Crônica
Rolim, um sertanejo cabra da peste

 


Rolim vendendo peixe
na rua da Altamira em BDC

“Quem tem mel dá o mel, quem tem fel dá o fel. E quem nada tem, nada dá!” 
Zé Ramalho

*Álvaro Braga


            Convido Aldeci Rolim de Albuquerque, o conhecido Rolim, para dois dedos de prosa. Ele aceita e me chama para entrar em sua casa para almoçar com ele uma fava com toucinho de porco, arroz e muita farinha. Agradeço a oferta e o deixo à vontade. Entre uma colherada e outra, naquele prato que mais parece uma montanha, vai me contando a história de sua vida, ganhada através de muitos anos de suor e trabalho honesto.
            Sempre sorridente, tem resposta pra tudo, e sempre encontra espaço para encaixar um verso, para ilustrar a conversa, não importando o assunto. Trata-se de uma figuraça. Um sujeito gente boa. Além de emérito poeta repentista e cordelista, Rolim é o que se pode chamar de pessoa eclética, pois é exímio pescador, dançarino de primeira linha, radialista de programa sertanejo nas madrugadas, propagandista, apresentador de comícios, técnico em manutenção de redes de pesca e vendedor de colchões ortopédicos. Reside atualmente na Altamira, onde também costuma vender peixe aos domingos.
            De cara, inicio o ping-pong perguntando quando e onde ele nasceu. Ele responde na gozação: - Lá onde Judas perdeu as botas! Nasci em Cajazeiras, lugar onde a bezerra perdeu o chocalho, no estado da Paraíba em 23 de outubro de 1948. Cabra da rede rasgada e do lençol furado! Andava por esse mundão de meu Deus vendendo e anunciando tudo nas feiras-livres. Vim bater em Barra do Corda em 1963. Depois fui morar em Coroatá e de lá fui para o Matogrosso. Voltei pra Barra, já casado, eu acho que, no governo do prefeito Louro Pacheco. Fui convidado para trabalhar no Armazém Tabajara em Itapecurú-Mirim onde passei uns três anos, aí voltei para Barra do Corda e fiquei francamente uns cinco anos trabalhando no Armazém do Povo, do Sousa. Daí pra cá, acompanhei toda a vida da cidade. Me considero mais barra-cordense do que paraibano.
           Para testar sua verve poética pergunto se ele poderia recitar um verso qualquer e ele manda esse aqui, na bucha:

            “Quando é tempo de eleição
            O pobre cria valor
            O rico lhe aperta a mão, 
            Chamando: - meu eleitor!
            Guarde um voto para mim
            Não vote em gente ruim
            Mas depois que o pleito passa
            Rico saiu eleito
            Fica ele satisfeito
            E o pobre é quem se desgraça!

            Depois de boas gargalhadas, ele se anima pelo tema eleição e relata com sua voz possante: - Eu me lembro de um verso que eu fiz na campanha da Darci Terceiro para prefeita de Barra do Corda quando ela saiu eleita. Eu tava lá no Escondido. Essa minha menina ai era pequena e tava comendo uns cajú que tinha pela propriedade. Eu tava enfeitando o lugar do palanque onde ia ter o comício lá pelas seis ou sete horas da noite, quando de repente a minha filha chegou alarmada. Eu disse: - o que foi menina? Ela respondeu: - Pai, o homem proibiu da gente pegar caju daquele pé ali! Eu não disse nada, mas fiquei com aquilo na cabeça. Na hora do comício, na minha participação, eu falei:

            “O Maranhão é terra boa
            Terra de manga e piqui
            Terra de mulher bonita
            E cabra bom no “fuzi”
            Mas em redor de quinze légua
            Ainda tem cabra fi duma égua
            Que nega até um piqui”

            Rolim prossegue em suas lembranças: - No governo Fernando Falcão, ele vinha numa rural com o Americano e a filha deste, quando um cassaco da obra do Oliveira Paula atirou na rural e o tiro pegou no braço da filha do Americano. Pegaram o cabra que tinha atirado e perguntaram para o Fernando se era pra matar. O finado Fernando disse que era pra soltar. Os homens da segurança argumentaram: - Mas ele atirou!... Fernando falou: - Solte, é pra soltar, eu já não disse? Ai soltaram, e o elemento foi embora com a arma na mão. O carcamano era um homem bom, popular, mas também era disposto.
            Ele lembra ainda: - Uma vez morreu uma velhinha lá no sertão, e um sujeito procurou o Elizeu em seu escritório, aqui na Barra, pedindo para que ele lhe arranjasse um dinheiro, dizendo: “Seu Elizeu, eu tô aqui pra lhe pedir, não é nem pra mim, mas em nome da família de uma senhora muito pobre que morreu e eles estão sem condições pra fazer o enterro. Então gostaria que o senhor ajudasse.” Elizeu respondeu: - Hoje não! Hoje eu não posso arrumar nada. Hoje eu tô de cabeça quente. Com essa resposta o cara foi embora. Não demorou duas horas ele voltou novamente e disse: “Ô seu Elizeu, eu voltei para que o senhor me arrume dois pacotes de sal.” Elizeu, já zangado, diz: - Mas pra que diabo é que tu quer dois pacotes de sal? O homem responde: “É pra salgar a véia, que ela não pode esperar não!
            Outra vez, prossegue Rolim: - Eu tava trabalhando no escritório do Elizeu e a fila tava grande, quando chegou uma senhora de mais ou menos uns quarenta e quatro anos e Elizeu perguntou a ela: - O que é? Ela respondeu: - Seu Elizeu, eu queria que o senhor me ajudasse a pagar um tratamento dentário! Antes de ajudar, Elizeu afirmou para quem quisesse ouvir: - Pobre só era pra ter dois dentes, um pra doer direto e o outro pra roer piqui! 
            Esse é o Rolim. Homem de muitos causos, muitos repentes, muitas histórias e muitas lutas. Um brasileiro. Despeço-me dele, já com saudade deste bate-papo tão interessante.

*Álvaro Braga é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Barra do Corda

(TB/18jul2010)