Artigo
O Natal dos meus sonhos
jornal Turma da Barra

*Francisco Brito

            É dezembro. E com ele chegam as festas. O clima do fim de ano já se movimenta desde o mês passado. À noite, observamos as ruas, pontes, prédios, e residências iluminadas. Decorações e enfeites dos mais simples aos mais sofisticados. Lojas e shoppings centers ornamentados anunciam o brilho natalino. Pessoas ávidas no corre-corre de presentearem seus entes queridos impulsionam as vendas no comércio.
            Nesta época, o Natal ganha mais sentido. Etimologicamente, a palavra Natal origina-se do latim natális, que tem o significado de nascer. Mas, a data de 25 de dezembro, é celebrada muito antes da era cristã, que comemorava o solstício de verão, em homenagem ao deus Mitra, “que representa a luz do sol”.
            Sem mistificar o Natal, essas comemorações são válidas. Elas nos dão a chance de vivermos, mesmo que seja por uma noite, a alegria de reencontrar os parentes e amigos que não víamos há algum tempo. Presentes que doamos e recebemos de coração aberto.
            O Natal é a oportunidade de estarmos em perfeita harmonia com a nossa consciência; distribuir um sorriso para a criança que chora abandonada; saber perdoar e reconhecer as nossas falhas e, nunca apontar ao que comete erros; deixar que o rancor se aloje na solidão e o ódio seja reprimido pelo amor; almejar que a fome acabe, e contribuamos para saciar as pessoas famintas; que os brancos, negros e outras raças se dêem as mãos; que possamos interceder pela paz mundial e repartirmos um pouco do que te mos para o próximo; é você não tapar os ouvidos e os olhos, evitando de ouvir e olhar o miserável pedindo socorro.
            Finalmente, é lembrarmos de continuar a exercer esses frutos durante todos os dias do próximo ano. Compartilhando os nossos sonhos e ideais para nossa família, para os amigos e ao próximo. Porque o Natal que Deus deseja para cada um de nós, de qualquer cor, credo ou religião, é uma frutificação permanente. É vivenciarmos todos os dias do ano de  2012. Em permanente profusão de amor.
            Em uma palestra sobre a criminalidade no Brasil e no Mundo, a Procuradora-Geral de Justiça do Maranhão, Fátima Travassos recomendou: “O homem moderno está precisando de Deus”.  É verdade. Quero por oportuno, aliar-me à recomendação da magistrada maranhense. 

*Francisco Brito é poeta, membro da Arcádia Barra-Cordense e do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda (MA) 

(TB22dez2011)

 

Artigo
Flores no meu deserto
jornal Turma da Barra

*Francisco Brito


            São seis horas. No aconchego da cama reluto em levantar. Espio pela fresta da janela do meu quarto cenas que me dão a sensação de um dia alvissareiro. Enquanto caem pingos d’água resultantes das nuvens negras embaçando o sol nascente, anunciando um dia de temporal, os pardais e os bem-te-vis de todas as manhãs, enfileirados nos fios de alta tensão, “despreocupados”, “enamoram-se” e estridulam seus cantos animando meu coração enfastiado de uma noite indormida.
            Ainda zonzo recobro os sentidos e num salto levanto para a vida! Nasce mais uma manhã como outra qualquer, apenas diferente, se não fosse pelo fato de eu estar combalido por uma virulenta “pedrinha”. Um cálculo renal. Desses que chegam na “época do com dor”.
            Ainda no meu quarto ouço passos largos e apressados das pessoas que seguem sua lida diária. E, tento imitá-las quando me lembro do mesmo horário que estava rumando para o trabalho. As horas inexoravelmente não param. Avançam no tempo determinado pelo Altíssimo. Recluso em mim mesmo, por alguns instantes esqueço que me sinto enfraquecido pelos antibióticos e antiinflamatórios que servem como bombas para fulminar esta indigesta “pedra”.
            Há tempos não me sentia impotente para a rotina do dia a dia. “Bem que te avisamos: vá ao médico regularmente...”, bradavam Márcia e meus filhos em tom de advertência, após os primeiros socorros devidos. E, isto, é pura verdade.
            Quando fui atendido pelo médico plantonista daquele Pronto-Socorro, naquele infausto domingo à noite, estava prestes a “explodir”: 20.8 a pressão arterial, 125 mg de glicemia e o colesterol lá nas alturas! O Dr. me receitou urgentíssimo um coquetel à base de morfina, usualmente aplicado aos soldados abatidos nos campos de batalha ou pacientes terminais de CA, tamanha era a dor que me acometia.
            Diante de um quadro tão assustador em minha saúde, promovido por uma minúscula “pedra” de 0.6mm orbitando por entre os rins, consegue imobilizar um corpo que mede 1.70 m de altura e que pesa 77 quilos espalhados pelas células, tecidos, ossos e órgãos.
            Via-me no deserto lamurioso e sorumbático. A última espécime de raça humana. Um ser tão frágil, quanto nossas convicções humanas. Tendo a certeza, de que, os títulos, a glória, e a felicidade de um homem nada valem se não estiver conectado com Deus.
            Então recorro àquele que nunca nos abandona, e encontro a saída em Sl. 33:18: quando nos aponta o conforto para essas horas de solidão: “Eis que os olhos do senhor estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia”.
            Vale registrar alguns e-mails, telefonemas e recomendações pelas redes sociais na internet de boas novas enviados pelos amigos: professor Nonato Silva, Heider, Álvaro e Mário. Dos irmãos em Cristo Jesus, e da ajuda imprescindível da família e dos parentes. Foram eles que reanimaram minha disposição de continuar no convívio de todos. Reavivou meu estado de ânimo. Além, obviamente em primeiro a Graça do nosso Senhor Jesus Cristo, que é derramada sobre nós.
            Mas, sobretudo, pela vontade de viver enquanto sentimos o respirar. Porque afora disso, tudo é efêmero. É como passageiro aportando na próxima estação sem a certeza do regresso.

*Francisco Brito é poeta, membro da Arcádia Barra-Cordense e do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda (MA) 

(TB31jul2011)

 

Artigo
Minha mãe, Rita Brito Carvalho
jornal Turma da Barra

*Francisco Brito


            Neste primeiro dia de julho há exatamente trinta anos falecia no Hospital de Base em Brasília, Rita Brito Carvalho, vítima de câncer de colo do útero, após padecer vários dias internada naquela unidade clínica. Seus restos mortais estão depositados num jazigo no Cemitério Campo da Esperança na capital federal.
            Nascida na cidade de Colinas-MA, em 27/06/1933, era filha dos cearenses, Dionísio Antonio Carvalho e de Joana Brito Carvalho. Seus pais por motivos da seca que assolou o ceará na década de 30 migraram para o maranhão em busca de “uma nova vida”. Ainda pequena muda-se para Barra do Corda. Vale registrar que Joana, sua mãe, foi uma das mais antigas professoras na cidade barra-cordense. Lecionava português em casa. E seu pai um exímio tocador de pífano e boêmio.
            Rita teve uma vida bastante agitada no seu itinerário terreno. Desde muito cedo, ainda nova, com seu corpo esbelto, altura mediana, olhos negros penetrantes e o rosto delicado e de sorriso fácil, despertou a atenção de olhares masculinos, por ser uma garota comunicativa e de beleza atraente. Na juventude e desinteressada pelos estudos, fez muitas amizades na sociedade cordina.
            À frente do seu tempo e muito liberal teve alguns casos amorosos na metade dos anos 50 e fins dos 60, de onde resultaram numa prole de seis filhos. Escandalizou, por assim dizer, a sociedade “bem comportadinha” barra-cordense da época.
            Lucimeire, Manoel Rogério (já falecido), Alcimeire, Francisco, Roberval e Maria. Esta última, falecida minutos após vir ao mundo, foram os seus filhos resultantes de dois casamentos e relações sentimentais.
            Tinha um largo convívio no meio social e de pessoas conhecidas e renomadas que moravam na cidade. Era muito amiga do casal Abreu e de Maria Ferreira e Olímpio Cruz. Amicíssima do “doutor” Éden Salomão. Destas amizades em 1959 concedeu um de seus filhos para o poeta Olímpio e esposa serem os padrinhos de batismo do seu mais novo rebento: “magrinho e meigo”, como exclamava orgulhosa a mamãe Rita.
            Viveu em Barra do Corda por mais 30 de anos. Em 1978 após divorciar-se pela segunda vez, resolve partir para Brasília juntamente com seus dois filhos mais novos. Por lá não consegue muito avanço na dura lida do dia a dia. Pra quem ultimamente deixara na cidade cordina uma boa vida para os padrões da época, agora se via entremeada com sonhos e ilusões numa “cidade estranha, fria e de intransponíveis cortinas de concreto”, bradava constantemente queixosa por ter deixado a sua Barra do Corda querida.
            Nos últimos dias de vida “desiludida de tudo” e impotente entrega-se à doença pela qual viria a “arrebentar a fibra que enlaça a dor vivente”. E, ali, naquele hospital, numa quarta-feira, às 16:00 horas, numa tarde mista de sol e frio no planalto central do Brasil, quebra-se a “fibra” que o poeta vaticina. Mas, deixa para trás uma história de humildade, alegria e de amores encontrados. Porque a morte nunca é o fim de tudo. Mas, o começo inaugural do desconhecido. A porta de entrada para a eternidade. E, tenho a convicção, de que tudo que acontece é o resultado do livre arbítrio do homem aliado à permissão de Deus. Pois, o tempo passa... E nós é que voamos.
            Amável Rita deixo-te, aqui, esta pequena lembrança, onde nem mesmo os anos que se consumiram jamais apagarão em minha memória a tua linda e rósea face, a sorrir-me sempre com encanto e brilhos nos olhos, com teus abraços inigualáveis, minha senhora, minha mãe.

*Francisco Brito é poeta, membro da Arcádia Barra-Cordense e do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda (MA) 

(TB1ºjul2011)

Artigo
A redenção do poeta
jornal Turma da Barra

*Francisco Brito

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
 - que já têm a forma do nosso corpo -
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares...
É o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la,
Teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos.”
(Fernando Pessoa)


            Finalizo a leitura de “Poemas do Tempo Comum”, do Fernando Braga com incontrolável contentamento. E, com a certeza de ter assumido, comigo mesmo, o compromisso de ler um livro a cada semana.
            A presente obra nos traz, além do belíssimo poema “Insulano”, celebrações de várias formas e perturbadoras confissões poético-sacrossantas, de um solitário cântico desesperador do poeta em busca da sua identidade espiritual.
            Incomodaram-me bastante os poemas, “Epitalâmio”, “Fine Ultimus”, “Agnes Dei”, “Ai de mim, Jerusalém”, “Nas Pegadas de Paulo” e “Poema da Redenção”. São versos carregados de fardos de um pecador contrito e com sentimentos espirituais, a buscar incessantemente a companhia do Cristo Salvador. O poeta nos faz lembrar de Romanos 3:23 “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” e busca em oração confessional o verdadeiro Deus protetor: “Guarda-me, Senhor/dos males podres da carne,/e reativos, e dolosos de pensamentos./Não me de ixes neste caldeirão de dores/a rasgar as vestes,/onde santos e demônios se confundem”.
            E, necessitado que está de sua condição imposta pela queda adâmica,  ecoa um grito desesperado de súplica ao seu Criador: “Meu Deus, dá-me Tua misericórdia/por que sou triste e aflito,/e faze-me resgatado/do exílio e da escravidão”.
            Mas, após tantas confissões e súplicas, de suas próprias ações demonizadoras e voláteis, por fim, as amarras se desatam da alma desgastada de tanta sofreguidão, quando encontra, enfim, o Cristo Redentor: “Ungiste-me,.../com o Fogo do Teu espírito,/e com o Poder da Tua Ressurreição”.
            Surpreendemo-nos quando enxergamos o homem-poeta, mas, católico renovado, admoestando para a cegueira espiritual: “Cristo não está divinamente morto e nem mutilado,/e nem habita em gesso, madeira, ou bronze,/nem tampouco respira nos textos da Paidéia,/ ou da Humanitas”. E, sinaliza para o caminho certo, isto é, quando o homem secular confessa ao seu Salvador, gerando dentro de si uma nova criatura “Pelo Novo e Vivo Caminho (Hb. 10:20):  “Cristo habita em mim e em ti, e está vivo para sempre,/e nos fez, e por isso somos,/e nossa alma não descansará, senão no Amor e na Fé”.
            Entretanto, o Fernando Braga, também, exclama e questiona a permissão do Eterno ante a perda dos seus entes mais queridos: “O cordeiro da morte levou minha mãe para um banquete de resignação;/e depois veio buscar meu pai, tirando-o dos meus braços/sem mo pedir licença”. E, triste, seu pranto se deságua a esperar o milagre da ressurreição. Por fim, retorna ao seu estado consciente e resignativo contempla: “Nunca mais os vi.../nem no desenho de uma nuvem!”
            No entanto, existe uma válvula de escape por onde o poeta encontra a Nova Jerusalém, reconstruída pela carne e sangue do Cordeiro imolado: ”Em Jerusalém se tem vontade de morrer,/pela intensidade do perdão que se nos foi dado/pelo Filho, na hora em que entregou/seu Corpo e seu Espírito ao Pai!”
            Fernando percorre ainda as pisadas redivivas de Paulo, ex-Saulo de Tarso, ao ajuizar a sentença do apostolado nos primórdios da igreja: “Tudo que me for determinado/com honestidade a fazer abaixo do Sol,/... eu farei com muita alegria e diligência”. E, desfeito de tudo que é concupiscente, penitencia a si mesmo: “com as vestes alvas,/e óleo nos cabelos,/porque sei que mais adiante,/não há obra, nem poesia,/nem vinho nem mulher,/e nem sabedoria alguma!...”
            No seu último ato de confissão, o poeta Fernando recapitula-se e eleva a sua alma ao arrependimento quando proverbializa a sua condição humana: “Perdoe Meu Senhor e Meu Deus/ por não poupar-Te/pelo abuso dos vocativos” e, finaliza aliviado em sua ceia íntima: “Preciso do sossego abrandado/para beber o cálice do meu vinho,/sem aquele sabor de má querência;/Tenho fome e sede, Pai!”.
            Estes poemas (in)comuns musicais descritivos e soltos, entremeados de uma dialética litúrgica são verdadeiros testemunhos de fé, amor e humildade do Fernando poeta, a servir-nos em seu banquete particular. Porque para o descanso e a promessa da eternidade nas ruas magistrais de ouro, pedras preciosas e, agora liberto de qualquer infortúnio carnal, é mister que deveremos recorrer Àquele que é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim de todas as coisas. Afinal de contas, Fernando Braga e a sua alma de poeta sabem muito bem disto.

*Francisco Brito é poeta, membro da Arcádia Barra-Cordense e do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda (MA)

(TB19jun2011)