Artigo
Anjos ou demônios
jornal Turma da Barra

*Fábio Mota


            Aqui estou eu novamente com questões existenciais. Espero dessa vez não decepcionar muita gente. Falaremos dos casos ocultos cometidos pelas Igrejas. Calma, sei que refletir sobre esses assuntos talvez não seja tão glamuroso. Mas só para se ter uma idéia, cito um exemplo: os casos de abuso sexual cometidos pela Igreja Católica estão subindo na Alemanha. Está lá, li na sexta-feira passada, na revista alemã Der Spiegel( O espelho ).
            Pois é, no dia 26 do mês passado na revista alemã chamada Der Spiegel: Padre se demite por denúncias de abuso sexual de crianças. O padre alemão Maurus Krass, da abadia beneditina e diretor da escola monacal de Ettal, no sul da Alemanha, demitiu-se de suas funções nesta sexta-feira por ter omitido acusações de abuso sexual contra crianças em 2003 e 2005, informou um comunicado do arcebispo.
            E olha que a demissão de Krass é  a segunda em apenas três dias. Na quarta( 24 ) o padre Barnabas Bögle também apresentou demissão pelos mesmos motivos.
            Peço que continue. Depois você pode contra-argumentar, certo? Digo isso por que sei, sempre que sou sincero também sou enxovalhado por críticas. Mas dessa vez não estou sozinho. Tenho ao meu lado as crianças que tiveram suas vidas destruídas por esses monstros cheios de boas intenções.
            Espera aí, parece que estou indo rápido demais. Vou falar mais um pouquinho do acontecido. Bom, em meio aos escândalos, os arcebispos alemães têm transmitido uma imagem de confusão e impotência. Uns se dizem “chocados e preocupados”, enquanto outros, como o arcebispo de Augsburg, Walter Mixa, atribuem parte da culpa pelos abusos a “chamada revolução sexual”. É sério, juro que foi isso mesmo que li na matéria. Também existem novos casos suspeitos, eles indicam que esse é um fenômeno aparentemente generalizado em todo o mundo católico.
            Uma das instituições católicas nas quais supostamente ocorreram abusos de crianças é a Casa Franz Sales, uma instalação para pessoas portadoras de deficiências na cidade de Essen, no oeste da Alemanha. É uma instituição que recentemente comemorou seu 125° aniversário.
            “Nós éramos trancados no Sótão” descreve Rolf-Michael Decker, o ocorrido com ele quando tinha 14 anos de idade. “Nós às vezes éramos trancados em quartos, no sótão, por exemplo, após tentativas de fuga”.
            Até agora só falamos da católica, mas sabemos que esse fenômeno faz parte de outros mundos, além do católico. Em 2007, Maringá (PR) uma menina desapareceu enquanto os pais participavam de um encontro da igreja Assembléia de Deus, num sábado. A garota foi encontrada morta na manhã de domingo. O Instituto de Medicina Legal (IML) apontou que a criança "foi vítima de estupro, atentado violento ao pudor, teve fraturas no ombro esquerdo, esmagamento torácico e fratura na coluna cervical". Em nota oficial, a Assembléia de Deus se disse "consternada e solidária à família vítima de uma ação violenta e insana" e reiterou a "solidariedade à família".
            Ainda em 2007, nos Estados Unidos, o pastor de uma igreja cristã missionária, chamado Carlock, foi indiciado por pedofilia. Sob o pseudônimo de "Klutzo, o Palhaço", ele e sua mulher "Smilee" animavam festas de aniversário de crianças em hospitais e em outras instituições. Certa vez, quando voltava aos Estados Unidos, os agentes da alfândega descobriram por acaso que sua máquina fotográfica digital e seu laptop estavam repletos de fotografias pornográficas de crianças do orfanato.
            E um músico brasileiro da Igreja Batista da Lagoinha, que tem sua sede em Belo Horizonte, foi preso nos Estados Unidos, suspeito de molestar sexualmente quatro crianças. De acordo com a polícia americana, um menino de 11 anos de idade disse que Fernandes (o suspeito ) agarrou suas nádegas e ameaçou molestá-lo no banheiro durante o culto do domingo.
            Reflitamos um pouco, então. Já  pensou no número de casos que não são descobertos ou ao menos denunciados? Os casos que ficam entre quatro paredes? Quantas crianças têm suas vidas arrancadas e jogadas no lixo pelos demônios que deveriam fazer o papel de anjos?
            E então, quem é que não fica indignado com barbaridades como essas? Praticadas por defensores crédulos num céu de ternura e amor. Será que esses anjos não estão agindo como demônios? Dar o que pensar, não?

*Fábio Roberto Soares Mota, 26 anos, é estudante de Matemática da Univima, mora em Barra do Corda.

(TB
3mar2010/nº17)

 

 

Artigo
Diários de bicicleta
jornal Turma da Barra

*Fábio Mota


            Nessa semana resolvi adquirir o livro Diários de Bicicleta. Isso aconteceu depois que li um bom resumo do mesmo, o livro me pareceu fascinante. O autor é David Byrne, um compositor e produtor americano. No resumo achei umas coisas interessantes, semelhantes com a minha vida diária aqui na cidade cordina, por isso não pude resistir e então o comprei. Agora, neste exato momento, escrevo meu diário de bicicleta.
            O livro conta, numa conversa com o leitor, os pensamentos que passam pela mente do autor enquanto ele anda por aí mundo à fora. Em Buenos Aires, Sidney, B
erlim ou Istambul.
            Eu que também vivo pedalando, mas sem sair da cidade, logo me identifiquei com a obra. Mesmo sem ir muito longe, concordo quando ele fala que de cima de uma bicicleta temos uma outra visão. Que as perspectivas nos são um tanto diferentes. Isso mesmo, atrás do guidão existe uma outra visão de mundo. O pedestre não vai a lugar algum, o motorista passa rápido demais pelos lugares; já o ciclista se relaciona com os locais por onde passa.
            Sempre andei de bicicleta. Dei uma pausa, mas já estou de volta. Todos os dias passo pelos bairros Cerâmicos, Tresidela e, às vezes, vou até o Centro. É o percurso que faço para ir ao trabalho e depois voltar.
            Assim como o autor do livro, percebo que de bicicleta é possível ver um outro impacto, talvez mais verdadeiro, que as coisas causam na gente. O motorista não ver, como o ciclista, as áreas mais pobres e não urbanizadas à cerca da cidade. Se passar por algum buraco, evidentemente, a pancada será outra.
            De cima da bike, temos outros olhos para com as pessoas. Diria que é uma visão mais humana, diferente daquele olhar de alguém motorizado e mais “poderoso”. Às vezes, em certos casos, os motoristas chegam a demonstrar certa saudade do encanto de pedalar. Solta um sorriso e vai embora, sem sequer trocar uma palavra. Mas deixa a boa sensação de que nos conhecemos de verdade.
            Noutros casos, os olhos dos motoristas parecem querer explodir. O estresse, a irritação traduz suas indignações, como se quisessem dizer: “O que esse idiota faz na minha frente”. Ou então: “Quem ele pensa que é para ter o direito de estar na minha frente”.
            Muitos motoristas não conseguem reconhecer o ciclista como um indivíduo igual a ele. Para eles, o ciclista faz parte de uma outra classe, uma classe inferior. 
            Aqui na Barra, quase completamente tomada por carros e motos, pedalar em lugares como o centro da cidade não é coisa fácil. Nos outros bairros o movimento é menor, por isso é melhor para quem anda de bicicleta, mas a desprezo dos motoristas é o mesmo.
            Também cabe ressaltar que andar com esse veículo sem motor não é mais bem aceito pela sociedade. Se você não tem ao menos uma moto, pode ser que não valha muita coisa. Vai ver isso seja,talvez, resultado da nossa
evolução, não?
            Bom, é isso. Esses diários trazem umas coisas bem legais. A bicicleta nos mostra atitudes mais humanas. Percebemos que nosso comportamento depende de como nos vemos, principalmente socialmente.
            Termino o diário com uma pergunta para você motorizado: quando estás no teu veículo, o que tu vês em alguém de bicicleta?

*Fábio Roberto Soares Mota, 26 anos, é estudante de Matemática da Univima, mora em Barra do Corda.

(TB18fev2010/nº16)

 

 

Artigo
No período carnavalesco
jornal Turma da Barra

*Fábio Mota

          Este escrito é dedicado a um grande amigo que, carinhosamente, pediu-me para escrever sobre o carnaval da Barra, o melhor carnaval do interior do Maranhão, definição que concordo, ainda que de uma outra forma de ver. Não sei se sou a pessoa mais adequada para falar sobre esse assunto, pois aproveito esse período para ler um livro, ainda assim digo que pedido de amigo deve ser respeitado, então vamos falar sobre o carnaval cordino. 
         O carnaval da Barra, não esqueça que essa é apenas minha visão, é um evento para os outros. Para as empresas, vendedores de cerveja, políticos... e não para as pessoas que vão à festa. O povo, de forma geral, se comporta como atores coadjuvantes, ajudantes n
ecessários para que o entretenimento aconteça. 
        
Outra coisa que vejo nesse período é certa, desculpe o termo, ditadura imposta pelo carnaval. Cadê a democracia do carnaval? Cadê o respeito por aquele que não estar a fim de escutar essas “músicas” sem letra e sem melodia? Em todos os cantos da cidade tem alguém fazendo sua parte de folião. Se exibido com seus carros de som, caixa amplificada... Preparando-se para uma suruba que eu e você sabemos que nunca se concretiza. Não! Não adianta toda essa pressão, não sou audiência para essa festa caipira, caipira porque só olha para dentro de si. 
        
Com a televisão a situação é  semelhante. Como se não batessem as socialites, a maioria garotas de programas disfarçadas de atriz e modelo, à procura de sucesso fazendo qualquer coisa para aparecer na cobertura nacional, ainda temos a mídia local, sempre parcial, cobrindo a “alegria” do folião. E não adianta mudar o canal, pois é tudo carnaval. 
        
Mas nem tudo é trágico nesse período carnavalesco. Como citei no início do texto, aproveito-o para apreciar uma boa leitura. Não é todo mês que temos 4 ou 5 dias livres para ler um romance do escritor norte-americano Dan Brown, ler os poemas do grande poeta português Fernando Pessoa ou ouvir um bom rock and roll. 
         Por isso, talvez, esse período carnavalesco não seja de todo insuportável. Por isso, só talvez, esses BBBs da vida real não tornem meus dias vazios.
         E pra encerrar o assunto sobre essa pobre cultura, vai um sonetinho aí do Pessoa que, aliás, é bem o espírito que o carnaval da Barra desperta em mim, veja o que tenho pensado durante esse período carnavalesco, nesses últimos 4 ou 5 dias:

 

O Guardador de Rebanhos (IX)

 

“Quem dera a minha vida fosse um carro de bois

Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada.

E que para de onde veio volta depois

Quase a noitinha pela mesma estrada.

 

Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas

A minha velhice  não tinha rugas  nem cabelo branco

Quando eu já não servia tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um  barranco.”

*Fábio Roberto Soares Mota, 26 anos, é estudante de Matemática da Univima, mora em Barra do Corda.

(TB18fev/2010/nº15)

 

 

Artigo
Temos o governo que merecemos
jornal Turma da Barra

*Fábio Mota

         Nesses últimos dias tenho pensado sobre o suposto crescimento ou decrescimento da Barra, a cidade de inabalável alegria. Reflito sobre nossas duras críticas, sempre afinadas, direcionadas aos nossos governantes, que não são santos, claro. De como sempre achamos algo que está faltando, e sempre está, por vezes apenas com o intuito de reclamar. Eu sei, os políticos são responsáveis  por grande parte daquilo que está faltando, mas também, pela minha análise, vejo que o problema não pode ser resumido a esse grande detalhe, o problema é um pouco mais complexo.
         
A convivência com os conterrâneos barra-cordenses tem me mostrado que essa história possui um outro lado, muitas vezes esquecido e deixado de fora das discussões: o povo. Que com sua pureza de intenção, vendendo o voto e pulando carnaval, não deixa de ser igualmente responsável se as coisas não andam como deveriam andar, não concordam? 
         Recentemente, na semana passada para ser mais objetivo, nas propagandas que relembram os carnavais de anos atrás, vi um político dando uma entrevista. No caso era o carnaval de 2001. Então pensei: naquele ano, o cara já ocupava o mesmo cargo que ocupa hoje. Então pensei mais um pouco e me perguntei: o que ele fez para o povo até agora? Bom, como falei isso foi na semana passada. De lá para cá ainda não encontrei resposta plausível para minha pergunta.  
         Mas por outro lado, essa pergunta me trouxe algumas conclusões. Veja bem, se o cara ainda está no poder é porque ele se reelegeu, ou o povo o reelegeu, certo? Se ainda está no poder, é porque está agradando a maioria, não? E se a maioria está feliz, para que mudar! Se eu fizer crítica vão dizer que sou egoísta, que só penso em mim, o que é verdade. 
         Eu, particularmente, não diria que estou feliz com o crescimento da Barra, mas digo que está muito à frente do que o cordino faz por merecer. As escolas que foram e as estão sendo construídas, as ruas limpas, outras que estão sendo asfaltadas, os dois mercados públicos, na Altamira e na Tresidela, etc. Para mim, que não esperava isso, é louvável. 
         A saúde, como citei meses atrás, é triste. O desrespeito com o senhor e senhora da terceira idade, cansados de uma vida de trabalho, é de dar medo. A educação da cidade, assunto de vários artigos no Turma da Barra, não merece nem ser mais comentada, pois já sabemos de sua ineficiência. Temos ainda falta de água, falta de políticas para a conservação dos rios, falta de estradas para os povoados etc. 
         Mas a questão, como falei no início, não é tão simples. Por exemplo, até agora ninguém falou como é a convivência entre professores e alunos. Ninguém comentou os casos onde a mãe insulta o professor por que o filho deixou de fazer o dever de casa. Ainda não se discutiu os casos onde o professor é obrigado a passar o aluno, independente de sua aprovação... É possível existir alguma educação se o professor não pode dar sua aula e ainda é abrigado a aprovar o aluno, apenas para gerar os números das boas estatísticas do governo?  
         E os rios, quem é  que não os preservam? Quem é que joga dentro deles sacos, litros, plásticos...? Eu respondo: o povo. E não adianta tentar me convencer que podemos conscientizar a população. Depois de algumas experiências posso dizer: ninguém conscientiza alguém. Até acho bonita essa idéia, mas não acredito nela. Não mais. 
         Dizem que uma administração pública deve refletir
a vontade do povo. Pois se assim for, a Barra não tem por que reclamar. A vontade do povo esta sendo feita: está tudo pronto para o carnaval. 
         Então o que podemos fazer se o barra-cordense reescreve o passado sem pensar no futuro? Eu, que dificilmente concordo com maioria, posso fazer minha parte. Mas
de que adianta, se a “democracia” favorece sempre a maioria? Então só resta me contentar com a realidade que temos, não? Não que eu pense em deixar de fazer minha parte, mas tenho que louvar aos céus se algo está sendo feito. 
         Barra do Corda têm faculdades presenciais e à distância. Faculdades públicas e privadas. De graça e paga. Para mim, está faltando mais emprenho de todos. Está faltando acordarmos para a educação. Precisamos contribuir investindo mais no ensino, dedicando mais tempo à leitura. Se não buscarmos isso, esperando por políticas que façam isso pela gente, ficaremos toda a nossa vida reclamando, e sempre com o governo que merecemos.

*Fábio Roberto Soares Mota, 26 anos, é estudante de Matemática da Univima, mora em Barra do Corda.

(TB11fev/2010/nº14)

 

 

Artigo
Comerciário deixa de lado seus direitos
jornal Turma da Barra

*Fábio Mota


            Por qual razão alguém deixaria de lado os direitos garantidos em leis? Falarei hoje sobre os comerciários (trabalhadores no comércio ) de Barra do Corda.
            Por exigir pouca qualificação e inexperiência, o comércio da Barra é um dos setores com mais oportunidades de emprego para os jovens. A quantidade de lojas de móveis e eletrodomésticos no centro da cidade não pára de aumentar. O cliente não pode reclamar que lhe falta opção.
            Mas nem tudo é maravilha nesse assunto. Pois apesar de o Sindicato dos Comerciários ser uma entidade atuante mesmo com as inúmeras dificuldades, os trabalhadores pouco se envolvem no movimento. Só visitam o Sindicato quando vão sair da empresa onde trabalham, isto é, na hora da rescisão de contrato.
            Os ocupados no comércio trabalham muito além das horas que deveriam trabalhar. São contratados para serem vendedores, mas quando as lojas fecham no fim tarde, depois de um dia trabalhoso, é que o trabalho realmente começa. Vão limpar os móveis o chão e o banheiro antes de irem para casa. Uma carga horária que afasta o jovem do estudo e dificulta as chances de crescimento profissional.
            Eu trabalhei 5 anos numa dessas empresas, e nesse período fui até presidente do Sindicato local. Isso mesmo gente, já fiz parte desse mundo e sei como as coisas acontecem. E dou graças a Deus e ao Sindicato por ter conseguido tempo para estudar. Pois quem é eleito para a direção do Sindicato tem estabilidade, tem direitos reconhecidos e não pode ser demitido por que o patrão esta de mau humor por você sair no horário certo ou por você ter se negado a limpar o chão, um trabalho que não é de sua responsabilidade.
            O comércio não valoriza os jovens. A tendência que impera é a de que o empregado seja demitido antes de completar dois anos de serviço, para evitar que ele se torne “caro” para a empresa. Com isso, ele estará sempre passando por sucessivas recolocações no mercado e por conseqüência sempre ganhando um salário próximo ao inicial.
            O Sindicato dos Comerciários de Barra do Corda, diferentemente de alguns no Maranhão, zela pelo nome. Fundado em 1995 até hoje nunca se vendeu através de parcerias ou com acordos que desvalorizassem seus representados. Muito pelo contrário. Através de sua incansável presidente, a guerreira Irene, em momento algum deixou a desejar no quesito vontade de mudar a situação para melhor.
            Mas o grande problema está no fato dos trabalhadores cultuarem uma cultura de submissão. Trabalham em constante medo de perder o emprego. Convivência com o pessoal do Sindicato é evitada, pois se o patrão descobre que ele esteve procurando conhecer seus direitos, pode correr o risco de ser demitido.
            Essa é a realidade dos comerciários cordinos. Trabalham muito e ganham pouco. Vivem amedrontados com iminência de a qualquer instante ver seu cargo não mais existir. Submetidos aos domínios dos patrões que só aumentam sues lucros com a mão de obra barata.
            O pior é que estão acomodados com a circunstância. Alguns deles( trabalhadores) ficam irritados se você fala que existem direitos que o beneficia. Será que algum dia vão perceber que estão deixando de lado uma conquista que custou e custa a vida de muitas pessoas?


*Fábio Roberto Soares Mota, 26 anos, é estudante de Matemática da Univima, mora em Barra do Corda.

(TB13jan/2010/nº11)

 

 

Artigo
Os orelhões da Barra
não funcionam

jornal Turma da Barra

*Fábio Mota


            Se você tem um telefone fixo em casa disponível, um aparelho celular pós-pago (de linha) ou um pré-pago (de cartão) com créditos presumo que sua atenção a este texto será pouca. Mas se você não se encaixa em nenhuma das opções citadas, como muitos, concordará comigo que é raro encontrar um telefone Orelhão que funcione aqui na Barra.
            São vários os motivos deles não prestarem. Os orelhões na cidade não funcionam por razões quer vão desde problemas técnicos, por falta de manutenção, a problemas de aparelhos que estão quebrados. Como se não bastasse a falta de bons serviços por parte da telefonia responsável; pessoas, ou melhor dizendo, selvagens que andam à noite pelas ruas, avenidas e sem nada para fazer, estragam os telefones.
            Dando uma volta nos bairros Cerâmica e Tresidela, tentando localizar um telefone para uma ligação à longa distância, pude sentir na pele essa realidade. Um dos aparelhos testados na área só funcionou com a ligação a cobrar. Na rua rio Tocantins encontrei dois sem sinal algum. Nas ruas rio Jutaí, rio Tapajós, rio Juruá... Os problemas se repetem.
            Ao retirar o fone do gancho aparece no visor do aparelho a mensagem “coloque o cartão”, mas não há o sinal sonoro que identifica estar o telefone pronto para efetuar a ligação. Os outros aparelhos apresentam defeitos distintos. Uns estão mudos, sem nenhum sinal; outros apresentam a mensagem “fora de operação” e em outros a abertura onde se introduz o cartão está interrompida. Quando se encontra um que funcione, aí você tem de esperar alguém terminar, sempre tem alguém na frente.
            Além de mim, estou falando do amigo F.A.D.N, morador do bairro Tresidela. Ele conta que por vezes precisa matar a saudade da namorada que mora no povoado Centro dos Ramos. Mas, segundo ele, é preciso andar praticamente o bairro todo para encontrar um que esteja funcionando. Isso quando consegue fazer a ligação.
            Ligar para a Oi/Telemar exige grande paciência e tempo disponível. Depois de no mínimo 10 minutos ouvindo uma moça muito simpática, digo sem ironias, dando instruções, eles te atendem e dizem que amanhã a tal horas a situação estará normalizada. No próximo dia você percebe que nada mudou e então liga novamente, aí outro atendente fala a mesma coisa. Terceirizam o problema um para outro e tentam te convencer de que o problema não é deles. E realmente não é mesmo.
            Quem acha que estou fazendo tempestade em copo d’água, talvez não tenha ainda  precisado usar um telefone orelhão em Barra do Corda. Podem pensar também que todo mundo tem um celular, e acredito que é verdade. Outra verdade é que os celulares servem mais como câmera, tocador de música e vídeo, despertador, status... O meu, por exemplo, já faz alguns meses que não ver créditos. Daqui a pouco cancelam. Vejam que coisa: obrigam-nos ao consumo.
            Os orelhões têm a grande utilidade de podermos ligar para qualquer lugar. E todos podem usá-lo, é importante para aqueles que não possuem telefone fixo ou celular. Mas além do descaso das operadoras que trabalham sem fiscalização e abusam de seus clientes com ineficientes serviços. Também é alvo de vandalizações e muito usado por garotos que passam trote, através de ligações a cobrar ou brincadeiras sem graça.
            Fico por aqui. Se precisar de um orelhão, espero que ele não recuse nem engula seu cartão, como me aconteceu. Também desejo que o visor não esteja apagado e que seu cartão telefônico seja reconhecido. Que eles não silenciem para sua pressa. Boa sorte.


*Fábio Roberto Soares Mota, 26 anos, é estudante de Matemática da Univima, mora em Barra do Corda.

(TB6jan/2010/nº10)