Crônica
O lendário Melquíades Santana
jornal Turma da Barra
*Kissyan Castro
Chamamos de lendários aqueles que, por suas façanhas e peripécias, deixaram marcas indeléveis à sua geração, e cujas histórias, ainda que deformadas pelo imaginário popular e poético, conseguiram sobreviver ao tempo. Nesse contexto afigura-se a imagem de Melquíades Santana, nascido em Floriano, no Piauí, mas que acabou por fixar residência numa localidade próxima ao Suja-pé.
Ele não foi uma figura de destaque na política, na educação ou nas artes. Foi, entretanto, a peça-chave para o desenrolar de muitos casos que envolviam a segurança pública de nossa cidade em fins do século XIX. Conhecido por sua integridade, coragem, força e habilidade em apanhar criminosos sem disparar um único tiro, era frequentemente solicitado para resolver problemas considerados insolúveis pela polícia local.
Embora tivesse recebido inúmeras propostas para ingressar nas milícias, recusava-se dizendo apenas que preferia ser como o vento, que não sabe de onde vem nem para onde vai. Para ele, era preferível ignorar uma regra a conhecê-la e ter de transgredi-la, pois considerava qualquer tipo de instituição ou agremiação como sendo restritiva das ações humanas, portanto, contrárias ao seu caráter tão afeito à liberdade.
Contam os mais antigos que um dia recebeu a visita inesperada de dois policiais em sua casa, no Suja-pé, pedindo-lhe ajuda para um caso de insurreição dentro da própria corporação. Sem saber por qual razão, talvez por incipiência às pressões próprias do ofício, um dos soldados havia surtado e, de faca em punho, ameaçava furar alguns civis. A situação se agravava e ninguém conseguia detê-lo. Quando Melquíades chegou ao local o obstinado soldado esbravejava: “Eu vou matar! Eu vou matar! Não se aproxime senão eu mato!”
Melquíades costumava vestir uma camisa de mangas compridas, porquanto assim disfarçava o bastão de jucá que trazia preso ao antebraço. Única arma que usava em todas as suas investidas e que manipulava com perícia.
– Calma, amigo! Ninguém aqui vai fazer mal a você, pode baixar a arma – atalhou Melquíades, sempre muito tranquilo.
Hábil persuasor, envolveu o oponente num colóquio que, sem dar-se conta, fê-lo ganhar sua confiança e esquecer completamente da situação embaraçosa em que se havia metido. Um instante em que o soldado virou o rosto para olhar ao lado foi suficiente para que Melquíades sacasse o bastão e o golpeasse na têmpora. Quando os policiais chegaram seu colega de farda jazia no chão, desarmado e imobilizado.
Melquíades rejeitava qualquer estipêndio em troca de seus favores. Não era mercenário. Fazia-o de bom grado, por amor à justiça.
Por causa do seu talento a serviço da ordem e do direito, acabou atraindo para si muitos inimigos que procuravam uma ocasião oportuna para tirá-lo do caminho.
Durante uma festa, estando Melquíades demasiado bêbado, debruçado a dormir sobre uma mesa, chegou-lhe a notícia de que seu filho, Sebastião, havia sido esfaqueado. De fato, Sebastião estava numa outra festa, divertindo-se, quando foi surpreendido com uma facada entre as suas costelas, da qual escapou sem maiores sequelas. O velho pai pôs-se de pé num salto e, com os olhos ainda turvos, cambaleando e reverberando insultos contra a insignificância do criminoso, disse que o mataria sem maiores esforços. No entanto, não atinou que se tratava de uma emboscada, e, na saída do local, ao projetar sua cabeça para o exterior do recinto, alguém que estava atrás da porta, esperando o momento certo, desferiu-lhe um golpe de facão na altura do pescoço, fazendo tombar para sempre o lendário Melquíades.
Silvino Gomes da Silva, seu amigo mais chegado, diria depois: Um “cabrinha” de nada foi quem matou o Melquíades.
Sebastião José Santana – o que tinha sido esfaqueado –, por possuir coragem e bravura semelhantes ao pai, foi chamado de “Sebastião Melquíades”. Trabalhou nos anos 50 como vaqueiro do Sr. Antonio Azevedo, então gerente das Lojas “A Pernambucana”, em sua fazenda que ficava no povoado Pau Ferrado, entre Boa Vista e Passagem Rasa. Casou-se com Maria de Lourdes Gomes Mota, que era descendente de índios guajajaras da Cachoeira. Desse enlace, nasceram-lhes seis filhos. A primogênita chamava-se Isabel Mota Santana, que em 1948 casou-se com José Augusto Castro. Fruto desse enlace, nasceu José Mota Castro, meu pai.
*Kissian de Castro é escritor e poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB9fev2012)
Crônica
A arte como mercadoria
jornal Turma da Barra
*Kissyan Castro
O artista é aquele ser que descobre que as coisas não são apenas o que aparentam; é aquele que, com sua sensibilidade inerente, consegue captar o instante de nudez das coisas; é aquele que entende o idioma da mudez, o que ouve vozes e delas se aproxima, no dizer de Rilke, como o primeiro homem, e então passa a dizer o que “vê, e vivencia, e ama, e perde”; é aquele que, através de um processo alquímico, metamórfico, consegue iluminar o lugar-comum, a linguagem chula, os episódios banais do dia a dia, de modo a nos comover, nos tocar ainda. Enfim, é no artista que a própria dor se transfigura e vira beleza estética.
Isso quer dizer que, para o artista, a natureza não tem sentido, somos nós que lhe atribuímos significados diversos através das linguagens. A expressão das coisas, por si só, não é arte, apenas faz parte do processo. Logo, a arte implica elaboração consciente. Nesse aspecto, podemos afirmar que nem todos são capazes de realizar uma obra artística.
No entanto, na sociedade capitalista e consumista em que vivemos, o que temos observado é que tudo tende a se transformar em mercadoria. O que chamam de “arte de massa”, na verdade é a banalização dela. Ela a vulgarizou e continua abrindo portas para uma enxurrada incontida de indivíduos desprovidos de genuíno talento. Pois na massificação, o que a “arte” ganha em motricidade, perde em encanto, em magia. A condição mercantil da arte levanta sérias dúvidas sobre seu caráter geracional. Tal condição tem se tornado um estorvo para as autênticas criações artísticas, que precisam de uma força descomunal que as transcendam, de forma que possam atingir os paladares ainda não contaminados por essa anti-arte. Outro extremo é a elitização da arte, que, por se recusar a absorver aquilo que lhes parece adverso, condena muitos artistas ao ostracismo permanente. Pois se nega a ser porosa como a “arte de massa”, que de arte mesmo nada possui.
O pior de tudo é que a massificação da arte, com sua ladainha ensurdecedora, ao desvirtuar a arte, tende a moldar a opinião pública, os gostos das pessoas, acentuando o caráter niilista de nossa geração. Hoje, por exemplo, essa multidão inumerável que se aglomera para ver um cantor famoso, pulando e gritando, parece coisa primitiva, porque a música que está sendo tocada não está sendo ouvida. É só histeria e delírio. É uma forma da mocidade se enganar. A nossa existência precisa ser enriquecida com a poesia, com o romance, com o teatro, com a música e outras manifestações artísticas, que dão o que a realidade não dá.
Cria-se arte porque a vida não basta, porque a vida é pouca. Ainda que a sede de lucro – que é a mola propulsora dessa banalização da arte – enseje e até justifique a concepção artística, não será capaz de obliterar a verdadeira Arte, que procura criar um mundo permanente, um mundo da fantasia, que passa a viver fora do artista e sobrevive a ele. E só porque é intangível é eterno.
*Kissian de Castro é escritor e poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB12jan2012)
Crônica
Lições de uma árvore
jornal Turma da Barra
*Kisyan Castro
Chego do trabalho cansadíssimo. Minha esposa com água na boca aponta uma manga rosa brilhando no quintal do vizinho. Queria porque queria. Coisas de mulher grávida. Recusar a qualquer desses desejos seria pôr em risco a integridade do embrião.
Porque quem deseja – como querem se escusar – não são elas, mas o embrião. O pior de tudo é que tinha que ser exatamente aquela manga, só servia se fosse aquela. Enfim, para que o bebê não nascesse com a “boca aberta” (coisa inevitável, a menos que ele nasça desprovido de tal órgão), nem com “cara de manga”, acabei por aceitar a empreitada.
Eu não tinha trato algum com aquele sujeito – o vizinho. No máximo um “Oi!”, um “Bom dia!”, nada além. Cara muito austero, impenetrável. Meio lá meio cá, bato à porta da casa alheia. Alguém aparece (ainda bem que não é o “dito cujo”) e, após alguma cerimônia, abre a porta e me leva até a tal mangueira.
Diante daquela monstruosa árvore foi que me dei conta do terrível erro que cometi ao entrar ali. Não pelo fato de ter entrado na casa, mas por achar que ainda estivesse suficientemente em forma para subir naquela árvore. Esqueci que não era mais aquele garoto magrinho que vivia roubando frutas nos quintais alheios. Olhei para cima, manga. Para o chão, manga. Pensei: e se eu levar algumas das que estão no chão? Não, pois ela com certeza notaria a tal manga ainda no mesmíssimo lugar. Não havia pedras nem qualquer outro instrumento que pudesse ser usado para derrubar a “manga do desejo”. Além disso, encontrá-la naquele mar de mangas seria outro desafio.
Enquanto pensava num desfecho menos trágico para aquele impasse, tirei algumas lições daquela árvore. Sim, as árvores possuem caráter didático.
Primeiro: nunca olhe para a copa de uma árvore se você não for capaz de subi-la.
Segundo: se conseguir subir, não colha apenas a fruta mais bonita, a mais reluzente ou a mais apetitosa, pois isso poderia revelar traços marcantes de sua personalidade, como egoísmo e visão unilateral das coisas. Estes ouvem apenas o que querem ouvir, não estão abertos a mudanças, quando se fazem necessárias. Escolhem a melhor parte e deixam o resto para os outros. São bitolados, raquíticos, sectários.
Terceiro: neste grupo estão aqueles que não têm paciência de procurar as frutas prontas para colher. Eles agarram o caule da árvore e sacodem repetidamente o mais que podem, fazendo com que caiam não só as frutas prontas, mas também as imaturas, as podres, os galhos secos e as folhas secas. Estes não querem nada com nada. Não pensam por si mesmos. Vão à escola só pra conversar. Não aprendem e ainda atrapalham quem de fato quer aprender. São os que nos trabalhos escolares amam os “quimos” já bem mastigados da internet, os textos condensados; que não querem ter o trabalho nem de colar o conteúdo do site pesquisado num arquivo à parte, para fazer adaptações e parecer original. Imprimem dali mesmo, com endereço eletrônico no pé da página e tudo, e, ainda por cima, hasteiam sua “bandeira da mediocridade”, achando que estão aprendendo alguma coisa.
Quarto: neste grupo encontram-se aqueles que não se dão ao trabalho sequer de subir na árvore. Satisfazem-se em apanhar as frutas caídas no chão, geralmente machucadas e murchas. São os que não se dão ao trabalho nem de ir à escola, às reuniões e encontros sociais. São os que querem tudo na boca. Esperam que algum parente ou conhecido volte de tais aulas ou encontros e lhes relatem como tudo aconteceu. Se foi ruim, esnobam: - “Eu não te falei que era só besteira? Não perdi nada!” E assim vão se alienando, aprendendo tudo de segunda mão, ao invés de participarem ativamente, de meterem a mão na massa, de transformarem seu “vale árido” da rotina em mananciais de novidades.
Há ainda um quinto e último grupo. São as “cabeças eminentes”, como diria Schopenhauer. São os que decididamente sobem na árvore, e apanham o maior número de frutas prontas que puder encontrar. As que não conseguir, sacode com cuidado os seus galhos, de modo a não se machucarem tanto na queda. Em seguida, desce e separa do chão todas as frutas aproveitáveis, tendo o cuidado de procurar debaixo de cada galho seco, de cada moita, dentro de cada loca, a ver se porventura não tenha alguma por ali se esgueirado. E só então dá por encerrado o seu trabalho e volta para casa. Assim são aqueles que não se satisfazem em apenas aprender o que lhes é ensinado na escola, continuam estudando quando voltam para casa. Não se satisfazem com o que lêem num livro ou revista, nem com o que vêem no noticiário. Querem mais. São vorazes. Querem saber o outro lado da história. Não querem ser informados sobre determinado assunto,querem ser peritos. São pensadores autênticos. Não se julgam superiores, pois a consciência de que “nada sabem” os faz buscar a sabedoria como o mais estimável de todos os tesouros.
Enfim, cá estou eu ao pé da árvore, ou melhor, da página. E não sei em qual desses grupos me enquadro. Se colho só a fruta mais bonita, vão achar que de tudo eu só quero o que for melhor pra mim. Se subo e balanço o pé inteiro – da árvore –, não quero nada com nada. Se não me dou ao trabalho sequer de subir e acabo colhendo as do chão, sou preguiçoso e escoro nos outros. Se eu voltar pra casa sem a manga vão dizer que o bebê vai nascer de boca aberta ou com cara de manga.
Mas eu estou de boca aberta agora. E a manga é minha fruta preferida.
*Kissian de Castro é escritor e poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB8dez2011)
Crônica
“Canta mais alto, ó Patativa!”
jornal Turma da Barra
*Kisyan Castro
Estão falando que tudo está sob controle, que o país está indo de vento em popa, e eu vou lendo um soneto de Olimpio Cruz, este nosso aedo de versos encantadores de um romantismo tardio e estética neoclássica.
Estão falando que a inflação está sob controle e que o país está mais preparado hoje para enfrentar a crise internacional do que estava em 2008. E, entrementes, leio este soneto de Olimpio Cruz intitulado “Patativa”:
Alegre patativa, sonorosa,
Ébria de amor, feliz, em voz dolente,
Desfere um canto lesto, evanescente
Aos sorrisos da brisa perfumosa.
Descanta, ó patativa langorosa!
De nada serve a inveja desta gente.
O nosso amor, é amor já diferente,
É doce idílio em tarde cor-de-rosa!
Canta mais alto, ó patativa, canta!
Pouco importa a malícia dos perversos,
Dos que não sabem que amizade encanta...
Canta! Que eu solto uns ais, uns sons dispersos,
Implorando a teus pés, ó minha Santa,
Mais uma inspiração para os meus versos!
Que relação haveria entre esse soneto e o palavrório em torno da imagem do Brasil?
Vejam que coisa, no mínimo, curiosa. Todos se preocupam com a sua própria imagem. Em nosso país a regra é a mesma: Sarney tentando melhorar sua desgastada imagem com a criação de site “recontando” sua trajetória política e literária; é o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, prometendo rechaçar as acusações que macularam sua reputação; é a presidente Dilma Rousseff propondo “enxugar” o Ministério, extinguindo cargos inúteis, além, é claro, de trocar os ministros do Trabalho, da Cultura e das Cidades, na reforma prevista para janeiro. Difícil será conter a sede dos petistas por mais e mais cargos. Mais difícil ainda será “abater” o ministro Carlos Lupi, que foi incisivo em afirmar que só deixa o cargo à bala.
Volto, então, ao soneto de Olimpio Cruz.
Na primeira quadra, o eu-lírico percebe algo estranho em patativa. Sua aparência é agradável, exultante. Sua voz, porém, denuncia certo desconforto que ele desconhece.
Seu canto revela apreensão, nervosismo, chegando mesmo a destoar da paisagem à sua volta. Na segunda quadra, a debilitada patativa é convocada a se harmonizar à paisagem. Ela está deprimida porque se sente difamada e mal-interpretada pela gente invejosa. O eu-lírico tenta confortá-la dizendo para ela não se deixar abater por aquilo que não corresponde à verdade, que o amor que alimentam não é impuro, é amizade “encantadora”. E, no primeiro terceto, propõe uma solução para o problema: cantar, cantar altissonantemente.
Agora eu me pergunto: Por que patativa precisa cantar mais alto? Para abafar as críticas? Para fazer com que acreditem que tudo anda às mil maravilhas? Ou para ela mesma acreditar? Por que é tão difícil cantar quando tudo está contrário a nós?
Quando as folhas perdem seu verdor e caem; quando as flores emurchecem e perdem seu aroma; quando o ribeiro seca e não se ouve mais o barulho da água nem o arrulho das pombas; quando restam apenas areia e pedras secas, cantar é um desafio. Às vezes estamos dentro de uma caverna úmida e escura e preferimos acender um fósforo ao invés de sairmos da caverna, onde o sol nos espera para nos iluminar e fustigar.
Basta abrir um pouco mais os olhos para sair do “País das Maravilhas” e entrar na vida como ela é. Estamos sendo “românticos” demais ao acreditar na imagem “perfeita” do Brasil, conforme apresentada pelo ex-presidente Lula? Ou será que estamos sendo “neoclássicos” demais ao taxar de imperfeito tudo o que ultrapasse as dez sílabas poéticas? O melhor mesmo a fazer do que soltar “uns sons dispersos” é cantar, cantar cada vez mais alto! “Canta mais alto, ó patativa, canta!” Pois, como diz o velho adágio popular, “quem canta os males espanta”.
*Kissian de Castro é escritor e poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB24nov2011)
Crônica
Sonetos e saudades
jornal Turma da Barra
*Kisyan Castro
Nunca fui afeito a saudosismos. Até porque minha pouca idade (31) tornaria a pretensa tendência ao passado no mínimo inviável. Mas de repente, quem diria, me pego pensando em tempos idos. Principalmente depois de uma chuva. Talvez o cheiro de terra molhada ou a umidade do ar evoquem essas lembranças teimosas. Não sei.
Pra completar a dose, recebi de presente, há uns dias atrás, dois livros interessantíssimos de poesia: o “Livro dos Sonetos” e uma cópia de “Canção do Abandono”, também de sonetos em sua maioria. Lançar-me às suas leituras foi como viajar no passado. Recente, é claro. Mais precisamente há uns doze anos atrás. Tempo em que principiei-me na poesia. O primeiro poema que escrevi foi um soneto, daí meu saudosismo ao me debruçar sobre tais livros.
Foi na pequena cidade de Presidente Kennedy, no Tocantins, que vivi meu despertar pela poesia, arriscando os primeiros versos. Nesta cidade, de poucos automóveis e comércios, a maioria das pessoas, desde cedo, são incentivadas – e por que não dizer disciplinadas – à leitura e à escrita. Crianças, com livros em punho, são vistas até fora do horário escolar. Há um gosto pela coisa.
Contagiante. Digo isso por mim. Eu que, até então, nunca tinha lido, fora a Bíblia, nenhum outro livro, lancei-me vorazmente às leituras, numa tentativa de compensar meu retardamento cultural. Li a coleção inteira de Machado de Assis. Li Graciliano Ramos e muitos outros clássicos da literatura brasileira. Em matéria de poesia, li praticamente todos os expoentes das escolas literárias, tudo o que a pequena biblioteca pública podia dispor.
Foi então que conheci pessoalmente um poeta.
Peraí, para mim os poetas só existiam nos livros, e se estavam nos livros é porque já morreram. Até então, para mim, poesia era coisa de defunto. Só me convenci do contrário quando o tal poeta abriu uma pasta repleta de sonetos, escritas do seu próprio punho, e passou a lê-los. “É, faz sentido” – pensei.
Um dia ele chegou pra mim e disse: “Por que você não tenta escrever um poema?” Fiquei pensando nisso por uns dias. Quando senti ter encontrado o momento certo, a cabeça fervilhando em pensamentos, entrei em meu quarto e tranquei a porta. Saí, depois de algumas horas, em direção à casa do poeta, com um soneto em mãos. Não assinei meu nome, por puro receio. Ele sobrevoou aquela página com seus olhos judiciosos e concluiu: “Bom soneto”. \
Daí em diante nunca mais deixei de escrever. Nos tornamos bons amigos. Quero dizer: eu e a Poesia. Eu e o poeta, também. Depois, duas poetisas se juntaram a nós. Nos reuníamos com frequência para declamarmos nossos poemas mais recentes e cantarmos sob o clarão do luar. Noites estas regadas a vinho ou café moca.
O resultado foi que publicamos juntos um livro de poemas, com o patrocínio da Secretaria de Educação de Palmas e o apoio da Prefeitura.
Saí de lá com um punhado de versos e esta chama pela poesia ardendo até agora.
Deixei para trás os meus queridos amigos, companheiros dos meus sonhos juvenis. Há mais de dez anos não os vejo. Quanta saudade! Por isso, é impossível não lembrá-los, sobretudo quando leio algum soneto.
Tomado por sentimentos da mais profunda amizade, e em homenagem a esta forma fixa imorredoura com que iniciei o meu fazer poético, compus ontem este soneto abaixo, com o qual concluo esse relato.
Com ele vos abraço, meus amigos, aonde quer que estejam, a ver se ao menos alivio um pouco esta saudade.
AOS AMIGOS KENNEDENSES
Para Welder, Marly e Rúbia
Lembro-me, amigos, bardos do cerrado,
De quando nos reuníamos nas casas
Uns dos outros, a sós, como quem traz as
Lembranças mais felizes do passado.
Pensávamos o amor ter encontrado.
Nossos versos, assim, criavam asas,
Podiam, quando lidos, como brasas,
Acender o que havia se apagado.
Agora, longe, meu próprio caminho
Refaço nestes versos que acarinho,
Rimando contra o tempo que me aferra.
Aproxima-nos, no entanto, a Poesia,
Esta chama vívida que alumia
E afasta tanta dor de sobre a Terra.
*Kissian de Castro é escritor e poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB12nov2011)
Crônica
Temos rios
O que não temos é água
jornal Turma da Barra
*Kisyan Castro
O dengue nunca será um perigo aqui na Cohab, muito menos na Vila Dantas. Não é que não tenha água parada, é que a água é tão parada que não chega a sair dastorneiras. Não é que nossa comunidade esteja bem informada e em alerta constante, é que quando a água chega por aqui, não dá pra quem quer. E se por acaso chover, o mosquito pode chegar atrasado.
Então, a você que não queira ver a cara do Aedes aegypti, a Cohab, ou mais precisamente a Vila Dantas, seria o lugar mais seguro. No entanto, se por uma grande desventura você chegar a se deparar com algum, não se preocupe, ele estará buscando o mesmo que você – uma aguinha de bobeira. Aí é só uma questão de força. E para isso dispomos de um recurso inviável aos vetores – o telefone. É só ligar para o “Disk Água” e esperar algumas horas. São 1.000 litros por R$ 20,00. Está se tornando um negócio tão lucrativo que é possível encontrar um desses “Disks Água” em quase toda rua que corta estas paragens. Contudo, por causa da demanda, é preciso esperar o camarada abastecer outras residências.
Outro dia li num projeto de pesquisa universitário que a U. I. Maria Emídia Brandes Caldas, situada aqui na Cohab, foi considerada uma “escola modelo” na construção da educação em Barra do Corda, e que se sobressaiu das demais sobretudo pelo excelente desempenho do coordenador pedagógico. Essa escola, onde também funciona o CRAS, tem sido nosso manancial no deserto. Para os moradores, porém, essas estatísticas se arrefecem face à crise da água no bairro.
Grande parte dos moradores da Cohab e da Vila Dantas recebem água de oito em oito dias através de um poço artesiano da prefeitura. Vez por outra, esse intervalo é interrompido. O reservatório que deveria abastecer o bairro não funciona mais. O que funciona lá é um parquinho para as crianças brincarem. Sim, estão brincando com o nosso povo.
Não posso deixar de lembrar-me de um trecho do “Poema Sujo” de Ferreira Gullar, que diz:
“o punho fechado da água dentro dos canos:
é o punho
da vida
fechada dentro da lama”
A falta de água na Cohab é uma indignidade, uma afronta à nossa comunidade e à vida humana. A interrupção de água é a interrupção dos passos necessários rumo a um almejado desenvolvimento. Estamos tão atrasados que ao invés de lutarmos por uma água de qualidade, não-contaminada, lutamos para ter ao menos água suficiente em nossos lares. Que contradição! Moramos numa cidade banhada por dois rios belíssimos e ainda assim sofremos com a falta de água.
Aqui as torneiras não “desandam a jorrar manhã”, como diz outro ponto do “Poema Sujo”. As torneiras daqui jorram apenas sede, por muitas manhãs. Sede de justiça. Já chegou a mais de vinte dias sem água. E quando a água pisa por aqui é por apenas um dia, no máximo dois. Além do mais, há ainda outro problema. Aqueles que moram em casas situadas em terreno mais elevado acabam perdendo esse único dia de água porque ela não sobe até lá, de tão fraca. A salvação é se a água durar mais que um dia, o que dá tempo de quase todos os moradores de baixo encher suas caixas e fecharem as torneiras para que então a água possa beneficiar também os de cima.
Uma pequena parcela da Vila Dantas ainda recebe água pela CAEMA, mas os moradores não vêm recebendo a fatura faz um bom tempo, e a água vai ficando de graça, por assim dizer. De graça, não. A água é que não vem dar o ar de sua graça. E isso não tem graça nenhuma. Seria bem melhor voltarmos a pagar esses talões e recebermos água em dias alternados como era antes. Pois que vantagem há em pagar R$ 20,00 por 1.000 litros de água, se não dá nem pra uma semana? Se chega a faltar água por mais de vinte dias, e quando chega não dura mais que dois dias, quanto não se gastará por mês?
Na segunda-feira, dia 10, o antigo escritório regional da CAEMA, à rua Isaac Martins, foi reaberto. O novo gerente confessa desconhecer que uma parte da Vila Dantas não tenha sido capeada. Agora, se de repente formos surpreendidos com a chegada de faturas atrasadas, como aconteceu um tempo atrás, nós, os moradores, com o mesmo direito, iremos requerer as águas atrasadas.
O gerente da CAEMA também deixou claro que não veio à Barra do Corda pra passear, e sim pra resolver esse “pepino”. Esperamos mesmo que sim. Pois os problemas com a falta de manutenção da adutora que passa pelo Sítio dos Ingleses, a ETA, é um caso sério. Que geringonça falta para que a água flua com a mesma regularidade e o mesmo poder em todos os lares cordinos?
A CAEMA garantiu que está esperando chegar de São Luís uma polia que vai mudar a “história da água” em nossa cidade. Não seria mais apropriado chamar “estória”?
Enfim, enquanto a tal “polia milagrosa” não chega, nossos bolsos vão sangrando.
Nossas caixas d’água estão vazias e o que a CAEMA está enchendo até agora é a paciência do nosso povo.
*Kissian de Castro é escritor e poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB13out2011)
Crônica
“O perigo mora ao lado”
jornal Turma da Barra
*Kisyan Castro
Parece o título de um filme de suspense. Sim, é. Tomei emprestado do longa inspirado nas obras de Alfred Hitchcock, que narra as suspeitas de uma jovem convencida que o seu vizinho é um perigoso assassino. Ao assim fazê-lo, não pensei em o quanto tal trama estaria descontextualizada de nossa realidade ou o quanto se misturara a ela.
Pra se ter uma idéia, há uns dias atrás um incidente inusitado ocorreu aqui nos arredores da COHAB. Uma viatura estacionou a certa distância e dois policiais desceram e entraram na casa defronte à minha, dando voz de prisão ao morador, acusado, segundo consta, de roubo, tráfico de drogas, porte ilegal de armas e homicídio doloso. Toda a vizinhança assistia, estupefata, a esse flagrante inesperado.
Dois casais dividiam o pequeno espaço naquela humilde casa de taipas. Um deles foi preso, o outro conseguiu escapar. Ninguém aqui poderia imaginar que aqueles dois paupérrimos pudessem estar envolvidos com coisa grande, e que aquela vidinha não passava de fachada. Nada denunciava serem criminosos. Viviam como qualquer outro morador, batendo papo, rindo, dando palmada nos ombros dos amigos de cerveja, saudando-nos, vez por outra, com um “Bom dia!”.
Naquela insuspeitada casa os policiais encontraram drogas ilícitas, um fuzil e dois revólveres calibre 38 enterrados debaixo da cama. Na pressa o bandido ainda tentou se desfazer de documentos importantes atirando-os dentro da privada. Mas os policiais o fizeram apanhar em meio às fezes. Os documentos eram de duas pessoas que eles haviam assassinado para roubar suas motocicletas. Sendo que uma delas eles já haviam vendido, a outra foi apreendida pelos policiais.
Quem poderia imaginar que aqui na COHAB, nessa meia rua pacata e sem asfalto, pudesse acontecer isto: que estivéssemos morando entre criminosos! Aqui, onde crianças brincam tranquilas, sem risco de atropelamento, e os cães ladram com a chegada do carteiro; onde ainda existem casas separadas por cercados de madeira improvisados, pra facilitar as conversas no quintal e as trocas de favores; onde à tardinha os vizinhos se reúnem em grupinhos pra falar da vida alheia. “Vamos tesourar” – grita uma moradora em frente, sem constrangimento. Tudo isso e mesmo assim ninguém se dava conta de que “o perigo estava ao lado” e que o melhor do papo passava batido. Nem mesmo o desbocado vendedor de sucos, que sabe o endereço de todos os ladrões de galinha da redondeza, conseguiu notar qualquer atitude suspeita no dia a dia daqueles meliantes.
Aqui cabe a pergunta: De quem podemos, seguramente, afirmar “Eu o conheço”? E não precisa ser necessariamente o nosso vizinho. Pode-se aplicar também àqueles de quem nunca esperaríamos o pior. Já disseram que só quando a sós somos quem realmente somos. Se isso for verdade então a digital no RG, o arremedo no espelho, ainda não somos nós. Sob os lábios da mulher amada, com quem convivemos por anos, continuamos intocáveis. E sob a palmada nos ombros e o “bom dia”, que ouvimos do vizinho quase toda manhã, nem se fala.
À noite, como diz o ditado, todos os gatos são pardos. Dificilmente conseguiremos distingui-los por suas cores. Em contrapartida, nos vêm à memória a imagem de certas aves que quando jovens apresentam plumagem parda, que pouco a pouco vai sendo substituída por outra cada vez mais escura. De dia todos os atos são dóceis. À noite, fora dos olhares judiciosos, no silêncio do quarto, entre as paredes do mais íntimo pensamento, no mais recôndito do ser, quem somos de fato? A noite faz surgir os elementos que estavam atrás dos olhos e os gestos são o desabafo. Por trás da plumagem, somos quem achamos que somos? Nossos atos são passíveis de repreensão? O que pensam de nós corresponde à realidade?
A propósito, no tempo dos imperadores romanos, quando se encomendava aos artífices uma escultura de seus representantes políticos, filósofos ou artistas, diziam logo: “sin cera” (“sem cera”). Isso porque muitas vezes, distraidamente, o escultor desferia um golpe muito forte sobre o formão a ponto de arrancar um talho desproporcional. E para não pôr tudo a perder, o artífice tapava a cavidade com cera, reconstituindo a parte danificada de modo a parecer íntegra, perfeita. Só que algum tempo depois, exposta às intempéries, a cera se desprendia, revelando suas deformidades. Eis a razão de exigirem a escultura “sin cera” (“sem cera”). Dessa expressão latina nasceu nossa palavra “sinceridade”, ser o que se é de fato, ser autêntico, sem maquiagens.
Pode-se até tapar as fissuras de um caráter para se convencer intimamente que não há nada de errado, ou para ganhar a confiança de alguns, enganá-los, tirar-lhes o melhor da vida. Nesse caso, o perigo maior não estará ao lado, em nossa vizinhança, mas dentro de nós.
*Kissian de Castro é escritor e poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB29set2011)
Crônica
“Nunca fuja do Leão”
jornal Turma da Barra
*Kisyan Castro
No tempo em que se costumava testar a ferro e fogo a competência daqueles que aspiravam ao governo – e, portanto, muito antes do surgimento da democracia, da urna eletrônica e do nepotismo – houve um sábio e idoso rei que vendo se aproximar o dia de sua morte chamou o seu filho e lhe declarou:
- Meu filho, a minha hora se aproxima. E tenho de ter certeza que estás preparado para assumir o trono em meu lugar. É tradição entre os nossos ancestrais que aquele que suceder ao rei precisa passar por uma prova.
- Que prova é essa, meu pai? – atalhou o filho, entre surpreso e assustado.
- Tu terás de enfrentar um leão. Amanhã mesmo tu entrarás na jaula e eu fecharei o cadeado por fora.
O rei então virou as costas e dirigiu-se ao seu aposento.
O filho nem conseguiu pregar o olho possesso como estava de tanto medo. Antes de o sol nascer, selou o seu cavalo e foi embora sem rumo algum.
Cavalgou por horas, dias até. Quando parou pra descansar, achou ter ouvido gritos por perto. Foi até lá. Era uma garota indefesa sendo agredida por dois marmanjos. Num rasgo de pura coragem, enfrentou os malfeitores e salvou a garota. Ela confessou ser uma princesa e, como gesto de gratidão, pediu a ele que a acompanhasse até o castelo onde receberia de seu pai, o rei, as honras devidas a um bravo guerreiro. Ele assentiu. Chegando à corte, foi recebido com festa. No banquete, o rei pôs-se de pé e, erguendo o cálice, disse-lhe:
- Por não se preocupar com a própria segurança ao socorrer uma desconhecida; por doar-se a si mesmo sem saber que estava salvando a filha de um rei é que te dou agora o privilégio de pedir o que quiser como recompensa pelo seu ato de bravura, até mesmo a metade do meu reino.
- Majestade, só uma coisa peço de todas as maravilhas que meus olhos podem almejar. Peço a mão de sua filha em casamento.
Entre engasgos e goles de vinho o rei assentiu. Não sem antes declarar:
- É tradição entre os nossos ancestrais que aquele que tomar a mão de uma princesa em casamento precisa antes passar por uma prova. E como já temos conhecimento de sua força e coragem, tenho certeza que se sairá bem.
- Que prova é essa, majestade?
- Tu terás de enfrentar um leão. Amanhã mesmo tu entrarás na jaula e eu fecharei o cadeado por fora.
O rei então virou as costas e dirigiu-se ao seu aposento.
Antes de o sol nascer, o “bravo guerreiro” selou seu cavalo e foi embora sem se despedir.
Cavalgou por horas, dias até.
Era noite quando chegou numa cidade para pedir guarida.
Havia muitas pessoas sobre as muralhas, estavam assustadas. Os portões se abriram para lhe dar passagem. Alguma coisa estava acontecendo ali e ele não conseguia entender. Ouviam-se gritos te terror e gente correndo pra lá e pra cá.
- O que está acontecendo? – indagou atônito.
- Ah, tu não sabes! A cidade está sendo invadida por ferozes leões e a população está sendo dizimada. Escapa-te por tua vida.
Sentindo-se completamente vencido, tomou sua cavalgadura e voltou ao palácio e ao trono onde seu pai o aguardava saudoso.
- Pai, tive medo por isso fui embora. Cansei de fugir ao meu destino. Agora estou pronto para enfrentar o leão.
O rei então tomou seu filho pela mão e conduziu-o até a jaula onde estava o leão. Ele entrou e seu pai fechou o cadeado por fora. O leão rugia enquanto ia se aproximando dele. Os dentes enormes e amarelecidos. Talvez devido a tanta carne humana que havia dilacerado, pensou. Um golpe daquela enorme pata e não lhe sobraria muita coisa do corpo pra contar história. Mas já estava lá, não podia voltar atrás.
De súbito o leão arremeteu-se sobre ele, as unhas em riste, num bote fatal.
O que aconteceu, porém, foi que ele caiu a seus pés e passou a lambê-los.
Voltando-se perplexo para o exterior da jaula viu um sorriso estampado no rosto de seu pai.
- O leão é manso, meu filho. Eu jamais poria em risco a sua vida. Só queria te mostrar que para governar um país é preciso antes de tudo coragem e determinação. Agora vejo que estás pronto.
A seu tempo ele assumiu o reino em lugar de seu pai, e a primeira medida que tomou foi mandar que gravassem, no espaldar de seu trono, com letras de ouro, a seguinte inscrição, que influenciaria não só o seu governo como também as gerações por vir: “NUNCA FUJA DO LEÃO”.
Assim como essa estória nós também temos nossos “leões” a enfrentar, seja como indivíduos ou sociedade. Alguns muito ferozes, outros nem tanto. São desafios diários, problemas que requerem nossa atenção.
Ao menos duas lições podemos extrair da narrativa acima: Primeiro, fugir de um problema não o resolve. Cedo ou tarde nos depararemos com a mesma situação desafiadora. Aonde estivermos lá estará também ele, rugindo e com as unhas em riste. Segundo, ao enfrentá-los constatamos que nossos problemas são menores do que imaginávamos. Nossos temores se esvaem dando lugar a um sentimento de realização pessoal, de plenitude. Descobrimos, estupefatos, que o leão de quem tanto fugíamos não passa de um animalzinho dócil, tão assustado quanto nós.
*Kissian de Castro é escritor e poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB15set2011)
Crônica
Outra vez a poesia
jornal Turma da Barra
*Kisyan Castro
Se tem uma coisa que me deixa pê da vida é ter de fazer a mesma coisa duas vezes. É esmagador pra mim. Não podemos, porém, escapar a isso. Tudo caminha para a rotina, essa camada cinzenta e fria que o tempo vai sedimentando, tornando tudo indiferente à nossa sensibilidade.
Porque andamos por entre coisas e elas nada nos comunicam, não nos surpreendem mais com seu teor de novidade, não evocam nada além de seus próprios nomes, não se impõem mais. O som do rio é o som do rio. O borbulhar da correnteza, também. Andamos entre lojas, bares e mercados todos os dias.
Ouvimos o choro de uma criança, o latido de um cão, cruzamos ruas, semáforos, sob o calor de tardes fumacentas. O celular que toca, troca de palavras ríspidas ou o estalido úmido de um beijo no aconchego da família, o boato de morte num ponto qualquer da cidade. Tudo isso pode com o tempo esvair-se no esquecimento como poeira.
No entanto, é consolador saber que mesmo a poeira do esquecimento pode, de repente, fazer alguém espirrar, pode arder nos olhos do poeta e alterar a ordem de seu mundo. E isso faz toda a diferença, uma vez que o que nos é indiferente agora pode a qualquer momento se revelar, quem sabe emitir sua lufada na face do poeta, vociferar contra elementos que querem a tudo arrebatar e arrastar para o lugar-comum, onde pau é pau e pedra é pedra.
E esse instante absoluto de nudez e vertigem, e essa novidade é que é de fato a poesia. Por isso que eu falo que poesia não é o reflexo das coisas, ela está detrás das coisas, sob o azinhavre da rotina. Os poetas não revelamos o corpo inteiro, apenas o que nos semeia. Porque as palavras, que nomeiam as coisas, assim como o dinheiro, gastam-se e perdem seu valor. Daí a necessidade da alquimia poética para atear fogo às palavras, devolver seu mistério, criando ambiguidades sem as quais não há poesia. Cabe ao poeta recuperar o sentido primeiro das palavras, assim como ao crítico a iluminação dos territórios fundados pela poesia. Eis o débito que a Língua Portuguesa (em particular) tem para com o poeta: ele não deixa a Língua morrer. Esse recuperador de mitos, esse celebrador de antigos episódios, guardião da caixa de absurdos e tensões.
A palavra do poeta precisa atingir o leitor, seja pela surpresa, pela articulação estratégica de palavras, o sortilégio, o impacto inesperado de uma imagem. Porém, se não for capaz de tanger a corda íntima do leitor, não importa quão sábio e arguto seja o poeta na elaboração de seus versos, sem emoção não há poesia.
A propósito, voltando à rotineira questão da rotina, o termo “verso” vem do latim (versus) e significa “voltado”. Isto é, voltar e tornar a realizar o mesmo processo. Originalmente, esse vocábulo era usado para descrever o movimento do arado, que, chegando ao fim do terreno demarcado para semeadura, devia voltar em sentido contrário e abrir na terra um sulco paralelo ao primeiro. Em Literatura, emprega-se o termo como metáfora relacionada à contagem silábica. Quando se atinge certo número de sílabas, passa-se à linha seguinte, voltando (versus) a contagem silábica ao ponto de partida. Resumindo, poesia também é rotina.
Chego à conclusão que rotina é uma questão de retina e que poesia é voltar ainda em outro sentido. Precisamos voltar às coisas com outros olhos, tentar apanhar o que ficou pra trás. É como se tivéssemos subido numa árvore, sacudido todos os galhos, descido e apanhado apenas as frutas que estivessem à vista. Esquecemos de procurar atrás das moitas, nas locas, embaixo dos galhos secos.
Voltamos para casa sem levar o melhor da árvore. Precisamos voltar pelo mesmo caminho. Dessa vez, desatando os cadarços dos sapatos, sentindo, descalços, insuspeitáveis elos nessa troca de umidade ou de aridez. Quem sabe lateje um punhado de pó e a poesia nos incendeie os olhos, nos lambuze, nos embriague.
*Kissian de Castro é escritor e poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB1set2011)
Crônica
Crônica da Poesia
jornal Turma da Barra
*Kisyan Castro
Ninguém lê poesia para estar a par dos últimos lançamentos da moda ou pelos métodos eficazes de emagrecimento que ela possua, caso contrário a fila de pretendentes às portas de um poeta seria maior que a fila do bolsa-família, os livros de poesia seriam constantemente esgotados e não ficaríamos surpresos se no verso das carteiras de cigarro encontrássemos esta curiosa inscrição: “o ministério da saúde adverte: leia um poema.”
A poesia ocuparia então a principal manchete dos jornais e lê-la não seria considerado uma perda de tempo e o poeta não seria visto como uma figura esquisita a perambular na contramão de uma sociedade altamente sofisticada e tecnológica.
A poesia, no entanto, não obedece a padrões nem está alienada ao tempo. Ela teima e prefere andar com seus próprios pés, fundando e trilhando seus próprios caminhos, deixando suas pegadas levemente impressas no lastro da alma.
É evidente que a vida muda, a sociedade se transforma e que a crítica literária, que antes servia para colocar em evidência novos escritores e poetas, fora raras exceções, já não existe mais. Mas na medida em que a poesia tenha alguma coisa que se comunique com as pessoas, que lhes acrescente algo, ela vai sobreviver.
A poesia faz e acontece. A verdadeira poesia é que escreve os seus poetas e não o contrário. No poema o poeta não comunica palavras, notícias, comunica o próprio ser. A poesia não quer ser literatura, quer ser carne, quer sangrar conosco. O poeta, mais que autor, é personagem. É como disse Whitman: “Isto não é um livro, quem toca nele toca num homem.”
É claro que poesia não enfrenta fila de Banco, não cura dor de dente nem desintegra um átomo, mesmo porque a única função da poesia é comover as pessoas, ao desvelar o pulsar das coisas por trás do azinhavre que a rotina vai depositando, fazendo com que todas as coisas e seres percam sua vivacidade, seu latejo, enfim, seu impacto enquanto novidade. Ela lida com o lado cruento da vida, com o revés da fala, com o revés do ser, com o amor, com a morte, com a perda. E isso não há computador no mundo que resolva. A palavra do poeta possui o raro poder de reintegrar os destroços da existência e transformar em beleza até a dor mais profunda. Embora não se faça poesia para fugir da realidade, acabamos por aceitar seu abrigo, seu colo, seu beijo. Claro está que sob as hostilidades do cotidiano é possível criar obras, textos, mundos novos que passam a viver apesar de qualquer dificuldade.
Quanto mais consumista, quanto mais materialista e antipoética se torna a sociedade, mais necessária é a poesia. Talvez esse fato explique de certa forma o crescimento vertiginoso do número de poetas nos últimos anos. Os caras passam o tempo escrevendo dezenas de poemas que ninguém jamais irá ler e mesmo assim continuam. A poesia é, de fato, uma fatalidade do espírito humano.
Portanto, se me perguntarem qual seria o papel da poesia numa sociedade cada vez mais informatizada e globalizada, eu responderia, sem mais delongas, que não há papel que segure a poesia.
*Kissyan de Castro é poeta, mora em Barra do Corda (MA)(TB11agol2011)