociedade e contribui para a perpetuação de uma estrutura social assinalada pela exclusão e pela injustiça. A Política se evidencia pela participação dos indivíduos nas decisões relevantes para a sociedade em que vivem, estando para além da mera disputa por cargos eleitoreiros, impressão que, infelizmente, permeia o imaginário popular no que ser refere a esse tema A Política, infelizmente, está relacionada com a ocorrência de decisões que, a despeito de influenciarem a vida de um número bastante significativo de pessoas, são tomadas por uma minoria, sem a busca de consulta à vontade popular.
            Vive-se no Brasil em um sistema democrático, isto é um fato óbvio. Entretanto, a falta de participação popular nos processos políticos do país é uma constante e é significativo o número de indivíduos que mostra desconhecimento ou desinteresse para com o assunto, afirmando categoricamente detestar a Política ou, como resultado da falta de crédito nas camadas dirigentes, afirma de forma categórica que não gostam de política, que é assunto para mentes privilegiadas, que não entendem e nem querem entender seus meandros, pois se trata de algo sujo e com o qual não se deve ter nenhum contato para que se mantenha a integridade e a decência.
            Sabe-se que a Política se trata de uma forma de entender e de organizar a estrutura social na qual se está inserido, é também a chance de lutar por uma sociedade menos excludente e injusta, a despeito da vontade das elites em perpetuar um entendimento da Política como um afazer do qual é capaz apenas o indivíduo dotado de boa posição econômica e que, por certo, partilha de interesses caros às camadas dominantes no cenário social. Nesta noção, apenas uma pequena parcela de indivíduos estaria capacitada a entender e a determinar as características políticas da sociedade vigente, situação que contribui para que este contexto permaneça inalterado e impregnado de injustiça.
            Para entender a conformação de uma determinada sociedade, precisa-se  compreender as bases políticas que a coordenaram. A estrutura política é determinada pela infra-estrutura econômica. Aqueles que detêm o poder econômico e o exercem tendem a atuar na função de articuladores da estrutura política nas sociedades e, normalmente, para conseguir a manutenção da situação que os favorece, prejudicam a articulação, a maneira pela qual se organizam as forças políticas que não estejam em sintonia com os seus interesses.  Nesse sentido, ganha relevo a fama pejorativa que movimentos de cunho popular adquirem nas sociedades que se organizam sob a égide do capitalismo: eles são atacados, normalmente, desde a sua gênese, sendo esta uma estratégia das classes abastadas para evitar que tais movimentos adquiram relevo e se tornem efetivas ameaças para a injusta ordem vigente.
            Em decorrência desse domínio, um grande número de pessoas é afastado da oportunidade de pensar e de fazer a Política em virtude de uma pretensa incapacidade para essa função, deixando as decisões a serem tomadas por uma elite que, assim, adquire o respaldo para perpetuar uma estrutura social sob o signo da injustiça. Nesse contexto, adquire notável relevância transformações que possibilitem o acesso efetivo da maioria populacional aos reais ditames da Política. Só assim ela poderá, de fato, estar a serviço dos interesses e necessidades populares. Mas a indiferença é impressionante, e existe, de forma velada, uma declaração universal dos omissos, com o discurso cínico de que “não adianta mesmo, as coisas não vão mudar.”
            Em oposição a esse contexto, ganha realce as políticas de orientação voltada para o marxismo, as  quais visam beneficiar amplos setores na sociedade e não apenas uma minoria. Tradicionalmente, tais posicionamentos tendem a ser combatidos nas sociedades articuladas sob os moldes do capitalismo, mas, nos últimos tempos, políticos de tendências mais populares, mais comprometidos com as causas sociais passaram a assumir funções de destaque na sociedade nacional, a exemplo da presidência conquistada por Luis Inácio Lula da Silva, anteriormente um líder de cunho popular, chefe do Partido dos Trabalhadores – o PT. Embora hodiernamente ele tenha assumido um caráter um tanto incompatível com sua vertente de luta trabalhista, sua vitória representou uma notável conquista das classes trabalhadoras numa nação dominada pelo patriarcalismo e pelo apego a uma estrutura política tradicional, ainda que injusta.

*Luiz Carlos Rodrigues da Silva é professor, filósofo e historiador e membro da Arcádia Barra-Cordense

(TB25mai2010)