Artigo
O espírito livre de Nietzsche
jornal Turma da Barra*Fábio Mota
A incisiva apreciação filosófica e a sinceridade constante de Friedrich Nietzsche talvez o façam, para alguns, o mais incômodo e provocador filósofo de todos os tempos.
Para outros, no entanto, suas denúncias ganham outros significados mais sublimes. Suas atitudes se tornam estimulantes, fascinantes, empolgantes e lê-lo acaba por se transformar num deleitoso desafio.
Nietzsche desperta os mais variados sentimentos naqueles que se aventuram nos mares de seus pensamentos, nos mares de suas psicologias. Ninguém consegue ficar quieto depois conhecer seu amor ao saber.
Quem sabe porque a crítica vigilante deste alemão não poupa nenhum dos dogmas que as crenças há milênios sustentam. Nenhuma ciência. Nenhuma cultura em toda a história escapou de suas marteladas.
Da sua idéia de necessidade de uma “transvaloração de todos os valores” não escaparam a metafísica-religiosa e os interesses ocultos na moralidade e na política moderna, encobertos sob desculpas de um bem maior.
Conceitos seus como, por exemplo, de além-do-homem (Übermensch), vontade de poder, eterno retorno, vivem na memória e na imaginação de seus muitos leitores, provocando outros tantos conceitos.
Nietzsche tornou-se um “espírito livre” e se incumbiu da tarefa de construir a própria ponte, o próprio caminho. Através das suas, denunciou nossas aflições e em nenhum momento se poupou de tais análises, mesmos nos mais sombrios momentos de suas visões.
Para ele está na dança do pensamento a leveza da vida, por isso seu Zaratustra é um dançarino, por isso é dionisíaca a sua filosofia. Uma filosofia que só quer despertar os espírito livre de cada um, e restituir a graça da vida.
*Fábio Mota é escritor, mora em Barra do Corda (MA)(TB/18jan2012)
Artigo
Correndo perigo e comendo poeira na MA-012
jornal Turma da Barra*Fábio Mota
Semana passada viajei pela -- famosa por sua desgraça --, MA-12. Fui a Sumaúma da Mata, povoado que se localiza nos limites da área cordina; para ser mais preciso, a aproximadamente cinqüenta quilômetros da área urbana de Barra do Corda; depois de lá, não precisa andar nem mais dez quilômetros e você já estará numa cidade chamada São Raimundo do Doca Bezerra.
Além de me lançar a um risco de vida, podendo a qualquer instante ser encontrado por bandidos fortemente armados, ainda tive a oportunidade de comer um bocado de poeira, sem contar a infinitude de buracos que parecem querer dizer que você logo chegará ao inferno.
O trecho da estrada, diferente do que ocorre depois de São Raimundo – que além de ser melhor hoje e ainda já ter asfalto garantido --, está perto de deixar de existir. Não é o tipo de viagem que um ser humano mereça fazer em tempo algum de sua vida.
No caminho, há certo número de povoados, cheios de buracos e poeira. O primeiro, Centro dos Ramos, não precisa nem mais fazer quebra-molas, como os moradores gostavam de fazer, pois o lugar está um buraco só. O mesmo ocorre com o próximo povoado, Barro Branco, o trajeto é tão difícil quanto.
Daqui a pouco as poeiras darão lugar aos atoleiros, às ladeiras escorregadias, pois as estradas esburacadas e estreitas sobem às vezes por montanhas, principalmente depois do quarto povoado, chamado Capim; antes deste tem o Montevidéu.
A gente sente todo o transcorrer da viagem, a viagem que deveria durar uma hora e dura quase três. Em certos pontos alguns precipícios se insinuam, as barreiras ameaçam cair a qualquer instante, inclusive num instante em que um carro passa por ali, cheio de passageiros, com alguns na capota.
A qualquer instante, eu pensava, amedrontado, preparado, eu tinha de desfazer-me de meu pouco dinheiro, o dinheiro das passagens, de ida e de volta. Teria de entregá-lo a um cara com uma arma apontada a minha cabeça, sem paciência para papos. Eu não morreria por uma quantia ridícula, entregaria sem palavras, porque não havia outra coisa que eu pudesse fazer. Mas ele ainda poderia me matar, caso não fosse com a minha cara.
Ainda passei por outros dois povoados, Cacau e Lagoa do Socorro, uma estrada alternativa que corta estes povoados, a estrada que os motoristas têm usado para diminuir o risco de assaltos. E aí, depois de duas horas e meia, ou mais, chegamos, com as nádegas doídas e o coração cansado, mas já se aliviando. Chegamos a Sumaúma da Mata. No retorno, o sofrimento é o mesmo.
*Fábio Mota é escritor, mora em Barra do Corda (MA)(TB/
23nov2011)
Artigo
UFMA em Barra do Corda
jornal Turma da Barra*Fábio Mota
O deputado estadual Rigo Teles (PV) acaba de incrementar-se na luta pela implantação de um campus avançado da UFMA em Barra do Corda, ao enviar documentação aprovada na Assembléia Legislativa do estado, chamada “Indicação”, a diversas autoridades do Maranhão e do governo federal.
Estamos em 2011, dizem que o mundo acaba em 2012, será que teremos universidade antes de o mundo acabar?
Muitos sonhadores de Barra do Corda e região esperavam há muito uma postura de boa vontade dos deputados que os representa, que apesar dos pesares, parecem estar empenhados dessa vez.
Mas também é importante esperar, de verdade, uma postura tática de respeito por parte dos representados, que deverão estar ligados nessa campanha que tem tudo para dar certo. Os eleitores merecem, eleitores de anos e anos; afinal, os deputados que estão no poder e que têm a honra de nos representar, já estão alguns anos nos representando.
Por isso, como as coisas dessa vez parecem ser promissoras, e os maiores interessados somos nós mesmos, convidemos os amigos para uma discussão acalorada sobre o tema, falemos sobre a importância de um campus em Barra do Corda, é importante lembrar, senão pode cair no esquecimento novamente.
Eu sei, seria mais interessante se o assunto fosse sobre quantas bandas de axé tocarão no carnaval do próximo ano em Barra do Corda, não é? Se dez, onze, ou melhor, se fossem doze, mais pessoas dariam graças a Deus; mas ajuda aí, é só escrever a sigla UFMA e o nome da Barra do Corda e repassar.
Então quando chegar 2012, e se o mundo não acabar, quem sabe não chegaremos a ter uma universidade federal em nossa cidade. Com as mudanças das épocas, tudo tende a evoluir, por que não evoluir também?
*Fábio Mota é escritor, mora em Barra do Corda (MA)(TB/
26out2011)
Artigo
Faça o que eu digo,
não faça o que eu faço
jornal Turma da Barra*Fábio Mota
Como hoje é o dia da Criança, vamos falar sobre o adolescente, uma criança que pode ajudar a decidir o futuro do país, mas não tem condições psíquicas que o permita querer imitar seus próprios pais.
A moda agora em Barra do Corda é a busca pela solução dos problemas envolvendo os adolescentes, principalmente os problemas de acidentes no trânsito. Os adultos estão empenhados, como se tivessem alguma moral para ensinar qualquer coisa aos adolescentes.
Fazem blitz e vão às festas salvá-los de suas próprias maldades e os devolvem às suas famílias que não tiveram como segurá-los em casa para assistir a alguns instrutivos programas infantis, assistir um show da Carla Perez ou da Vanessa...
Entretanto será que tal preocupação não tem uma origem interior? Será que não estão entendendo que adolescentes podem fazer tudo, menos as besteiras dos adultos? Pois parece que estão querendo dizer: faça o que eu digo, não faça o que eu faço.
Tudo bem. Ser politicamente correto faz bem para quem o é; afinal serão elogiados por seus feitos e ainda se sentirão como super-heróis salvadores dos fracos e oprimidos que não tiveram como se defender das intempéries que afetam as suas vidas erradas.
Mas será que adianta encher um pneu furado? Será que adianta cortar as folhas de uma árvore venenosa e esperar que ela morra? Não seria preciso remendar o pneu ou comprar um novo? Não seria preciso cortar as raízes da árvore se quiser mesmo matá-la?
Os adultos que não estão roubando, estão assistindo, pacificamente, os ladrões levarem as riquezas dos mesmos jovens inquietos, que dizem defender. Os adultos que não estão se infiltrando na malandragem, estão acomodados em seus quadrados esperando que Deus resolva tudo. Então o que têm os jovens a aprender com isso?
O comportamento dos jovens é apenas um retrato da ação dos adultos. Incentivá-los a freqüentarem as festas e depois arrancá-los de lá não parece meio contraditório?! Os jovens têm uma mente aberta e se estão fazendo coisas incorretas, com certeza não aprenderam em outro planeta.
É isso. Acredito que está sobrando pessoas com boa vontade, e está faltando pessoas com bons exemplos.
*Fábio Mota é escritor, mora em Barra do Corda (MA)(TB/
12out2011)
Artigo
Literatura e realidade
jornal Turma da Barra*Fábio Mota
Tenho sido vencido pela queda na quantidade de textos que eu deveria escrever para o TurmadaBarra. As quartas-feiras de faltas é uma história que tem se repetido. Não sei dizer direito, mas talvez o responsável por esses vácuos sejam minhas opiniões que ultimamente vivem mudando de lado, isto é, fora as vezes que não fico sem opinião alguma.
Por vezes penso que se eu me propuser a responder as ansiedades de forma imediata, acabo correndo um alto risco de cometer algum deslize. Enquanto penso sobre isso mergulho no mundo das obras de ficção, que por vezes é mais real do que a própria realidade. Surreal. Pois num romance não encontramos tantas mentiras quanto nessa nossa vida que mais parece uma irrealidade.
E assim paramos na vadiagem da dúvida, e paramos um pouco no tempo, e suspensos não conseguimos sentir os pés, e ficamos na preguiça. Então lembro que literatura de qualidade não nasce sem o devido esforço maior, sem as mais demoradas reflexões; e que por isso mesmo sobrevive por muito mais tempo, mesmo nesses dias de febre nos olhos, em que há uma superprodução de textos veiculados na internet, que sufoca nossas mentes já cansadas de tantas obrigações.
Barra do Corda vive neste momento numa avalanche da mídia local, uma mídia que cobre tudo através de blogs, sites e televisão, cada um dando a informação conforme manda o seu patrocinador; e assim carregamos estoques significativos de má literatura, seriamente investida na educação e formação das opiniões das novas gerações de nossos jovens (e tudo indica que este caminho continuará por muito tempo).
Pela forma que as coisas se encontram, com a cultura da corrupção correndo em nossas veias, fora a falta de políticas educacionais que levem uma pequena parcela da população a algum lugar digno... Deveria ser suficientes para que nós barra-cordenses diminuíssemos nossa obsessão pelo conforto da alienação, e abandonássemos por um instante sequer a mania de comemorar epidemias.
Por isso eu prefiro a ficção dos livros densos e lentos, neles me relaciono mais intimamente com pessoas parecidas comigo. Acho que deve existir alguma razão para que nos apaixonemos por retratos que não envelhecem, por contos assustadores, que vivem somente no mundo da fantasia.
Essa razão surge, talvez, quando você olha e ver todo mundo cego, correndo ao encontro do precipício. É aí que aprendemos a usar a literatura como forma disfarçada de fuga dessa loucura, pois somente através da ficção é que compreendemos o quão absurda parece ser essa nossa realidade.
*Fábio Mota é escritor, mora em Barra do Corda (MA)(TB/1
4ago/2011)Artigo
Um povo feliz
jornal Turma da Barra*Fábio Mota
A felicidade, acredito eu, é o sonho almejado por todos os seres humanos, durante toda a sua vida. Não por acaso, existem tantas pragas nessa vida que não nos resta outra alternativa senão correr com medo delas.
Claro que sempre existe alguma exceção, para alguns a vida parece querer sorrir continuamente; eu não posso reclamar muito da minha vida. No entanto geralmente estamos correndo atrás da sorte.
Mas Barra do Corda não se encaixa nesse contexto. Por aqui existe uma marca que transforma a exceção em regra; uma característica herdada do nosso querido Maranhão, há não sei quantos anos governado por pessoas que sabem fazer seu povo feliz.
Além de dois rios e falta de água nas torneiras das casas, paradoxo que não existe em todo lugar, existe em Barra do Corda uma terceira coisa interessante: a inabalável alegria de seu povo.
Uma característica ímpar, que distingue o povo barra-cordense (e o maranhense) de quaisquer outros: a arte de ser feliz. Não esperem que eu vá cair na armadilha de tentar explicar isso, são apenas observações; só me intrometo a escrever sobre por que acho muito interessante, que precisam ser registradas, pois talvez algum dia tudo mude.
Não que deva mudar, mas as transformações, mesmo quando demoradas, inevitavelmente acontecem. Um dia a gente olha para trás e fala: “a gente era feliz e não sabia”. Lembre-se de sua infância, e veja se não falo a verdade.
Esqueça a tragédia de todos os povos, pense positivo. Talvez as pragas dessa vida possam realmente existir, mas algum povo nesse planeta sabe ser feliz.
*Fábio Mota é escritor, mora em Barra do Corda (MA)(TB/
10ago/2011)Artigo
Boas perguntas e difíceis respostas
jornal Turma da Barra*Fábio Mota
Estou sentado numa poltrona acolchoada, em frente ao computador. Num momento que exijo de mim meditações espirituais mais profundas sobre as coisas que me cercam.
E percebo que minhas observações ultimamente sempre esbarram em dúvidas.
Ou, para ser mais preciso, não tenho conseguido montar uma crônica sobre meus hodiernos pensamentos.
Barra do Corda vive agora sob ameaças de novos tempos, tempos de inseguranças, o tempo típico das grandes cidades. Bom seria se junto dele também viesse, entre outras coisas importantes, uma nova mente ao povo barra-cordense.
Mas é aí que bate a desesperança. Como mudar a mente de um povo que não têm escolas? Quer dizer, que não tem professores? Quer dizer, que os professores não são pagos pelos serviços que prestam?...
Que incentivo temos para cursar um curso superior para ganhar um salário menor do que aquele que muitas pessoas que só têm o nível médio ganham? Ou pior ainda, por vezes, para ganhar menos do que ganha um analfabeto?
Eu sei, existem outros tipos de valores. Muito dinheiro não é sinônimo de felicidade.
Mas não se trata disso; trata-se de justiça, coisa rara em nossos dias; trata-se da felicidade de nossos espíritos; e não a de nossos bolsos.
Por que um deputado ganha tanto? Por que um juiz ganha tanto? Ah, imagino, talvez eles trabalhem mais do que um professor; ou quem sabe talvez eles tenham um trabalho mais importante e que não seria bonito andar de moto-taxi.
Mas um professor pode viver com mil reais, por que não? Eles foram escolher o curso superior errado, que se danem, não?
E essa é somente uma das tantas injustiças não só de Barra do Corda, mas desse Brasil véi inteiro. E são tantas perguntas sem respostas que nos vêem à cabeça que ficamos totalmente sem esperanças.
Não dar vontade nem de escrever. Vou falar sobre o que? Se olharmos para a esquerda, vemos logo que não podemos falar da direita. Se falarmos de um lado, acabamos sendo injusto com o outro. Por quê? Porque está tudo errado.
Por isso a crônica nega-se a sair do oculto. Porque temos boas perguntas, mas difíceis respostas.
*Fábio Mota é escritor, mora em Barra do Corda (MA)(TB/
20jul/2011)