Artigo
O homem que foi surrado
com uma cobra

jornal Turma da Barra

 

*Álvaro Braga

            Esse fato bizarro, que dá nome ao título da crônica, aconteceu em Barra do Corda no ano de 1978.
            Era uma manhã de sábado, por volta das 7h, quando um cearense, vendedor ambulante, chegado de Pedreiras, deitou um pano vermelho no chão da praça Getúlio Vargas, na calçada em frente ao edifício Machado, abriu um velho saco e ali colocou alguns produtos para vender, como óleo de tartaruga da Amazônia, óleo de puraqué, banha do bôto-cor-de-rosa, óleo de baleia, banha de cobra cascavel e pomada de aruanã.
            Depois de colocar no chão os seus produtos extravagantes, o vendedor retirou de suas tralhas uma mala de madeira fechada, o que atraiu a curiosidade dos passantes.
            Logo ele começou a anunciar os seus produtos e atrair a atenção das pessoas que passavam e vinham do mercado.
            Em torno dele formou-se uma aglomeração, fascinados pela voz do ambulante que prometia curas milagrosas com suas pomadas e óleos de peixes e répteis.
            Com sua voz potente de experimentado vendedor, calejado pela vida, ele prometia curar: bico-de-papagaio, frieira, olho-gordo, antraz, fimose, unheiro, coceira, curuba, mordida de cachorro-doido, cobreiro, chulé, unha encravada, dor-de-corno, liseira, piolho, hemorróida-de-botão, lombriga, bicho-de-pé, asma, calo seco, verruga, chifre, tosse braba, caspa, pira, dor no “estambo”e engasgo com espinha de traíra.
            Um gaiato perguntou se ele curava barriga d”água  e ele respondeu rápido:
             - É minha especialidade!
            Percebendo que a manhã ia ser das mais lucrativas, ele abriu a mala de madeira. Nela estava enrodilhada uma grande jibóia malhada, de mais de um metro, que logo tratou de levantar a cabeça, para susto dos curiosos.
            O vendedor falava para a multidão: - Podem passar a mão nela que é mansa, não tem problema!
            E continuava a anunciar e a vender seus produtos: Uma pomada para o senhor, um pote para aquela senhora. Quem vai querer mais? O produto é garantido!
            E a lábia do sujeito era grande:
            - Moça bonita não paga, mas também não leva! Quem quer mais, olha, olha!
            E as pessoas compraram quase todo o estoque de pomadas e vidros de óleo do sujeito, apesar da origem e eficácia duvidosa.
            Mas um fato inesperado mudou o desfecho daquele dia, que prometia ser mais um dia normal, para quem vendia seus produtos de cidade em cidade, desde o Ceará, passando pelo Piauí e Maranhão.
            Depois de uma noite de farra nos bares, na noite anterior, vinham com destino ao Guajajara Clube, o Dom Régis Falcão, com seu cavaquinho, e seus fiéis mescudeiros, o Pepeu com o seu violão e o Zé Bikin com a sua flauta.
            O Régis, se incomodou com aquela multidão na calçada e com aquele comércio de mercadoria duvidosa.
            Chegando perto do ambulante, Régis, que estava meio de ressaca foi dizendo:
            - Como é que você não tem vergonha de vir para a Barra do Corda enganar as pessoas com essas pomadas que não serve pra nada, seu malandro?!
            E sem dar tempo de reação, pegou no rabo da cobra, e antes dela  se enrodilhar em seu braço, passou a açoitar o vendedor com a dita cuja.
            Os primeiros “golpes de jibóia” por cima do ombro do homem, lançou excrementos do réptil nos presentes, numa cena típica de filme de Mazzaropi.
            Depois bateu com ela no chão que a barriga abriu.  A cobra ficou se contraindo de dor.
            O homem visivelmente zangado, criou coragem e disse para o Régis:
            - Essa cobra é meu ganha pão. Eu quero uma cobra nova!
            E saiu para dar parte do Régis na delegacia.
            João Bileu que estava presente, pegou a cobra ferida e foi contar o ocorrido para dona Aurora Falcão, mãe do Régis, que se espantou quando a viu, dizendo: - Viche!
            Logo cuidaram de levar a cobra para “consertar” no consultório do doutor Anísio, que ficava na casa onde depois iria morar o Zé Cachimbo e sua família.
            A notícia se espalhou pela cidade. No mesmo dia aconteceu a capotada que o Édem, filho de dona Dária deu em um fusca que ele pegou para dar uma volta.
            Doutor Anísio costurou a cobra e a salvou, depois de séria operação. E depois foi entregue ao homem, mas, mesmo assim o delegado intimou Regis a pagar Cr$ 800,00 (oitocentos cruzeiros), que na época não era tanto dinheiro assim, mas que daria para “comprar uma nova cobra”.
            Dona Aurora pagou ao “homem da cobra” o valor estipulado e durante muito tempo se comentou na Barra sobre o dia em que um homem pegou uma surra de jibóia, fato insólito e inédito na história da humanidade.
            Só mesmo o Dom Régis, para ser o protagonista de cena tão hilariante.

*Álvaro Braga é membro da Academia Barra-Cordense de Letras

(TB/13nov2011)

 

 

Artigo
Campus da UFMA é solução sim
jornal Turma da Barra

 

*Álvaro Braga


            Li com muita atenção o artigo do professor Cláudio Ferreira Lima, da referência nacional que é a Universidade Federal de Viçosa - MG, e o mesmo demonstrou um admirável conhecimento sobre a questão educacional em um contexto mais amplo.
            Eu diria, emérito professor, que nossa cidade de Barra do Corda está com 30 anos de atraso em relação às outras cidades maranhenses que foram contempladas. Para exemplificar meu raciocínio, vamos lá no site da UFMA para ver, ipsis literis, o que nossa cidade da região central maranhense está perdendo, com prejuízos incalculáveis, na esfera educacional, sócio-econômica, política e humana. Lá diz:
            "Com mais de três décadas de existência, a UFMA tem contribuído, de forma significativa, para o desenvolvimento do Estado do Maranhão, formando profissionais nas diferentes áreas de conhecimento em nível de graduação e pós-graduação, empreendendo pesquisas voltadas aos principais problemas do Estado e da Região, desenvolvendo atividades de extensão abrangendo ações de organização social, de produção e inovações tecnológicas, de capacitação de recursos humanos e de valorização da cultura."
            Uma nova Universidade para o Maranhão, é o que podemos vislumbrar de melhor para nossos jovens. Mas isso leva tempo, estudos, projetos, política macroeconômica, e também vontade governamental nas três esferas do poder, não para pensar o Maranhão até 2050, mas já para 2020.
            No entanto, caro mestre, em virtude de tão grande atraso e déficit educacional, sem desmerecer seu pensamento, que se mostrou de vanguarda, sem ser utópico, ou visionário, no momento temos que ser pragmáticos ao buscarmos o possível. Para nós, no momento pensar Grande é termos, ao menos, a UFMA por aqui.

*Álvaro Braga é historiador, mora em Barra do Corda (MA)

(TB/10dez2010)

 

 

Artigo
Restaurantes populares municipais: um sucesso
jornal Turma da Barra


 


Restaurante Popular em Imperatriz

*Álvaro Braga


            Fundado há quase dois anos, o Restaurante Popular de Imperatriz é mantido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome em parceria com a Prefeitura Municipal de Imperatriz, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDES), serve diariamente 800 refeições à comunidade de segunda à sexta-feira pelo valor simbólico de 1,00 real.
            O projeto é o que se pode chamar de uma parceria de sucesso. É o que dizem as centenas de pessoas que trabalham no centro da cidade, e que, ao meio se dirigem para a rua Simplício Moreira, para pegar uma senha, pagar um real e enfrentar uma pequena fila para receber um bandejão, no qual são servidos pelas nutricionistas uma alimentação saborosa e balanceada com os mais diversos ingredientes e variado cardápio.
            O coordenador Natalino Lima faz uma avaliação positiva da função social do Restaurante Popular de Imperatriz: “Esse projeto é de primordial importância à comunidade, com a questão social do povo, contribuindo para a redução da fome e a miséria”, frisa.
            Ele lembrou na ocasião que o Restaurante Popular de Imperatriz tem recebido a visita de pessoas dos estados de Goiás e São Paulo. “Essas pessoas também ficaram admiradas com o nosso trabalho, bem como o atendimento que é dispensado a nossa clientela”, acentua.
            Segundo informações da nutricionista responsável pelo cardápio, semanalmente são servidos alimentos à base de fígado, carne de boi, frango, peixe, e suínos, massas, arroz, feijão, hortaliças, verduras, além de sucos naturais e frutas. (informações do site www.imperatriz.ma.gov.br )
            Taí uma boa idéia que merece ser copiada e realizada pelos nossos governantes, para dar uma melhor qualidade de vida ao povo de Barra do Corda.

*Álvaro Braga   

(TB/22jul2010)

 

 

Artigo
Denúncia: "Meu filho é viciado em crack"
jornal Turma da Barra

*Álvaro Braga


            Aquela senhora humilde, sofrida, a perambular pela cidade em busca de uma solução para o problema de seu filho, que é viciado em crack me chama a atenção. Pergunto a ela como está sendo a sua vida depois que passou a conviver com esse drama.
            M.A.V.S., viúva, 56 anos, me olha, com um olhar de quem busca no infinito um sopro divino que atenue as suas angústias mais profundas, e baixa a cabeça, sem conseguir olhar em meus olhos. Talvez para esconder alguma lágrima que possa denunciar o inferno por que está passando, como se a própria condição de penúria e miséria extrema já não fosse o suficiente.
            E fala. Fala com o coração aberto. Um relato verdadeiro, de uma crueza de assustar, sem rodeios ou subterfúgios:
            “Eu sofro, seu menino. Eu sofro. Tenho dois filhos viciados. Depois que se viciaram quebraram tudo que tinha dentro de casa. Perderam o juízo. Perdi meus filhos. Oh! meu Deus! Perdi meus filhinhos...( e chora! ).
            Já corri de casa feito louca. Caí no meio da rua e o povo me acudiu. Me atacou uma depressão. Eu olho pro céu, perguntando o que eu vou fazer, como vou resolver isso e não encontro resposta. Passo dias e dias andando pro CAPS pra conseguir um encaminhamento para uma internação em São Luis. É uma luta meu amigo. Nem queira saber. Se aqui na Barra tivesse uma clínica pra recuperação desse povo que usa droga seria um alívio para as mães que carregam essa cruz.
            Um dos meninos fala a toda hora de me matar com um pau se eu não der dinheiro pra ele comprar o negócio dos infernos que chegou aqui na Barra. O outro só não quebrou a geladeira porque eu amarrei na parede. Um é mais calmo, quando dá a crise fica na rua andando pra cima e pra baixo. Já o que é mais violento sai gritando, correndo, pedindo socorro, aperreado. Não tem sossego, se entorta todo, fica se contorcendo, se babando. É um horror.
            Eu crio quatro netos com dificuldades. Já to preocupada com eles, de como vai ser, presenciando essas coisas dentro de casa.
            Meus filhos já foram presos  três vezes. Eu mesma chamei a polícia. Chamei sim, pois, o que é que eu vou fazer?
            Minha esperança  é chegar na Barra uma coisa séria, dura, aí tenho certeza de que não fica desse jeito. Os vendedores do crack iam ficar com medo aí paravam de vender.
            Semana passada eles quebraram uma estantezinha de madeira que eu tinha, e os pratos. Arrebentaram tudo. Não tenho mais nada, só o dia e a noite.
            Eu era uma mulher forte, trabalhava na roça lá no interior, agora eu tô com uma agitação no meu juízo. Chego a tomar quatro tipos de remédios diferentes. Além da depressão tenho uma senhora de diabetes, problema de pressão baixa e labirintite e todo dia eu tenho que tomar esses remédios.
            O pessoal diz que ainda sou uma mulher forte, pelo que eu estou sofrendo, pois eu ando sem comer nem dormir direito.
            Eu tenho muito medo do pessoal matar eles no meio da rua. Tem um que só  pensa em brigar com os moleques. Esse chega em casa todo arranhado e sujo, aí me persegue pelo dinheiro que eu recebo do meu auxílio-doença. Ele me bate, me agride, até que eu perco as forças e o juízo e dou pra ele todo o dinheiro que eu trouxe do banco. E ele pega e sai pra comprar droga com cachaça e some no mundo.
            Olhe seu moço, eu tenho medo de matar ou morrer... o meu sofrimento não é fácil. Aqui já era pra ter um lugar para internar esse pessoal. Aquilo é uma droga do satanás!
              no Piquizinho há uma mulher que tem um filho do mesmo jeito. Ontem eu soube que um filho esfaqueou o pai lá na Cohab.
            Eu queria que alguém ajudasse os pais. Eu imploro a Deus todo dia, e peço para ser atendida.
            Eu tô sabendo que tem muitas mães sofrendo. Não é só eu não. Aqui na Barra ta cheio de gente viciada. Já deu vontade de amarrar os meus filhos dentro de casa. Mas isso não resolve. Pra que? Para me processarem?
            Precisa de uma providência grande para ser tomada em Barra do Corda. Depois vai ser tarde. Em São Luís tem as clínicas. E aqui bota aonde?
            Aqui na Altamira tem uma senhora, gente da alta, que ta com esse mesmo meu problema, o filho dela quando passa o efeito da droga ele fica se mordendo todo, igualzinho ao meu. Se as autoridades não tomarem providencias logo aqui vai ficar igual a São Paulo. Lá virou uma peste, eu vejo na televisão todo dia. Não tem mais controle. A polícia largou de mão.
            Se eu soubesse onde fica essa laia que mexe com isso eu ia atrás pra dar uns tabefes, pra ver se deixavam meus filhos em paz!”
            M.A.V.S. ainda encontra forças no fundo de sua alma para ser solidária:
            “Eu tenho muita pena das outras mães que estão passando também pelo que eu estou passando. Se eu souber e puder ajudar eu nem conto até dois, eu ajudo mesmo”.
            Que grande mulher esta senhora. Um exemplo de vida e dignidade! A camiseta de malha que usa, já surrada, traz a imagem de um pássaro com a palavra Felicidade estampada.
            Que ironia!

*Álvaro Braga é estudante de História da UEMA em Barra do Corda

(TB/1ºjun2010)

 

 

Artigo
A arte de engabelar
jornal Turma da Barra

*Álvaro Braga


            Lucídio Portela, sagaz político piauiense, irmão do saudoso Petrônio Portela gostava de afirmar em rodas de amigos: - “A política é como uma nuvem, uma hora está de um jeito, daí a pouco está de outro jeito.” Na verdade ele parodiava José Maria Alkmin, Tancredo Neves e Magalhães Pinto, os possíveis autores da frase.
            O cearense Descartes Sélvas, funcionário do antigo DVOP, getulista ferrenho, de rija têmpera, e fanático por Franklin Delano Roosevelt, dizia abertamente: ”A política é a arte de engabelar o povo.”
            Mormentemente (como dizia o prefeito Odorico Paraguaçu, o personagem que foi a síntese do político engabelador, na primeira novela a cores da TV brasileira, O Bem Amado, de Dias Gomes), me contaram que em Sobral, dos tempos idos, havia um candidato de nome Maia, que não sabia falar em público e resolveu solicitar os préstimos de um amigo falastrão e golpista chamado Conegundes, para que este o apresentasse ao eleitorado na hora do comício.
            Tudo posto e contratado, é chegada a hora. A praça da Igreja lotada. Banda de música tocando seus dobrados, rancheiras e marchinhas. Candidatos apresentados. Palanque armado em cima de um velho caminhão FNM. Maia é indicado para falar. Tremendo mais que cuia de cego em porta de igreja, Maia cochicha ao pé do ouvido de Conegundes, já o empurrando para o microfone: - Vai, agora é contigo. Lasca.
            O pau mandado não se faz de rogado e solta o verbo:
            “ - Eu, que conheço o trabalho deste homem!...”
            Muito bem doutor! Interrompem em aplausos. Conegundes vira-se para Maia e diz: “- Me chamaram de doutor e olha que ainda faltam dezoito anos pra terminar medicina!” E continua, cada vez mais empolgado:
            – “Este homem meus amigos, tem um currículo político dos mais bonitos da vida política de nosso Estado!”
            - “Este homem, meus amigos, quase foi expulso de casa para estar presente aqui com vocês!”
            - “Este homem, meus amigos, tudo o que ele faz, é baseado...” (quando ele falou esta palavra, correu aquele enxame pra cima do caminhão, pensando que era outra coisa e ele teve que voltar as palavras):
            - “Tudo o que ele faz é baseado, nas protuberâncias da vida!” (Aplausos e mais aplausos).
            E prossegue, mais veemente do que nunca:
            - “...Não deixando de lado as excentricidades congêneres da apologética. Eviperando genetrizes macropétalas, de um púcaro desnalgado e exaurível, mas, bacorejando os parâmetros tripétalos, de uma lucidez sem nexo!”
            Foi uma salva de palmas daquelas, e o povo quase enlouquece de emoção com tão belas e sábias palavras.
            Conegundes emenda: “...E no dia 15 de novembro lembrem o número dele: 12 (doze)-6(seis)-24(vinte e quatro), e se você esquecer, lembre de novo: - Uma dúzia e meia de qualira!
            O povo foi ao delírio. Ele então pergunta: - Maia, já tem slogan? Maia responde: - Não! Abarca (manda brasa).
            “- De fuboca a sapatão, vote no Maião!”
            Desceram os dois do carro e lhes aplicaram uma surra tão grande que foram parar no hospital, para aprenderem a nunca mais enrolar o eleitorado.
            Moral da história: Às vezes é possível enganar alguns por muito tempo. Às vezes é possível enganar muitos por pouco tempo. Mas não é possível enganar a todos por todo o tempo.

*Álvaro Braga é estudante de História da UEMA em Barra do Corda

(TB/13mai2010)

 

 

Barra do Corda exige a UFMA
jornal Turma da Barra

*Álvaro Braga

“Cultivai a inteligência e dai-lhe a posse da verdade”

            Alunos dos diversos colégios do 2º grau de Barra do Corda, e a população em geral, estão se posicionando a favor da instalação de um Campi da UFMA na cidade, ao endossarem um abaixo-assinado que tem o seguinte texto:
            “Nós, abaixo assinados, moradores de Barra do Corda, Município encravado no Centro Geográfico do Maranhão, considerando que a educação é um direito protegido pela Constituição Federal; considerando a localização privilegiada do Município; considerando o trabalho hercúleo da atual administração, pela interiorização da UFMA; considerando ainda e sobretudo, o direito dos nossos filhos de ingressarem na universidade pública e gratuita, solicitamos do Reitor da UFMA, Magnífico Dr. Natalino Salgado Filho, a implantação do Campus da UFMA em nosso Município; solicitamos da Prefeitura Municipal de Barra do Corda, através de seu Prefeito Municipal, Sr. Manoel Mariano de Sousa, de criar todas as condições necessárias, doação de área, disponibilização de prédios públicos e apoio logístico e material para a concretização do sonho dos barra-cordenses, A IMEDIATA INSTALAÇÃO DO CAMPI DA UFMA, em nossa cidade.”
            A proposta é legítima e não traz qualquer conotação político-partidária, o que nos faz acreditar que todos os habitantes irão se empenhar na sua viabilização. A cidade não pode ficar a reboque de Grajaú, por exemplo, que, além da UFMA, também está pleiteando um CEFET, através de suas lideranças políticas, empresariais e entidades de classe, como foi veiculado na imprensa, a audiência do Prefeito Mercial Arruda com o Presidente do Senado, José Sarney, que, inclusive, prometeu empenho pessoal no projeto. Um bom exemplo a ser seguido.
            Segundo informações obtidas, existe dotação orçamentária, ou seja, dinheiro, para que a Universidade Federal implante a UFMA também em Barra do Corda, já no próximo ano, bastando para isso que a cidade se mobilize com a união de todos, e sinalize positivamente para que a Reitoria em São Luís possa incluir essa mesma dotação em Orçamento Fiscal ainda este ano.
            A Comissão pró-UFMA de Barra do Corda, estará nos próximos dias visitando as rádios locais para aprofundar a discussão sobre o assunto.
            O momento é propício e ideal para a realização deste sonho do povo de Barra do Corda.
            É agora ou agora!

*Álvaro Braga é estudante de História da UEMA

(TB/10nov2009)

O centenário de nascimento do poeta Olímpio Cruz
jornal Turma da Barra

*Álvaro Braga

         Neste mês de outubro se comemoram os 100 anos de nascimento do poeta, pesquisador, escritor e indigenista Olímpio Martins da Cruz. Olímpio nasceu no lugar Soledade, pertencente à Barra do Corda, cidade do estado do Maranhão, em 20 de outubro de 1909, filho de Zeferino Martins da Cruz e Vicência Craveiro da Cruz. Exerceu o magistério, como professor municipal até o início da década de 40, quando foi nomeado funcionário do então SPI – Serviço de Proteção aos Índios.
         De profunda sensibilidade poética, logo assimilou a cultura indígena, tendo vivenciado no dia-a-dia toda a intimidade e a filosofia daquele povo, fruto de sua vivência e de seu trabalho por longos anos entre as tribos. Olímpio sabia descrever como ninguém o sentimento que se vai na alma do aborígene e deixou isso patente em todos os livros que escreveu.
         Homem de hábitos simples, Olímpio Cruz não dispensava o seu prato preferido, que era galinha caipira ao molho pardo com coentro e cebolinha, para depois, se deitar em uma preguiçosa rede e ficar batendo papo em prolongadas conversas que geralmente se referiam às suas lembranças do passado, com sua mulher Maria, ou com as costumeiras visitas que recebia.
         Em entrevista publicada em novembro de 1978, no jornal “O PAUSA”, de número 01, o poeta Olímpio Cruz recebe em sua casa a visita dos jornalistas Heider Morais e Murilo Milhomem e responde as seguintes perguntas:
         P – Dizem que um escritor, poeta, só depois da morte, pode ele, tornar-se reconhecido. Acredita o senhor nessa proposição?
         Cruz – A maioria só depois da morte. Eu, apesar de não ter alcançado muita coisa, sinto-me satisfeito com os vários prêmios recebidos. Na minha terra, hoje, tenho recebido muito carinho. Antes, a gente recebia muitas pedradas, muita gente não acreditava em mim, não me viram estudar. Presentemente até autógrafo já dei em minha cidade e as homenagens que ultimamente recebi, da prefeitura, maçonaria, etc, fiquei muito satisfeito e emocionado.
         P – Quais as dificuldades encontradas pelo Sr. para publicação de seus livros?
         Cruz – Meu primeiro livro chama-se “Puturã”, editado pelo SPI, hoje FUNAI. No segundo “Canção do Abandono” que custou cinco contos de réis e com grande apoio do Sr. Manoel Milhomem (prefeito na época de Barra do Corda) que foi quem custeou o livro. Canção do Abandono foi um marco. Lutava muito, um sonho que eu tinha. Antes, pensava em publicar com o título de “Solfejos”.
         P – O Sr. desenvolveu outras composições para música além do hino do município de Barra do Corda?
         Cruz – Sim. O hino da cidade de Carolina; o hino do Ginásio N. S. de Fátima, de Barra do Corda, e de um colégio aqui de Taguatinga, além de composições religiosas, com músicas do Moisés Araújo.
         Olímpio Cruz deixou para a posteridade, centenas de poemas, espalhados pelos seus livros e em suas diversas cartas e bilhetes que escrevia aos seus amigos. Nunca deixava de brindar um amigo com uma poesia inédita, versando sobre os mais variados temas, como JK, João Paulo II, Brasília, o rio Corda, o rio Mearim, os índios Canelas, os índios Guajajaras e acima de tudo a cidade de Barra do Corda, que amava com toda a pujança de sua alma.
         Nos quase 28 anos que trabalhou com os índios e nos dez anos que morou numa aldeia, a serviço do SPI, Olímpio guarda na memória histórias engraçadas como aquela do dia em que chegou na aldeia Canela um garimpeiro, pedindo uma índia virgem. Olímpio chamou cinco guerreiros e falou para o branco que era só escolher. “Rapaz, os índios pegaram o garimpeiro e deram uma surra de facão mole”... (bater com os lados do facão), exclamou o poeta, rindo do acontecido.
         Faleceu em Brasília à meia noite e meia do dia 11 de junho de 1996 aos 88 anos, deixando, além de seus queridos filhos, filhas e netos, as letras da Canção Cordina e do Hino de Barra do Corda, que fez juntamente com o maestro Moisés da Providência Araújo.
         Deixou publicados os seguintes livros: Puturã, em 1946; Canção do Abandono, em 1953; Rosas do Tempo , em 1971; Vocabulário de Quatro Dialetos Indígenas do Maranhão, em 1972; Lendas Indígenas, em 1981; Cauiré Imana, onde conta de forma épica todo o drama de Alto Alegre; e o livro Clamor da Selva.
         PARABÉNS, velho Olímpio. Tua vida toda foi uma poesia só, como aquela que inicia assim:

         “Ó minha terra berço tão querida,
         Que te embalas feliz adormecida.
         Teu doce marulhar,
         Das tuas águas puras cristalinas,
         Cantando nas encostas das colinas
         Em noite de luar.”

*Álvaro Braga é escritor e historiador

(TB/18/out/09)

 

 

Carta aberta
ao professor Nonato Silva

jornal Turma da Barra

 

*Álvaro Braga


            Querido amigo professor Nonato Silva, o frei Paulo de Barra do Corda:
            Nossa língua pátria, riquíssima em recursos estéticos, bela na forma, magnífica no conteúdo e romanticamente latina, sofre um paradoxo, e é questionada, quando se observa por exemplo, a poesia “A idéia”, do poeta da morte, Augusto dos Anjos, que traduz uma retórica rebuscada, para dizer que nossa língua não consegue transmitir a centelha intelectual criado pelo nosso cérebro:

“A idéia! De onde ela vem? De que matéria
vem essa luz que, sob as nebulosas,
cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites de uma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas que,
Em desintegrações maravilhosas
Delibera e depois quer e executa

Vem do encéfalo absconso que a constringe
Chega em seguida às cordas da laringe
Tísica, tênue, mínima, raquítica

Quebra a força centrípeta que a amarra
E de repente e quase morta esbarra
No molambo da língua paralítica!!!”

            Uma grande figura de linguagem, criada brilhantemente pelo gênio do festejado vate pernambucano, onde a criação e a concatenação de seu pensamento burilam a métrica celeremente, através dos versos multifacetados, rimas ricas perfeitas, que denotam um domínio de mestre do vernáculo e de toda a estrutura poética.
            Não obstante, a mensagem central, transmitida na célebre poesia, cai por terra, e em contradição, quando lemos Guerra Junqueiro, Olavo Bilac, Castro Alves, Rui Barbosa, José Albano, Pedro Braga Filho, Eça de Queiroz, Juvenal Galeno, Catulo da Paixão Cearense e até... Quintino Cunha, todos mestres imorredouros, e doutores em matéria de língua portuguesa. Todos estes potentados, souberam expressar através de nossa língua mãe, embora sofregamente, os pensamentos-forma gerados na fagulha mental, por obra divina da Criação e da Musa inspiradora.
            Professor Raimundo Nonato Silva, todo esse “arrodeio” bruxuleante foi para dizer que o senhor sim, consegue, de modo amplo, transmitir para o pergaminho, o cerne da idéia, numa explanação metódica, em português puro, escorreito, beletrista, impecável. O meu querido Frei Paulo, consegue amarrar os contextos, agrupar as idéias, sem divagar nem mesmo quando faz um adendo ou contraponto, tudo numa simetria e numa dialética espantosa.
            Hosanas ao senhor. Nós que o conhecemos, e falo em nome de todos, temos um grande orgulho de sua amizade. Barra do Corda, decerto, tem o mesmo orgulho em tê-lo acolhido em seu regaço em 1918, ano recheado de simbolismo, pois que, coincidiu com o fim de uma guerra mundial e também iniciou um período de paz, sob os auspícios de uma nova era.
            O destino o fez sair da “princesa do sertão”, chamado que foi à “Athenas Brasileira”, São Luís, de lá foi à Fortaleza, a “loura desposada do sol”, no dizer do republicano Paula Ney e, no périplo, à Brasília, a terra sonhada por Dom Bosco, idealizada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e construída por Juscelino Kubitschek, o faraó redivivo.
            Como vemos, a utopia não existe, é apenas um fenômeno temporal. Se houvesse, a semente de Leonardo da Vinci não teria encontrado solo fértil em Santos Dumont.
            Neste final de semana, professor, li quase toda a coleção da Revista da Literatura Barra-Cordense. Nosso amigo comum, Urias Matos, me emprestou. Já que estou “devorando” tudo que se refere a Barra do Corda, resolvi ler todas as revistas de um só fôlego. O que aconteceu durante e após a leitura foi algo indizível, um misto de emoção e estupefação. Confesso que me emocionei ao ler seus editoriais, crônicas, artigos e poesias. Jamais tinha travado conhecimento através de leitura, de alguém tão culto, tão erudito, tão sábio e ao mesmo tempo tão humano. E saber que essa pessoa é barra-cordense, que ama Barra do Corda, e que deixa isso patente em tudo que fala e escreve...!
            Sempre fui um leitor inveterado, desde a revista O Cruzeiro, Realidade, Manchete, Veja, coleção “Thezouros da Juventude”, tudo de Machado de Assis, José de Alencar, passando por Monteiro Lobato, Jorge Amado e Capistrano de Abreu mas, em momento algum havia me deparado com um cultor de nosso vernáculo, da belle epoche, na dimensão em que passei a vislumbrar em vossos escritos. Fiat lux!
            Ouso até a parodiar Heider Moraes em sua sábia assertiva, quando diz que o senhor é o maior intelectual vivo de Barra do Corda. Mas, vou além. Que me desculpem Isaac Martins, Frederico Figueira, Dunshee de Abranches, Pedro Braga Filho, Nicanor Azevedo, e muitos outros mestres, mas Raimundo Nonato Silva é o maior intelectual maranhense de todos os tempos!

Álvaro Braga é servidor público federal do INSS, membro da ABC - Arcádia Barra-Cordense


(TB/27/mai/09)